Publicado: Portal Vermelho

Houve um tempo em que os escritores brasileiros de ficção costumavam despertar paixão entre os leitores. Jorge Amado era um deles, possivelmente o que mais paixão provocava no grande público, num grupo que incluía Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Érico Veríssimo, entre outros. Esse tempo acabou. Hoje, a relação dos brasileiros com seus autores contemporâneos é de outra ordem.

“Assistimos a um momento em que não há mais a mesma paixão”, reconhece o poeta Alberto da Costa e Silva, representante da Academia Brasileira de Letras (ABL) na comissão que organiza as atividades do centenário de Amado, que nasceu em 9 de agosto de 1912, em Ferradas, na região cacaueira do sul da Bahia.

Nessa comemoração, o Brasil vai reviver a antiga paixão por meio de uma série de atividades que lembrarão o escritor. A começar pelo Carnaval da Bahia e do Rio, nos quais personagens amadianos vão protagonizar eventos populares que trarão novamente à cena as tramas pitorescas que, quando lançadas, atraíam milhares de pessoas ávidas para lê-las.

A Rede Globo prepara a readaptação de “Gabriela, Cravo e Canela” e o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, vai inaugurar neste primeiro semestre uma grande exposição sobre o autor. De vários países, chegam à família Amado propostas de homenagens que se pretende prestar a ele.

Um escritor de ficção só atinge seu grande momento junto ao público quando cria grandes personagens, observa Costa e Silva: “Jorge Amado foi mestre nisso, com personagens inesquecíveis”. E esta peculiaridade: além dos protagonistas, seus romances se apoiam “numa multidão de outros personagens, coadjuvantes do maior interesse”.

A obra de Amado já foi traduzida para 48 idiomas, em 54 países, segundo dados da Fundação Casa de Jorge Amado. As reedições realizadas desde 2008 pela Companhia das Letras, que já publicou 37 títulos do autor, venderam 240 mil exemplares em livrarias, sem contar encomendas de governo.

Para saber o total vendido até hoje, a pesquisadora Ilana Goldstein, autora de “O Brasil Best Seller de Jorge Amado” (Senac), realizou um levantamento junto às editoras antigas do escritor e estima que o montante se encontre na casa dos 30 milhões. “É um autor extraordinariamente importante para nossa história. Iniciou muita gente na leitura e ajudou um país inteiro a aprender a ler. Foi o escritor brasileiro mais popular do século XX, e com qualidade literária”, destaca João Ubaldo Ribeiro.

Mesmo com a popularidade e elogios como esses, não se deve esperar unanimidade nas discussões em torno de seu legado. Os livros de Amado sempre foram alvo de fortes ressalvas. A severidade no julgamento – seus personagens seriam rasos, estereotipados, o português descuidado, etc. – fez com que fosse menosprezado nas análises universitárias de letras, apesar de sempre apreciado por antropólogos e sociólogos.

A postura dos críticos literários contribuiu para um certo descrédito de sua obra e possivelmente para o afastamento dos leitores, sobretudo os mais jovens, algo que as reedições iniciadas em 2008 pela Companhia das Letras têm buscado reverter. O centenário será um momento-chave nessa reconquista, com debates, filmes, show, peças teatrais, livros, além da novela. Toda essa movimentação será uma oportunidade para que se renove também o debate sobre a nova relação da literatura e da crítica com os leitores.

A escritora Myriam Fraga, diretora-executiva da Fundação Casa de Jorge Amado, com sede no Pelourinho, em Salvador, recorda-se do furor que o surgimento de “Gabriela, Cravo e Canela” provocou, em 1958: “Eu era adolescente quando o livro foi publicado e o lançamento levou horas, com filas e mais filas”.

Myriam, no cargo desde quando a Fundação foi criada, há 25 anos, convivia quase diariamente com Amado, que morreu em 2001. O Partido Comunista do Brasil, do qual o escritor foi dirigente, ajudava na sua projeção, mas não explicava o arrebatamento. “Muitos autores comunistas não chegaram a lugar nenhum”, constata Myriam. O mesmo tipo de fenômeno ocorria no exterior.

O húngaro Ferenc Pál, professor de literatura brasileira em Budapeste, reconhece que os livros de Amado circulavam nos países do Leste europeu em virtude da filiação política do autor, mas não por esse motivo as pessoas os liam. O baiano foi o escritor estrangeiro mais popular da Hungria em meados do século passado.

Nos países lusófonos, Amado era igualmente muito estimado. Quando a reedição de sua obra foi anunciada, há três anos, escritores portugueses e africanos (de língua portuguesa) demonstraram grande entusiasmo – ainda mais que os brasileiros, conta o editor da Companhia das Letras Thyago Nogueira. “Eu me surpreendi, e ainda hoje me surpreendo, ao constatar a penetração que Jorge Amado teve no mundo todo. Sua obra circulou num grau do qual eu acho difícil termos a exata dimensão.”

