Publicado originalmente em O Povo

Harry Potter é um menino órfão. Seus pais biológicos foram mortos por um bruxo vilão. Na escola, Harry encontra um grupo de amigos em quem pode confiar. Com eles, o garoto vive aventuras, descobre sua identidade e enfrenta desafios que o obrigam a crescer. Em análise simples, Harry Potter não escapa de qualquer outro herói comum que cumpre uma jornada. Se a trajetória não é diferente e especial, o que explica que, nos últimos 10 anos, sua história tenha sido tão comentada e admirada por crianças, adolescentes e até adultos do mundo todo?

Os números são expressivos. Publicados de 1997 a 2007, os sete livros da saga Harry Potter, escritos pela inglesa J.K. Rowling, foram traduzidos para 69 idiomas e venderam mundialmente 450 milhões de exemplares. No cinema, o sucesso foi digno de arrasa-quarteirão. É a franquia com oito megaproduções de maior êxito da história do cinema.

De 2001 a 2011, cada um dos filmes faturaram em média US$ 1 bilhão em bilheteria. Em saldo concreto, isto significa mais que o dobro do que ganhou cada filme da série Guerra nas estrelas, de George Lucas.

Constatar o sucesso da série na literatura infantojuvenil e no cinema nos convoca a pensar por qual motivo Harry Potter é tão significativo para a atual geração de jovens. Afinal de contas, eles são o público principal da série e que atrai milhares de profissionais de marketing atentos a novos hábitos de consumo. Quais valores existem na saga Harry Potter que dizem respeito ao comportamento dos jovens de hoje, informados e conectados pelo mundo virtual e pelas novas tecnologias?

De alguma forma, quem faz parte dessa geração às vezes se sente quase tão órfão quanto Harry Potter. Se os pais não se separam, eles saem cedo de casa para trabalhar e vivem menos em função da família do que da busca pela estabilidade financeira em um mundo marcado por constantes crises econômicas.

Se a casa não se encontra vazia, existe distanciamento entre desejos de pais e filhos. Os pais adotivos de Harry são seres humanos normais, distantes da realidade mágica que faz parte do mundo do garoto. No lar contemporâneo, os pais normalmente são incapazes de lidar com os anseios dos filhos. Resta ao jovem aprender com os amigos, na escola. Da mesma forma que Harry encontra em Hermione e Ron a melhor saída para desenvolver a aprendizagem.

Com os amigos, Harry enfrenta desafios. É importante frisar aqui a ideia de grupo, de coletivo, que soluciona junto qualquer problema. O jovem atual não quer mais ser reconhecido como indivíduo, mas como parte de uma tribo que compartilha vontades semelhantes – é assim com os emos, os otakus, os indies etc. São times que se encontram em espaços de sociabilidade reais ou em comunidades virtuais. Se na trama de Harry Potter é difícil distinguir o que é realidade e o que é fantasia, a vida infantojuvenil hoje é marcada pelo trânsito de conexões afetivas concretas e virtuais.

É claro que nem todo mundo que gosta de Harry Potter compartilha desses comportamentos. No entanto, é preciso compreender os elementos principais de uma obra artística que possibilitam arriscar processos de identificação com o público de forma geral. Com o fim da saga Harry Potter, o que sua geração de jovens irá consumir? Difícil apostar em algo semelhante. O exemplo que talvez mais se aproxima é a bem sucedida série Crepúsculo, de Stephenie Meyer, que também surgiu da literatura e migrou para o cinema. Só que ainda é cedo afirmar se tal saga poderá se tornar substituto à altura do sucesso de Harry Potter.

Dentro deste delicado jogo de adivinhação, interessa compreender qual o perfil do jovem contemporâneo, como se configura seu estilo de vida, quais suas atitudes no mundo. É claro que, nessa análise, é impossível negar o tradicional desafio de crescer, de se tornar independente, de se afastar do amparo dos adultos, de descobrir e inventar um destino diferente e autônomo. Além dessas características que fazem parte do mito moderno, existe o apelo à magia, à fantasia – mas não é o mistério que sempre instigou a vida humana? Diante desses elementos recorrentes que ainda fazem sucesso, resta buscar o diferencial.

Talvez o novo fenômeno da cultura infantojuvenil seja aquele que mais se aproxime do cotidiano dos jovens, acostumados aos avanços tecnológicos. O próximo livro de sucesso pode ser aquele em que qualquer jovem possa colaborar, interferir e atualizar como um microblog. Ou o novo blockbuster pode ser editado e postado via Youtube, já que é tão comum ver jovens se filmarem e produzirem vídeos com milhões de acessos.

Cabe à indústria cultural ficar atenta a este modelo de consumidor que cada vez mais se aproxima do perfil de Mark Zuckerberg, visto no filme A Rede Social, de David Fincher. Aquele sujeito que, ao querer dar sentido à vida, busca a visibilidade social e o bem estar a qualquer custo.

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