Texto escrito por Laurentino Gomes, ganhador do prêmio Jabuti para autores de não-ficção, em seu blog.

Muitos leitores me escrevem pedindo conselhos. Sonham ser escritores. Alguns são bastante jovens, estudantes com idades entre 12 e 14 anos. Que conselhos poderia eu dar a pessoas de idade tão tenra, na qual a vida é ainda um oceano de possibilidades repleto de escolhas tão difíceis?

O primeiro conselho: leia muito.

Bons escritores são antes de tudo bons leitores. Só a leitura nos ajuda a dominar as ferramentas que a língua portuguesa oferece para que possamos escrever bem. Leia de tudo que puder, mas especialmente literatura brasileira: Machado de Assis, João Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, Érico Veríssimo, Jorge Amado, Dalton Trevisan – há uma infinidade de grandes escritores que dominaram a língua portuguesa como ninguém e podem ser nossos professores, mesmo que alguns já tenham morrido.

Se puder, leia também os autores portugueses. José Saramago pode ser difícil para um leitor iniciante? Então, comece, por exemplo, por Miguel Sousa Tavares, autor do magistral “Equador”. Experimente os autores das ex-colônias portuguesas na África, em especial o moçambicano Mia Couto e o angolano José Eduardo Agualusa, meus amigos pessoais. A leitura dos autores de Portugal e África pode ser uma aventura fascinante, que nos ajuda a decifrar as sutilezas existentes nos dois lados do Atlântico no uso desse tesouro que é a nossa língua portuguesa.

A leitura também vai ensinar o gosto pela pesquisa. Estudar e pesquisar é um prazer inigualável. A pesquisa é a etapa mais lenta, mas também e mais divertida e fascinante no trabalho de construção de um livro. Gosto mais de ler do que de escrever. É uma experiência indescritível desvendar detalhes de um personagem ou acontecimento que eu desconhecia até iniciar a pesquisa sobre o tema. Às vezes sinto-me como um garimpeiro que, pacientemente, remexe o cascalho em busca de uma pepita de ouro. É assim que funciona a pesquisa. Às vezes, o detalhe mais interessante está escondido no meio de um parágrafo obscuro na segunda metade de um livro antigo.

Outra sugestão importante: procure ser organizado e disciplinado no trabalho como escritor. O processo de pesquisa e fechamento da edição dos meus livros é semelhante ao de uma redação de jornal ou revista, só com prazos mais alongados. O segredo da boa reportagem, e também do bom livro, está no planejamento. Jornalista ou escritor que não se planeja corre dois riscos opostos: ou trabalha demais ou trabalha de menos. Se você vai para a rua sem saber se a sua matéria será reportagem de capa, de apenas uma página ou uma coluna de uma revista, acaba apurando ou mais informação do que deve ou voltando para a redação com menos material do que o necessário. Aprendi isso a duras penas nesses trinta anos de carreira.

Ao começar a escrever um novo livro, eu planejo com detalhes todos os passos da pesquisa: quantas e quais obras e fontes terei de consultar, quem poderá me dar orientação sobre o tema, que lugares visitarei, quanto tempo cada uma dessas etapas do trabalho vai exigir. Para fazer o próximo livro, o 1889, sobre a Proclamação da República, já tenho pela frente uma bibliografia de mais de 150 livros sobre o Segundo Reinado e a Proclamação da República. Li até agora pouco mais de trinta. Estabeleci um prazo de um ano e meio para ler o restante. Em seguida, mais seis meses para escrever e outros três meses para editar o livro. E em geral cumpro esses prazos à risca. Acho uma pena que escritores se comprometam em prazos com as editoras e não consigam cumpri-los.

São conselhos simples, até óbvios, mas acho que podem ajudar muito esses jovens candidatos a escritores ao longo dessa bela caminhar que se propõem a realizar.

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