Em sua opinião, o escritor combinava boa literatura com apelo popular. “Atualmente, existe um certo pudor em relação a isso, como se tudo que fosse popular fosse menor. Mas, para Jorge Amado, o povo era a matéria-prima. Ele tinha ouvido grande para o que acontecia nas ruas e fazia uma transposição interessante do ponto de vista literário. Sua escrita é oral, engraçada, irônica e incorpora uma série de registros. Para editar seus livros, precisei ir milhões de vezes ao dicionário. Muitas vezes, ele usava palavras que tinha ouvido apenas na rua”, afirma Nogueira.

O mergulho no universo popular, como o do candomblé, foi motivo de crítica e preconceito, lembra Myriam. “Essa aproximação com a cultura afro-baiana, muito viva na Bahia, começou no romance “Jubiabá” [1935] e não foi bem aceita.” Pois é justamente a maneira como Amado lida com esses temas um dos motivos da admiração do escritor Alberto Mussa, que, em sua obra, transita entre o erudito e o popular:

“Jorge Amado trata as pessoas do povo e do candomblé com respeito e consegue tirar desse ambiente uma matéria literária. Não se vê isso o tempo inteiro e é algo pouco valorizado. Ou existe um distanciamento ou uma representação muito estereotipada”.

Temas populares teriam saído de moda. A média dos autores contemporâneos, segundo Mussa, prefere personagens urbanos, confinados a apartamentos, que sofrem com angústias psicológicas e exercem a mesma profissão que eles, como a de escritores ou professores. “Mas uma literatura em que o personagem é a cópia do autor resulta empobrecedora. Jorge Amado tem a vantagem de se lançar em outros mundos. É difícil retratar bem um marujo, nunca tendo sido um”, elogia Mussa.

O romance “Terras do Sem-Fim” (1943), sobre a disputa de coronéis pelo cacau, é considerado pelo escritor um dos melhores da literatura brasileira no século XX. Outros títulos de Amado que destaca são “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1966) e “Os Velhos Marinheiros” (1961), composto da novela “A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água” e do romance “O Capitão-de-Longo-Curso”.

“Em termos de linguagem, prefiro algo mais trabalhado e clássico, mas suas histórias são muito boas. Retratam uma parte do Brasil pouco conhecida, como a região baiana do cacau, e trazem personagens exuberantes. Os livros são extremamente bem construídos em termos de fruição e prazer. Se sua valorização é sinal de que estamos recuperando a vontade narrativa, isto já será muito bom”, diz Mussa.

Os escritores, hoje, não dão prioridade à opção de contar histórias, analisa Musa. “É como se fosse algo inferior, que relacionam talvez ao modelo narrativo do cinema. A literatura verdadeira estaria, então, em outro lugar.”

Sem histórias interessantes, corre-se o risco de tornar os leitores arredios, comenta Costa e Silva. “Jorge Amado se propôs ser um contador de histórias, e logrou sua proposta. Ele escolheu por assunto a vida cotidiana, com seus dramas e alegrias, e não lida com grandes angústias.”

Esse universo – aparentemente simples – dificultaria a tarefa dos críticos. “É mais fácil escrever teses sobre quem traz muita coisa nova na forma de escrever, como Rosa ou João Cabral de Melo Neto. Autores como Jorge Amado ou Manuel Bandeira são um bocado difíceis. Mas a crítica está mudando. Vamos assistir a um cansaço muito grande do formalismo pelo formalismo.”

O centenário, na opinião de Costa e Silva, será uma ótima oportunidade para o reexame, sobretudo estético, da obra amadiana. “É necessário recolocar seus livros no lugar em que merecem estar.”

Se suas frases soam descuidadas, trata-se de efeito proposital, analisa Costa e Silva: “Ele era cônscio de suas responsabilidades artísticas e escrevia querendo escrever de determinada maneira. O estudo do Jorge criador de linguagem e artista poderá abrir novos caminhos para o entendimento de sua obra. Ficou uma ideia de que ele era um improvisador, mas não há nada de frouxo nele”. Seus personagens tampouco seriam rasos: “Não vejo nenhum deles que não seja repleto de contradições e de mudanças no desenrolar da história”.

No entanto, quem defende o autor de “Mar Morto” sabe que a controvérsia pode não tardar. “Jorge Amado sempre foi polêmico”, assinala Myriam. A crítica costuma se dividir entre os que o consideram um mestre do romance e os que o veem como um trivial contador de histórias, e ainda sobre outras questões, como o elogio que faz da mestiçagem.

“Sua obra encerra uma utopia. E ele sentia muito orgulho em ser reconhecido como contador de histórias. Jorge queria fazer uma obra acessível, acreditava que a literatura poderia ser um meio de libertação”, diz Myriam.

Costa e Silva destaca outro aspecto positivo: “É algo curioso, uma de suas grandes qualidades, apreciada pelo leitor. Todo livro de Jorge Amado que se leia, seja ‘Capitães da “Areia’ [1937] ou ‘Tocaia Grande’ [1984], apesar da violência e das indignidades que apresentam, sempre nos deixa de cabeça alta. Ninguém sai acabrunhado de um livro de Jorge. É um autor que destila esperança”.

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