Marleth Silva, na Gazeta do Povo

Um homem morreu e sua morte me fez desenterrar um tesouro. Quem morreu foi George Whitman, dono da livraria Shakespeare & Co, em Paris. O tesouro é um livro que eu comprei lá. Intitulado Tumbleweed Hotel, tem uma capa amarela enfeitada com a foto de uma menininha loira, uns desenhos de flores em padrão art nouveau, um desenho do rosto do próprio George e um poema. É uma edição muito simples, erros de digitação aparecem aqui e acolá. E é cheio de preciosidades.

Fui atrás dele, guardadinho que estava na estante, quando li que George Whitman morreu na quarta-feira, em Paris, dois dias depois de completar 98 anos. Lembrava que estive lá há 20 anos, em uma manhã de primavera. A loja estava vazia de clientes e abarrotada de livros. Notei as tábuas improvisadas sobre as portas que vergavam sob o peso dos livros. Notei o gato preto e branco. E notei o homem, que me deu o autógrafo – Tumbleweed Hotel é uma edição da Shakespeare & Co que reúne textos autobiográficos escritos por moças que se hospedaram na livraria. Eu não lembrava o autógrafo nem das fotos e ilustrações.

O que eu lembrava bem era do encantamento que aqueles textos me causaram. As hóspedes de George (como elas o chamavam) parecem sinceras. Estavam todas em fase de transição, viajantes que buscavam experiência e descobertas antes de voltarem a se assentar em seus países de origem. George lhes oferecia pouso em camas improvisadas no meio das estantes do primeiro andar. Em troca, tinham que ajudá-lo na loja, ler um livro por dia e escrever uma pequena biografia. Como 99% das moças sonhavam ser escritoras, submetiam-se com alegria às exigências. Além do pouso gratuito, ganhavam a chance de participar de saraus literários em que apareciam poetas, escritores e aventureiros de todo o mundo de passagem por Paris. Uma delas se queixou em seu relato que, como no local sempre havia pessoas entrando e saindo, elas tinham de aturar abordagens de homens mulherengos e egocêntricos.

Sobre o próprio George se disse que preferia as moças de cabelos longos e saias curtas, mas não há relato de que tirasse proveito de sua posição de dono da hospedagem (aliás, também hospedava homens, mas eram menos numerosos). O que se sabe ao certo é que ele foi fascinado por duas mulheres. A primeira, Sylvia Beach, foi uma americana, filha de um pastor presbiteriano, que se instalou em Paris por volta de 1914 e – veja o círculo se fechando – apaixonou-se por uma livraria e por sua dona, Adrienne Monnier. Sylvia abriu sua loja para vender e emprestar livros em inglês e batizou-a de Shakespeare & Co. Acabou criando um círculo de amigos escritores e ajudou alguns deles a publicar seus primeiros livros, entre eles James Joyce, de quem ela editou Ulisses. Durante a Segunda Guerra Mundial, a loja foi fechada, os livros tiveram de ser escondidos e Sylvia foi detida. Com a libertação de Paris, a Shakespeare & Co reabriu e funcionou por mais alguns anos.

George Whitman, que já tinha um longo currículo de viagens pelo mundo, assentou-se em Paris e abriu sua própria livraria, a Mistral. Encantou-se por Sylvia e tornou-se seu amigo. Ela o autorizou a usar o nome de sua antiga livraria. Assim, em 1962, a Shakespeare & Co teve sua segunda encarnação na Rue de la Bûcherie (na verdade, era a mesma Mistral com outro nome). Também manteve proximidade com escritores e esforçava-se para publicar livros de autores em início de carreira. Mas foi por causa do charme de sua livraria e do acolhimento aos jovens viajantes que se tornou conhecido.

A segunda mulher por quem George foi fascinado é sua filha, batizada de Sylvia Beach Whitman. Muitas fotos mostram George paparicando a menininha. Ele foi um pai tardio. Por isso é ainda bem jovem a herdeira que o substituiu quando ele se retirou para seu apartamento, no segundo andar da loja. Ela introduziu o computador para controlar o estoque e uma página na internet. No mais, manteve as prateleiras abarrotadas. Se ainda mantém os “anjos disfarçados”, não sei. Me refiro aos hóspedes que, por mais de 40 anos, dormiram na sobreloja da Shakespeare & Co. George justificava a presença deles lá com um verso do poeta inglês Yeats: “Não negue hospitalidade a estranhos, eles podem ser anjos disfarçados”.

Grande personagem este George Whitman.

arte: Felipe Lima

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