Publicado: Estadão

Ao desejar-me feliz ano-novo, um fraterno amigo fez uma “crítica construtiva” aos artigos que tenho publicado regularmente neste espaço a respeito do mercado editorial: “Não adianta ficar metendo o pau no mercado. Ele tem razões próprias e nada vai mudar isso”. Tem toda a razão também o meu amigo.

Longe de mim a pretensão de mudar o imutável. Satisfaço-me com a ambição de tocar o bumbo – já usei essa expressão em título recente -, ajudando a despertar consciências adormecidas pelo efeito inebriante e ilusório da “razão de mercado” aplicada ao mundo dos livros. E também com a possibilidade de levar algum ânimo aos que se renderam ao conformismo. Não sou um agente vermelho tramando contra o lucro nem um idealista ingênuo em luta com moinhos de vento. O que me move é a fé na missão civilizadora do livro. Uma convicção que a vida, o ofício de jornalista e o trabalho de editor, paixão tardia, só têm feito se fortalecer.

Apresso-me a esclarecer também, atento à agenda da modernidade, que quando falo em livro não me refiro necessariamente ao objeto de papel impresso que conhecemos há mais de meio milênio – e que já existia no mesmo suporte, mas escrito e ilustrado à mão, havia pelo menos outros mil anos. E muito menos me preocupa saber se no futuro próximo ou remoto o livro só existirá, ou não, sobre o suporte de um fantástico artefato digital, ou seja lá o que for.

É claro que o formato do livro, em qualquer plataforma – no papel isso se evidencia -, de alguma maneira interage com o conteúdo, ajuda a contextualizá-lo. Exemplos claros são os livros infantis e os de arte. Tanto que no caso dos infantis os ilustradores, que geralmente concebem também o projeto gráfico, são considerados coautores do conteúdo. O que importa, portanto, é o conteúdo. Livro é conteúdo.

E é exatamente aí que reside o grande problema do mercado editorial brasileiro – lá fora, é claro, também é mais ou menos assim, até começou antes. É um problema que aqui se desdobra em duas dimensões. Primeiro, o rebaixamento da qualidade dos conteúdos – particularmente nos livros de interesse geral, ficção e não ficção -, provocado pela preterição dessa qualidade em benefício do potencial de venda de cada título. É a tal história: livro bom é livro que vende bem. Então, vale tudo. Depois, mas não menos grave, o crescente estreitamento do espaço para conteúdos ficcionais brasileiros, pelas mesmas razões. Em outras palavras, literatura brasileira não vende bem, portanto, não se publica, como preferem acreditar editores e livreiros para quem livro é um produto como qualquer outro e, como tal, em nada difere de um tubo de dentifrício ou de um saco de batatas.

Como editor e como leitor, mas, sobretudo, como cidadão, preocupa-me a enorme dificuldade que os escritores brasileiros, aqueles que se dedicam à arte literária, encontram para publicar suas obras. Preocupa-me igualmente a quase indiferença que os grandes veículos de comunicação, sem exceção notável – as exceções limitam-se a publicações de circulação restrita -, demonstram pelos escritores brasileiros e seu trabalho, nos cadernos de cultura, literários, de resenhas, nas páginas inteiras que habitualmente dedicam à análise e louvação da vida e da obra de escritores estrangeiros consagrados pelos cânones do chamado Primeiro Mundo. O desfastio que a grande mídia brasileira sente em relação aos escritores nacionais e sua produção é ao mesmo tempo causa e efeito da crescente falta de espaço para a literatura brasileira nos catálogos das editoras e nas estantes das livrarias.

É óbvio que a boa literatura estrangeira é indispensável para a formação cultural de qualquer nação. Os clássicos da literatura universal cabem em qualquer lugar, exatamente porque são clássicos e universais. A literatura brasileira é recente, como é recente o País e precária ainda sua formação cultural. Mas se essa formação não pode prescindir da contribuição que vem de fora, muito menos sobreviverá e consolidará identidade própria sem os influxos originados em seu próprio ambiente. O mestre Antonio Candido explica melhor: “Comparada às grandes, a nossa literatura é pobre e fraca. Mas é ela, não outra, que nos exprime. Se não for amada, não revelará a sua mensagem; e se não a amamos, ninguém o fará por nós” (in prefácio da primeira edição de Formação da Literatura Brasileira, 11.ª edição, Outro Sobre Azul, 2007). Pois é. Se dependesse do amor do big business editorial, e, em escala menor, vá lá, de nossas mais prestigiosas páginas literárias, a literatura brasileira já seria defunta.

Resta o consolo de que continuarão prosperando os segmentos de obras nacionais históricas e biográficas, que nos últimos 15 ou 20 anos conquistaram espaço importante por força dos pesados investimentos que grandes editoras se permitiram fazer no trabalho de um grupo de competentes escritores, todos jornalistas. Isso não se repete quando se trata de obras de ficção, mesmo de autores consagrados pela crítica. A não ser, é claro, que o bom escritor seja também celebridade em outros campos da criação artística.

O big business editorial recusará sempre com veemência a responsabilidade pelo cerceamento da renovação e consolidação da literatura brasileira. Mas é impotente diante do argumento de que há muitos anos os nossos romancistas, contistas e poetas não sabem o que é participar de uma lista de obras mais vendidas. Que os donos do negócio respondam, se puderem, o porquê disso.

Espero que o meu prezado amigo compreenda melhor agora porque pretendo continuar não exatamente “metendo o pau” no mercado editorial, e sim lutando para que ele continue, num feliz 2012 para todos, fazendo bom dinheiro, mas sem perturbar a missão civilizadora do livro.

 

dica da Judith Almeida

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