Publicado originalmente no Diário do Nordeste

Nada substitui a leitura na formação intelectual de um indivíduo e na própria consolidação da consciência de sua cidadania. Todo tipo de leitura é benéfico, da literatura clássica à vanguardista, dos jornais às revistas e magazines, dos textos obtidos através da informática aos livretos populares de cordel, que passaram a ser temas de estudo até mesmo em universidades estrangeiras.

Já se desfez o mito, vigorante no passado recente, de que as histórias em quadrinhos embotariam a imaginação de crianças e adolescentes. Na realidade, observou-se que elas causam o efeito inverso, ou seja, excitam a imaginação e desenvolvem a criatividade visual. Quanto mais abrangente for o universo literário de uma pessoa, mais profunda e eficaz lhe será a percepção do mundo, o discernimento intelectual e a sua integração no contexto da sociedade. Recentes pesquisas revelaram que, até no processo de preservação da memória, entre os mais idosos, o hábito de ler funciona como agente ativo e preciosa terapia.

Torna-se lamentável, portanto, constatar que herdeiros de ricas bibliotecas as tratem como encargo ou peso do qual precisam urgentemente desfazer-se, quando não as deixam ser devoradas por vorazes insetos consumidores de papel, tais como os indesejáveis cupins, sem que nenhum cuidado lhes seja dispensado. Existe também, sob características e circunstâncias ainda mais graves, o caso de instituições públicas e privadas que atiram seus valiosos acervos ao lixo ou ao fogo, sem sequer ponderarem por um minuto o quanto eles poderiam ser úteis se doados a bibliotecas para pessoas carentes ou para amantes da literatura com as necessárias condições de preservá-los com o merecido carinho. As aberrações referentes a esse descaso por vezes beiram os limites do surreal.

Já houve registro de um caso ocorrido em Miguel Pereira, pequena cidade localizada no Interior do Rio de Janeiro, quando centenas de livros, doados pelos moradores locais, foram literalmente incinerados pela Secretaria de Educação daquele município, sob a alegação de que não havia espaço disponível no órgão para abrigar a quantidade de volumes. Embora o mencionado procedimento não contenha a virulência intencional de quando bibliotecas inteiras e coleções de autores censurados foram destruídas por ditadores de regimes totalitários, atos no gênero refletem uma chocante demonstração de ignorância, quase sempre por parte de pessoas que teriam a obrigação de ser razoavelmente esclarecidas. O mundo contemporâneo, identificado com o poder avassalador da informação, tem a leitura como seu pressuposto, eis que o indivíduo precisa não somente saber ler, mas interpretar corretamente o texto apresentado, para ter acesso às informações disponíveis nos canais especializados.

A cultura literária vai muito além dos limites ou do suposto caráter supérfluo que uma minoria irresponsável e alienada lhe tenta imputar. Está mais do que provado que ela é imprescindível à condução de projetos de desenvolvimento e influem decisivamente em sua sustentação, contribuindo de modo sensível para a integração social e difundindo a consciência quanto à exigência do cumprimento de direitos individuais assegurados pela Constituição. Não basta simplesmente erradicar o analfabetismo, mas também se torna fundamental aprimorar a qualidade da alfabetização, estimulando, com a necessária ênfase, o salutar e produtivo hábito da leitura, uma das fontes primordiais de formação da cidadania plena.

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