Para Mark Derr, autor de ‘How the dog became the dog’, a teoria de que os cães se originaram de lobos selvagens, quando os homens se tornaram sedentários, está errada. Para ele, novos dados arqueológicos e genéticos indicam que a aproximação aconteceu muito antes

Raphael Veleda na Veja

Lobo CinzentoMatilha de lobos cinzentos na neve: ancestrais de todos os cachorros (Getty Images)

Por volta de 15.000 anos atrás, o planeta estava saindo da última Era do Gelo. À noite, lobos rondavam as primeiras aldeias pré-históricas, em busca de comida fácil, os restos jogados fora pelos humanos. Era o início de uma grande e duradoura amizade. Ao longo de gerações, as duas espécies foram se aproximando e os homens passaram a criar filhotes de lobo. Os mais mansos ficaram nas aldeias e foram se diferenciando de seus ancestrais. Sem ter que dilacerar a caça, foram perdendo a força da mordida. Mal alimentados pelos homens, com sobras, perderam tamanho. E se tornaram uma espécie diferente dos lobos, a primeira espécie animal que surgiu graças à interferência humana.

Esta é a teoria mais aceita pela maioria dos cientistas. O pesquisador americano  Mark Derr, no entanto, desenvolveu novos argumentos para afirmar que a parceria homem/cão é muito mais antiga do que se pensa.  No livro How the dog became the dog – from wolves to our best friends(Como o cão se tornou o cão – dos lobos aos nossos melhores amigos, sem edição em português), Derr se baseia em novos estudos genéticos e arqueológicos para defender que os primeiros cachorros apareceram há pelo menos 30.000 ou 40.000 anos, quando o Homo sapiens ainda se comportava de maneira nômade.

O livro lançado nos EUA é porta voz de uma teoria minoritária, porém cada vez mais popular, que defende que os lobos cinzentos se aproximaram dos humanos quando nossa espécie ainda vagava pela África, Europa e Ásia, caçando, e coletando frutas e raízes. O autor afirma que não há provas arqueológicas cabais desse encontro porque os lobos que se aproximaram do homem não se diferenciaram fisiologicamente de seus irmãos selvagens pelos milênios seguintes. “Mas eles viajavam juntos há muito tempo e continuam fazendo isso até hoje”, afirmou ele, em entrevista ao site de VEJA. Para Derr, os lobos cinzentos se aproximaram dos humanos por curiosidade. A fase de observação deve ter durado gerações. “Os animais têm diferentes personalidades, como os humanos. Assim como há homens corajosos, há os que têm medo da própria sombra. Eu acho que os lobos mais sociáveis e os humanos mais sociáveis se aproximaram, começaram a correr juntos e nunca mais pararam.”

Crânio raro encontrado na Bélgica pode ilustrar domesticação do cachorro antes última da Era do Gelo. A seta indica a parte retirada por cientistas para análise de datação por carbono / Divulgação/ Ovodov ND- Russian Academy of Sciences, Institute of Archaeology and Ethnography, Novosibirsk, Russia

O pesquisador também defende que a domesticação do animal ocorreu em áreas e tempos diferentes ao longo da história, por isso deve haver muitos “elos perdidos”, que se diferenciaram dos lobos, mas não originaram os cães modernos .Derr baseia sua hipótese em descobertas como a de um crânio encontrado nas montanhas Altai, na Sibéria, que tem 33.000 anos e algumas características diferentes dos lobos selvagens, como o focinho. OU ainda em casos como o de um fóssil, encontrado na caverna Goyet, na Bélgica, que tem 31.700 anos de idade. “Estudos do DNA mitocondrial apontam para a presença de animais diferentes de lobos há um período que pode variar de 45 a 135.000 anos atrás”, conta ele. “Em tempo geológico não é nada, mas do ponto de vista biológico é determinante.”

Polêmica — Autor de outros cinco livros sobre cães, nenhum deles publicado no Brasil, e colunista de publicações como The New York Times e Scientific American, Derr está longe de ser unanimidade entre os especialistas. Com mais de 50 trabalhos relacionados a cães, o biólogo evolucionista Raymond Coppinger, professor no Hampshire College, em Massachusetts, EUA, tem pesquisas citadas no livro e leu a obra. Para ele, o material não tem validade científica. “O senhor Derr não é muito rigoroso em sua avaliação da literatura científica recente sobre a origem dos cães e tende a escolher os achados mais espetaculares e que corroborem com o argumento defendido por ele”, afirmou a VEJA.

Para Coppinger, as hipóteses sugeridas por Derr não podem ser provadas. “Entre 7.000 e 9.000 anos atrás, há evidências inegáveis da presença de uma população de cães. E população é a palavra chave, porque é nesse nível que se dá a evolução de uma espécie”, explica. “Antes disso, há espécimes que o autor ‘suspeita’ que podem ser o ‘início’ dos cães. Mas são evidências arqueológicas que não acrescentam nada. Ele cita espécimes de 30.000 e de 18.000 anos que tem a ossada e a arcada dentária típica da classe dos lobos. Cita outro de 12.000 anos que é um filhote. Mas nenhum especialista pode diferenciá-lo de um filhote de lobo”, afirma .

Para Mauro Lantzman, veterinário e especialista em comportamento animal da PUC-SP, a explicação da domesticação tardia tem mais evidências e faz mais sentido. “O ser humano, quando nômade, não tinha esse conceito de criação. Mas uma vez que ele se tornou sedentário e começou a dominar a agricultura, partir para o cuidado dos animais foi um passo natural”, avalia.

Para a doutora em genética Priscila Guimarães Otto, professora aposentada do Instituto de Biociências da USP, não é possível confirmar nenhuma das hipóteses. “São muitos os estudos, como os de DNA, DNA mitocondrial e morfologia. E muitas as prováveis datas, pois são contadas aos milhares de anos”, diz. “Lobos cinzentos existem há uns 50 milhões de anos e podem ter começado a ter interesse nos restos alimentares da espécie humana desde os 30.000 anos defendidos por Derr, mas o fato é que os restos mais antigos do cão doméstico, que descende com certeza dos lobos, datam de 10 a 15 mil anos atrás.”

Derr se defende dizendo que cada abordagem científica aponta resultados diferentes. “Há respostas melhores que outras, mas eu não tenho certeza de que chegaremos a uma definição porque não sei se temos as ferramentas necessárias”, afirma.

Raças — É consenso entre os especialistas que os primeiros cachorros eram muito parecidos com os lobos que os originaram. A diferenciação entre esses primeiros indivíduos se deu, em grande parte, pela vontade do homem. “Conforme a necessidade de determinado grupo de humanos – caçar, perseguir, guardar ou apenas servir como animais de estimação – eles escolhiam entre seus diferentes cães aqueles que demonstrassem mais aptidão e dirigiam os cruzamentos entre esses animais”, explica Priscila Otto. “Esse processo de seleção artificial, com cruzamentos escolhidos pelo homem continua até hoje e o resultado é que as diferenças em tamanho, conformação e comportamento entre as cerca de 400 raças ‘oficiais’ atuais são substanciais.”

Para Derr, o processo de criação de raças afastou os cães de seus antepassados. E isso pode ter sido determinante para que o homem se sinta tão ligado a esse animal. “Os criadores de raças suavizaram a aparência dos animais ao ponto de infantilizar muitas raças. Outras tiveram o tamanho da cabeça reduzido, focinhos achatados e os olhos frontais modificados. Uma aparência civilizada para combinar com seu comportamento mais ‘decente'”, explica ele, no livro, que ainda não tem previsão de publicação no Brasil.

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