Publicado originalmente no Divirta-se

Escritora Adriana Lunardi

Na literatura brasileira, 2011 não trouxe revelações, mas confirmou expectativas plantadas em anos anteriores. As boas novas vieram de autores há muito calados. Rubens Figueiredo não publicava romance há oito anos e Ferreira Gullar, há 12. Acabaram premiados. A safra trouxe boas confirmações: Adriana Lunardi publicou o segundo livro e confirmou a veia fatalista tão bem costurada na primeira experiência em 2007 e Michel Laub fez um dos livros mais duros e precisos de sua trajetória.

Não houve polêmica no Prêmio Jabuti de 2011: a Câmara Brasileira do Livro mudou as regras e eliminou o segundos e o terceiro colocados. A medida evitou que os premiados em segundo lugar fossem escolhidos como “livro do ano”.

Já a literatura estrangeira no Brasil teve em 2012 um ano importante. A presença de autores de outras línguas tomou conta da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que, anos após ano, firma-se como plataforma de lançamentos comerciais. Lá estiveram o norte-americano James Ellroy, a argentina Pola Oloixarac, o sentimental português Valter Hugo Mãe e o francês Claude Lanzmann, que, após atrito com o moderador da sua palestra, foi até chamado de nazista pelo curador da Flip, Manuel da Costa Pinto.

Distante das polêmicas, as prateleiras receberam novidades de várias nações. De terras lusitanas e falantes do português, chegaram novos títulos de Gonçalo M. Tavares (coleção O bairro), Mia Couto (E se Obama fosse africano?), além de novidades de António Lobo Antunes (As coisas da vida) e um livro perdido de José Saramago (Claraboia), escrito pelo único Nobel da literatura portuguesa nos anos 1950. Outros vencedores da prestigiada honra literária divulgaram inéditos no Brasil, como o turco Orhan Pamuk (O museu da inocência) e o peruano Mario Vargas Llosa (A festa do

bode, O sonho do celta). O argentino Ricardo Piglia (Alvo noturno) foi um dos principais nomes da escrita latina no ano. Cultuados autores de língua inglesa, como Don DeLillo (Ponto ômega), Martin Amis (A viúva grávida) e Hilary Mantel (Wolf hall) e os best-sellers George R. R. Martin (saga As crônicas de gelo e fogo) e David Nicholls (Um dia) foram destaque.

No início de dezembro, uma notícia confirmou a importância das publicações de outros países para o mercado nacional, quando a tradicional editora britânica Penguin tornou-se dona de 45% da Companhia das Letras. Ao que parece, leitor e editor brasileiros compram e vendem letras escritas em qualquer língua.

A felicidade é fácil
De Edney Silvestre. Record, 220 páginas. R$ 29,90.
Silvestre buscou em fatos reais a história do sequestro narrado no livro. Um garoto pobre e de olhos azuis é sequestrado no lugar de um menino rico e mais moreno. O Brasil dos anos 1990 desfila pela narrativa ligeira deste segundo romance do jornalista. Era Collor, corrupção e um país à beira da histeria após o confisco do dinheiro da população servem de cenário para a tragédia do garoto.

A vendedora de fósforos
De Adriana Lunardi. Rocco, 192 páginas. R$ 29,50.
Duas irmãs, uma o espelho da outra, transitam por uma família instável, mas coesa. Uma mãe com depressão e um pai inquieto as levam por caminhos físicos e psicológicos cujo preço se revela na construção da vida adulta. Adriana Lunardi não economiza na dureza e no fatalismo, mas o faz de maneira refinada. A autora integra a chamada nova geração de escritores brasileiros e A vendedora de fósforos é seu segundo romance.

Diário da queda
De Michel Laub. Companhia das Letras, 152 páginas. R$ 38,50.
Por meio de lembranças de um episódio da infância, o personagem de Laub discorre sobre identidade e afeto. Um acidente intencionalmente provocado pelo garoto gera consequências que vão além do ato em si e provocam questionamentos para a vida inteira. Curto, direto e emocionante, o texto do escritor gaúcho mergulha na memória como elemento de construção literária e de identidade.

Em alguma parte alguma
De Ferreira Gullar. José Olympio, 144 páginas. R$ 30.
É da própria experiência literária que o poeta trata neste 17º livro de poesias. As referências vêm de todos os cantos: há música, pintura e literatura na coleção de 58 poemas que conquistou o Jabuti deste ano. Desde 1999, Gullar não publicava um livro de poesia. Questões existenciais conduzem o poeta, que já confessou inúmeras vezes que sua poesia nasce do espanto.

A máquina de fazer espanhóis
De Valter Hugo Mãe. Cosac Naify, 256 páginas. R$ 39.
Sensação da Flip, quando emocionou os visitantes, o angolano radicado em Portugal se equilibra entre obra poética e ficcional. A máquina de fazer espanhóis foi o segundo título de ficção mais vendido em Portugal no ano passado, e chegou ao Brasil com capa e apresentação de Lourenço Mutarelli. Na obra, o também cantor e artista plástico narra a solidão de um senhor de 84 anos, Antônio Jorge da Silva, que vive num asilo após a morte da mulher.

Liberdade
De Jonathan Franzen. Companhia das Letras, 608 páginas. R$ 46,50.
Queridinho de crítica e público, o quarto livro do norte-americano Franzen é ambicioso relato existencial, político e romântico sobre a sociedade norte-americana. A partir das histórias entrelaçadas de três protagonistas, envolvidos numa teia de amor e amizade do fim dos anos 1970 aos anos 2000, o autor constrói uma América de enormes ambiguidades — moderna, mas por vezes retrógrada, marcada por conflitos de geração.

Nêmesis
De Philip Roth. Companhia das Letras, 200 páginas. R$ 36.
Novo livro da tetralogia formada por Homem comumIndignação e A humilhação, o romance é ambientado nos anos 1940, uma década antes do desenvolvimento da vacina para a poliomielite. Eugene, protagonista, é professor de educação física de uma escola judaica de Newark. Ele não foi convocado para lutar na Segunda Guerra Mundial por conta da miopia, mas, nos EUA, assiste ao drama de alunos infectados com a pólio.

O cemitério de Praga
De Umberto Eco. Record, 480 páginas. R$ 49,90.
Num relato secionado em três vozes narrativas, Umberto Eco cria uma ficção que tem como epicentro Os protocolos dos sábios de Sião, documento falso que circulou como verídico entre o fim do século 19 e o início do século seguinte. Fio condutor da narrativa, Simonini é um falsário a serviço do antissemitismo. Além de um grande romance, Praga é um belo esforço de pesquisa e reflexão da história.

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