Orhan Pamuk durante passagem por Porto Alegre, em 05/12/2011. Foto: Ricardo Duarte, ZH

Publicado originalmente no Clic RBS

Contrariando a sisudez que a palavra ” Nobel” costuma decalcar, como um rótulo, em seus laureados, o turco Orhan Pamuk, vencedor do prêmio em 2006, se apresenta em seu novo livro como uma das mais agradáveis companhias para discutir literatura. Ou melhor, romances, tema de seu mais recente livro a sair no Brasil, O Romancista Ingênuo e o Sentimental (Tradução de Hildegard Feist. Companhia das Letras, 152 páginas. R$ 34).

O livro compila seis conferências proferidas por Pamuk – autor de Meu Nome É Vermelho e Neve – no ciclo de palestras Norton, da universidade de Harvard. A cada ano, a instituição convida um artista ou pensador expoente em seu campo para ministrar seis conferências sobre tema à escolha do convidado. Tal projeto já deu origem a outros ótimos livros sobre arte narrativa, como Licões dos Mestres, de George Steiner; Seis Propostas para o Próximo Milênio, de Italo Calvino; ou Seis Passeios pelos Bosques da Ficção, de Umberto Eco. O livro de Pamuk, para escapar do óbvio “Seis Considerações sobre o Romance”, ou coisa do gênero, empresta o título de um ensaio de Friedrich Schiller, que dividia os poetas de seu século 18 entre ingênuos ( que escrevem de modo espontâneo, sem considerações sobre o processo – Goethe, no caso da divisão proposta por Schiller) e os sentimentais (reflexivos, muito cônscios dos passos necessários para a literatura enquanto construção e artifício – como o próprio Schiller).

O Romancista Ingênuo e o Sentimental é dividido em seis conferências sobre aspectos do romance – e sobre as características que fizeram do gênero um fenômeno avassalador, capaz de assumir o protagonismo em qualquer ambiente literário para o qual foi transplantado. Pamuk fala do que forma um romance, de como a imersão almejada ( e por vezes conseguida) por grandes romancistas na realidade representada em suas obras é análoga à apreensão visual de uma pintura. O quanto elementos da realidade concreta transplantados para a narrativa romanesca sustentam a ilusão de verdade no leitor que se entrega à leitura.

Pamuk escreve com um ponto de vista subjetivo: é ele próprio um romancista de uma tradição tardia do romance, desenvolvido num país em que se mesclam retalhos de Ocidente e Oriente. Algumas das intuições e leituras oferecidas …

Tom Fernandes

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