Texto escrito por Camila Kehl no belíssimo Livros Abertos

Já li inúmeros textos descritivos e opinativos a respeito do mercado editorial — a maioria escrita por quem faz parte deste meio, ou por pesquisadores que publicaram algum estudo sobre o assunto. O material a que tive acesso, relativamente extenso, o encontrei em sites, jornais e revistas. Comecei a me aprofundar depois que iniciei o blog; a busca, portanto, aconteceu voluntariamente, iniciativa que pode ser creditada precisamente à vontade de mostrar ao leitor uma visão mais apurada e embasada do universo das obras literárias — algo que, claro, envolve a forma como estas são comercializadas.

O leitor, quando não recorre inteiramente a bibliotecas (e isso é quase impossível), é um consumidor. E, como tal, tem pontos de vista sobre o mercado dos produtos que consome, visão que é mais definida e complexa quanto maior o é volume de obras adquiridas.

Não, eu não fiz nenhuma pesquisa. E o que digo aqui é uma opinião inteiramente pessoal. O que eu, Camila, leitora voraz, e portanto uma grande consumidora de obras literárias (já que não recorro tanto assim a bibliotecas), percebo, e de que forma me comporto. É bom frisar que fui moldando minha percepção ao longo de alguns anos enfurnada neste universo; alguns hábitos, adquiri-os através da família, que já mantinha um acervo considerável quando eu nasci.

1. Procuro em sebos. Antes de qualquer coisa, eu busco revendedores de livros usados. Já escrevi sobre isso aqui. As obras podem ser raras (autografadas, muito velhas, primeira edição), antigas ou seminovas. Geralmente procuro pelo último tipo — edições relativamente recentes que não têm aparência de manuseadas, mas que, por serem usadas, são vendidas com desconto. Ou aqueles livros que estão esgotados nos fornecedores.

2. Eu compro online. Nada é mais desagradável do que entrar em uma livraria em um sábado e ouvir choro estridente de criança, sujeito berrando no celular, gente, enfim, que parece ter saído diretamente do blog [manual prático de bons modos em livrarias]. Não dá. É impossível ler uma contracapa que seja, e péssimo optar por um livro sem ter entendido direito seu contexto. Portanto, sento confortavelmente e gasto o tempo necessário — geralmente algumas horas — fazendo a compra pela internet.

3. Livraria ou editora? Tanto faz. Mostra-me as promoções e eu te direi quem és. Se o preço for o mesmo, e eu estiver de olho em uma obra para presentear, por exemplo (não vou presentear ninguém com livro de sebo), opto pelo frete mais rápido e/ou mais barato.

4. Eu aproveito promoções. Editora dando 40% de desconto? Quero. Livraria com frete grátis? Aproveito para comprar alguns livros da minha listinha (que curiosamente só aumenta).

5. Raramente gasto com outros produtos. Vocês devem se perguntar como eu compro tantos livros e não vou à falência. Não sou filha de político, de bancário ou de presidente de grande empresa. Também não sou nada disso. Sou uma redatora, assalariada e também freelancer. Mas eu raramente tenho outros gastos além de livros. Não vejo graça nenhuma em comprar toneladas de roupas, sapatos, cosméticos, eletrônicos.

6. Eu parcelo. Como compro muito, é óbvio que preciso parcelar para poder comprar… mais. É a lei da selva, não? Jamais conseguiria abater meus gastos com livros de uma vez só (só aparecem faturas de livrarias e editoras no cartão).

7. Não tenho leitor digital. Ainda estou pensando se compro ou não compro um Kindle. Sei de todas as suas vantagens e acho que poderia me beneficiar com um, mas tenho medo de não me adaptar à tecnologia e de não ver graça nenhuma na novidade. Por isso, prefiro esperar. Até porque o mercado brasileiro está dando os primeiros passos quando se fala nessa tecnologia.

8. Tenho autores favoritos, mas gosto de descobrir novos. É mais do que certo que, quando Philip Roth lançar um livro novo, eu vá comprá-lo. Ainda assim, tenho vontade de ler autores que nunca li. É o caso de Miguel de Unamuno, só para citar um que está na minha mira há algum tempo.

9. Detesto edição feia. Aquela cafonalha desgraçada que a Bertrand Brasil fez com o coitado do Hemingway é digna de uma sessão de choro sentido. Nunca vi capas mais abomináveis. A sensação que o leitor tem é de estar levando para casa uma autoajuda barata. Se outra editora tivesse Hemingway em catálogo, eu daria preferência a ela? Certamente. Entre duas apresentações medianas, por exemplo, vou pela tradução. Entre uma apresentação sofrível de tão feia e uma mais agradável aos olhos e ao tato, e cujas traduções se equiparem, eu levo a segunda. Não faz mal se for mais cara.

10. Pocket ou normal? Se não encontrar a edição normal, vou de pocket. Mas é em último caso. Aprendi que algumas traduções deixam a desejar. Não estou falando de edição econômica, que é simplesmente a mesma obra em tamanho reduzido. Falo das que já foram encomendadas com o intuito de serem de bolso.

11. Editora favorita? Declaradamente Cosac Naify. A Companhia das Letras tem se equiparado com louvor. Por quê? Tradução. Capa. Diagramação. Papel. Design. Encadernação. Em resumo: cuidado.

12. Leio os blogs das editoras. Adoro especialmente o da Companhia das Letras, e raramente há um post do qual eu não tenha gostado. Acho que esse cuidado em preparar conteúdo para os leitores — consumidores — é um diferencial positivo. Há outros blogs de editoras, por exemplo, que deixam a desejar (conteúdos descaradamente copiados e colados, ou que se limitam a apresentar seus lançamentos).

13. Não leio autoajuda ou livro místico — nem se me pagarem. Vou atrás de boas indicações, de resenhas, de avaliações em jornais em revistas, mas mantenho uma linha definida entre o que eu considero literatura de qualidade e o que eu considero literatura ruim (ou pretensa).

14. Acho que as editoras ainda estão melhorando no quesito social media. Demonstram ter maior noção do que estão fazendo no Twitter e no Facebook.

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