FELIPE JORDANI, da Livraria da Folha

Os autores da coleção “Just a Bubble” nunca frequentaram a lista do “New York Times” ou fecharam contratos milionários com grandes editoras. Em uma atitude rara no mercado editorial brasileiro, a editora mineira Autêntica, em parceria com a editora A Bolha, aposta em escritores alternativos e contemporâneos dos Estados Unidos e vizinhança, que privilegiam a arte em lugar de um formato mais pasteurizado. A iniciativa tem início com três títulos diferentes, marcados pela originalidade e pela variedade de gêneros literários.

“Seu Corpo Figurado”, de Douglas A. Martin, é provavelmente o mais convencional dos volumes. A obra reúne três narrativas que contam, de forma romanceada, momentos de gênese da vida de três artistas relativamente conhecidos, os dois pintores Balthus (enteado do poeta Rainer Maria Rilke) e Francis Bacon e o poeta Hart Crane.

O modo delicado e cheio de lirismo de narrar utilizado por Martin chama a atenção. A pessoa verbal escolhida por ele faz do leitor o próprio personagem retratado. “Ela está caminhando ao redor do parque. / Está admirando os cisnes junto com Rilke. / Você está ali na beira colhendo cardos ou coisa parecida com as mãos. / Algo desliza pela água e o sol oscila. / Algo começa a se realçar dentro de você.”, diz um trecho do conto “Balthus”.

Sensual e cheio de potência, “Je Nathanaël”, da escritora Nathalie Stephens (aqui como Nathanaël), resgata o personagem homônimo criado pelo escritor francês André Gide, para explorar os limites entre o corpo e a linguagem. Por meio da prosa e da poesia, a autora procura uma expressão que escape das prisões que a língua impõe ao gênero feminino e masculino.

Embora a proposta pareça ousada, a artista sabe executá-la com bom humor e sem burocracia. “Meu querido Nathanaël, não te escreverei. Todo dia trago seu nome a minha boca. Trago-o e após o devolvo. Gostaria de habitá-lo como você o habita. Saber como é pertencer a ninguém. Como é não existir. Ou existir infinitamente. Canso-me de pensar o corpo de outra forma senão procurando a palavra certa para descrever aquilo que pertence nem à linguagem e nem ao silêncio. Você tem razão ao não responder. De seguir calmamente no seu caminho. Quanto a mim, corro e nada encontro. Gostaria de lhe falar sobre o vão entre o verbo e a palavra. Entre o toque e o respiro. Entre a pele e a carne. Sou um pouco como você, tampouco existo. Seu eu disser eu sou minto um pouquinho. Por viver assim virei inimigo das línguas. Desconfio dos livros por causa dos barulhos que fazem. Você sabe cultivar o silêncio”, escreve a artista no texto que introduz o volume.

Mais experimental e fragmentado, o título “Incubação: Um Espaço para Monstros” ilustra a tentativa da escritora e poeta Bhanu Kapil de dar vida a uma ciborgue chamada Laloo. Ao longo do livro, a personalidade da narradora-autora –a qual resgata inúmeros episódios de sua vida– se funde com a da criatura. A obra é formada por capítulos com nomes irreverentes como “Guia de Laloo para viajar de Carona”, “Prefácio manuscrito para reverter o livro” e “Algumas informações autobiográficas sobre ciborgues”.

O texto é bastante marcado pelo fato da autora ser nascida no Reino Unido, filha de pais indianos, e ter imigrado para os Estados Unidos. Bhanu termina por assumir ela própria, assim como sua ciborgue com relação à humanidade, o papel de “outsider”.

“Algo dói. São 7 da noite quando ela toma o rumo da rodovia. Estas são coisas que sinto a respeito de ciborgues a distância, como se acontecessem comigo. Sinto, por exemplo, a escarlatina de Laloo, a cor vermelho-escura inundando os pontos de junção. Algo muito natural se espalha pelo corpo dela como um mecanismo de cura rápida: o sangue coagulando no momento certo, o cabelo voltando a crescer mais grosso e escuro que antes, mas numa velocidade anormal.”, diz um fragmento do subcapítulo “Plano B”.

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