Escrito por Camila Kehl em Livros Abertos

Domingo, dia 18 de dezembro, a autora espanhola Lucía Etxebarria escreveu um desabafo contra a pirataria em sua página no Facebook. 15 mil fãs tiveram acesso a um post em que ela afirma que mais exemplares do seu livro foram baixados indevidamente da internet do que comprados. Por isso, Lucía ameaça encerrar sua produção por tempo indeterminado, depois de esclarecer que não trabalhou durante três anos “como um camelo” para chegar a este ponto. Sua postura, que não é inédita, foi alvo de críticas e de apoio — de debates, em último caso. Mais uma vez.

A pirataria não é novidade para ninguém, e tampouco poupa outras áreas: filmes, seriados e músicas são ampla e ilegalmente baixados há anos. Talvez tenhamos chegado ao ponto de discutir a pirataria literária graças às novas plataformas de leitura (smartphones, e-readers e tablets), que evitam a cansativa postura e o olhar concentrado em frente ao computador; a tecnologia também nos poupa de elevados custos — financeiros e ecológicos — da impressão de páginas e páginas, uma péssima troca que, no final, acaba por igualar o valor gasto com a pirataria ao cobrado originalmente pelo livro.

Participei certa vez de um programa de rádio cujo tema era Os jovens e a leitura, e onde os demais convidados — uma professora e dois autores — sustentavam que livros não eram objetos caros. Eu discordei timidamente. Meses depois, estou aberta a olhar os dois lados da moeda: do consumidor e do escritor — algo que, saliento, não houve naquele debate: enquanto proclamavam sua certeza do baixo valor do livro, a postura dos demais participantes era tenaz e nada flexível, o que me desagradou. Até os sebos foram trazidos à luz de uma argumentação desesperada — mas lembro que não são os sebos, nem o acesso às bibliotecas, que estão em pauta. Estamos falando do preço de obras novas.

Vejam os números passados por Lucía:

Comparado ao valor total pago pela obra, o escritor ganha pouquíssimo. Se antes já era difícil viver unicamente da literatura, isso se tornou ainda mais problemático. Uma boa forma de suprir essa carência — a necessidade premente que o escritor tem de sobreviver e de ser valorizado como profissional sem precisar recorrer a algum outro trabalho — são os eventos voltados para a literatura: feiras, bienais e jornadas onde um autor é pago para falar, e onde pode aproximar-se do público para angariar simpatia e leitores. A Flip, o mais famoso de todos os acontecimentos, funciona assim. Admito que não teria comprado um livro de Emmanuel Carrère caso não houvesse comparecido à mesa que ele dividiu com Péter Esterházy na Festa Literária Internacional de Paraty. Cativada por sua fala, passei em uma livraria e saí de lá com Outras vidas que não a minha. Resultado: ótima surpresa. É bom frisar, entretanto, que eventos como a Flip não existem unicamente para isso — mas, sob determinado aspecto, auxiliam o autor.

Observamos que a parcela da remuneração do escritor em face à da gráfica e à da editora é pífia; mesmo assim, o livro é um objeto caro. Para piorar, o próprio e-book é vendido a preços elevados, o que nos deixa mais do que desconfiados a respeito do real custo de uma impressão, mesmo daquelas mais caprichadas. Não fiz cálculo algum, mas, por mera observação, os livros pelos quais eu me interesso e costumo comprar custam algo em torno de R$ 40,00, com margem de R$ 20,00 para mais ou para menos. Para uma família das classes C, D e E, a obra literária é um investimento barato? Não é. Quem diz o contrário está querendo forçar uma realidade inexistente. Ainda que o parcelamento e o aumento da renda do brasileiro possam ser levados em conta, a nossa situação não é confortável. Sem contar que não formamos o país com o maior número de leitores. Se algo está mudando, o cenário ainda está longe de ser satisfatório — e o livro, portanto, longe de ser devidamente valorizado.

Outro lado da moeda: por enquanto, infelizmente, é difícil viver de literatura. E digo “infelizmente” de uma forma meio egoísta, porque também eu, daqui a alguns anos, gostaria de escrever ficção. Aspiração risível: a cada dia que passa eu vejo o meu sonho mais e mais distante.

Nada disso é justo com os autores. Eles batalham para fazer da escrita sua profissão (nesse caso, não importa a existência de um diploma e nem sequer a escolha: é preciso reconhecimento), e merecem, como qualquer um, a oportunidade de se afirmar e crescer. Mas a situação também não é justa com o consumidor. Sim, todas as mercadorias têm um preço — mas há necessidade de ser tão elevado? Vejo livros que anteriormente custavam R$ 50,00 sendo vendidos por R$ 10,00 em promoções de uma grande loja virtual. A que preço eles são adquiridos? E não é segredo para ninguém que as editoras não cobram mais barato em seus respectivos e-commerces (já que evidentemente poderiam) para não oferecer concorrência desleal às livrarias. Natural, ok, mas quem sai perdendo é o consumidor.

E aí, como acima eu grifei a palavra mercadoria, podemos deixar o debate ainda mais complexo: qual o preço da arte, se é que a arte tem preço? Sim, ela tem. Mas o que é justo e o que é abuso? Como ajudar o escritor sem afundar o consumidor? Só sei que a resposta não está na pirataria. Jamais fiz um download ilegal de um livro, e, se um dia tiver um tablet ou e-reader, não será então que farei.

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