Publicado originalmente no Diário do Nordeste

JAMES JOYCE (na foto), William Shakespeare e Edgar Allan Poe: literatura de língua inglesa domina lista de 501 livros que merecem ser lidos

“501 livros que merecem ser lidos” escorrega ao supervalorizar a literatura de língua inglesa

É difícil precisar qual a real (ou, pelo menos, a principal) intenção de quem faz uma lista. Por um lado, é útil como recurso de memória, já que faz um recorte e, inevitavelmente, relega o que não foi selecionado ao esquecimento. Por outro, é um infalível recurso para criar inimizades, ou atrair a ira daqueles que se sentem pessoalmente ofendidos por esta ou aquela exclusão.

Este duplo efeito é, justamente, o principal elemento de atração de um filão editorial que enumera os melhores em diversas áreas, de discos que necessitam ser ouvidos antes de morrer ou dos criminosos mais hábeis e cruéis. O resultado é irregular, mas quase sempre divertido. E não passa daí.

Por isso, “501 livros que merecem ser lidos” é uma espécie de estranho no ninho. O título, um tanto vago, faz menção a uma coleção de obras incontornáveis para os amantes da literatura. O resultado, contudo, é demasiado reducionista. Mesmo para uma lista.

Como toda lista, a do livro não passará em branco sem desagradar leitores. O livro tem dois grandes problemas, ambos de método. O primeiro é uma visão estreita: privilegia, claramente, uma bibliografia anglófona (a literatura brasileira é resumida ao óbvio do que se conhece grosseiramente dela: Machado de Assis e Jorge Amado); o segundo é a eleição pouco abrangente de categorias. Cabem, basicamente, obras de literatura, históricas e memorialísticas. Ficam de fora áreas imensas, sobretudo das ciências humanas, que produziram escritores de prosa robusta, a despeito da adesão ou não do leitor às suas ideias.

O primeiro “problema” tem um impacto direto sobre a tradução da edição brasileira. Afinal, abundam pelas páginas do volume títulos nunca publicados no Brasil. O que dificulta o trabalho posterior (pelo menos, hipotético) de ler os tais livros que merecem ser lidos – ao mesmo tempo, denuncia nossa ignorância quanto a clássicos anglófonos, que conseguem ser ignorados por séculos.

Lacunas

Há ausência incômodas, sobretudo no que toca às obras teóricas. Não houve espaço para o filósofo alemão Walter Benjamin, nem para o semiólogo Roland Barthes, intelectuais indispensáveis do século passado, conhecido pelo brilhantismo das ideias e pela prosa de qualidade. O alemão tem um livro fácil de incluir, o belo “Rua de mão única”, eivado de memórias pessoais.

O antropólogo Claude Lévi-Strauss, autor de textos acadêmicos de inegável sabor literário (à exemplo de suas “Mitológicas” e do memorialístico “Tristes Trópicos”) tampouco foi incluído. Este último, por exemplo, caberia à perfeição entre os relatos de viagem. Barthes também figuraria fácil na mesma categoria, pelo sensível “O Império dos Signos”.

Figuras como Karl Marx e o psicanalista Sigmund Freud perdem qualquer chance. Autores polêmicos, mas, de qualquer perspectiva, importantes e donos de estilos insuspeitos, sequer poderiam ser contemplados – por não poderem ser encaixados em qualquer categoria presente no livro.

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