Texto escrito por Leilane Soares no Cinema com Rapadura

Que tipo de pessoa você é? Generosa? Se preocupa com o bem estar de quem está perto ou pensa apenas em si mesmo e nos seus problemas? Você é assim o ano inteiro? E quando chega a época do Natal? É invadido por uma sensação de solidariedade, esperança, paz e amor ou a data é apenas mais uma data comercial presente no calendário para enganar as pessoas de bom coração?

Em “Um Conto de Natal”, essa pequena história contada magistralmente por Charles Dickens, somos apresentados a uma pessoa que não tem interesse nenhum na data mais esperada do ano e diz, para qualquer pergunta relacionada à data, se tratar apenas de bobagem. Uma coisa sem importância, que apenas os tolos são capazes de se importar, pois tudo o que lhe interessa é o seu negócio, o dinheiro e o quanto ele pode economizar até poupando o único empregado da firma de usar mais carvão para se aquecer em pleno inverno.

A história tem inicio nos informando, de maneira mais direta impossível, que o sócio do senhor Scrooge está morto. Marley estava devidamente morto, com testemunhas e pessoas para provar. Não deixou família, nem amigos que sentissem sua falta, tudo o que tinha era a casa onde morava com o velho amigo e sócio Scrooge e bem como a firma que os dois administravam. Sendo assim, tudo o que ele possuíra em vida passara automaticamente para a única pessoa que lhe fizera companhia e partilhava da mesma filosofia de vida que ele. Scrooge passou os anos seguintes tocando o negócio sozinho. Por onde quer que passasse, as pessoas o reconheciam pela aura de mau humor, avareza, por estar sempre fechado em si mesmo e nunca conceder um sorriso sequer a quem quer que fosse.

É na véspera do Natal, quando recebe a visita inesperada do sobrinho, que o convida para participar da ceia junto com a família, e após expulsar um homem que vinha em busca de caridade, que ele, ao chegar em casa, se depara com uma coisa estranha: a aldrava de sua porta estranhamente possuía o formato do rosto do ex-sócio, morto há sete anos. Depois de piscar diversas vezes achando que estava tendo uma alucinação, olhou novamente o objeto e constatou que não tinha nada de anormal. Ao entrar na casa, assustado com o que tinha acontecido, percebeu, ao entrar em cada cômodo, que estava de fato sozinho na casa. Mas quando se preparava para dormir eis que um forte barulho de correntes chega até ele e minutos depois a figura fantasmagórica de seu ex-sócio, envolto em correntes, atravessa a porta e para a sua frente.

O que se segue são fatos que, para Scrooge, parecem apenas frutos de algo que foi mal digerido durante o jantar. Mas ele logo põe essa ideia absurda de lado ao ouvir o grito agourento do fantasma e o que ele tem a dizer: se caso não mude seu modo de vida e o modo como trata as pessoas, vai acabar como ele, acorrentado pelo resto da eternidade, sem direito a descansar, vagando infeliz graças à vida avarenta e mesquinha que levou. Mas, ao contrário do sócio, Scrooge logo descobre que terá uma oportunidade. Naquela mesma noite, ele receberá a visita de três fantasmas, cuja missão é dar uma chance ao velho para que ele se redima de suas ações e tenha um destino diferente do que aconteceu com Marley.

E é assim, em uma hora que pareceu durar muitas noites, que Dickens nos apresenta aos fantasmas dos Natais Passados, Presente e Futuros. Enquanto o fantasma dos Natais Passados mostra a Scrooge como ele um dia foi, um garoto taciturno, mas que se tornou um jovem alegre que gostava de dançar e partilhava da alegria da data; o fantasma do Natal Presente, enquanto espalha amor e fraternidade durante a noite, mostra fatos que o próprio Scrooge desconhece: como a condição em que vive seu único empregado, o regozijo da família diante de uma ceia de natal bem posta, e a surpresa ao notar que, mesmo com o tratamento que recebe dele, ele oferece um brinde a sua saúde e deseja um feliz natal; enquanto isso o fantasma dos Natais Futuros, que não pronuncia uma única palavra durante todo o percurso, mostra tudo aquilo que ele representa para as pessoas por conta de suas ações.

O final da história, que é tido por muitos como previsível, mostra de modo sensível uma das lições mais antigas: a vida nada mais é do que a atitude que adotamos diante das adversidades, dos outros e de nós mesmos. Não é a toa que, mesmo depois de tantos anos, essa história encantadora de Dickens continue a encantar leitores em todo o mundo.

A última adaptação cinematográfica da história do avarento Scrooge chegou às telas dos cinemas em 2009 pela Disney. “Os Fantasmas de Scrooge” chegou em formato de animação e trouxe em seu elenco pesos pesados como Jim Carrey (“Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”), Gary Oldman (“Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2”) e Colin Firth (“O Discurso do Rei”).

Além disso, o conto é citado em diversas obras e serviu de inspiração para vários personagens como o famoso Tio Patinhas, em inglês Uncle Scrooge, que protagonizou com o Mickey uma adaptação da Disney para a obra de Dickens em 1983 intitulada “Um Conto de Natal do Mickey”. As referências a essa obra ainda aparecem de formas variadas ao longo dos anos em filmes como “O Expresso Polar”, com Tom Hanks, quando uma marionete se apresenta como Ebenezer Scrooge; ou em “Um Conto de Natal dos Muppets”, exibido em 1992, que contou com Michael Caine no papel de Scrooge e Caco, o Sapo, no papel do empregado Roberto Cratchit.

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