Publicado originalmente no Estadão

Primeiro livro do escritor Georges Perec, ‘As Coisas’ usa casal para contar como a ânsia de consumo dos jovens é também a de ser consumido

A vida não vem com manual de instruções, mas o escritor francês Georges Perec (1936- 1982), de quem está sendo lançado seu romance de estreia, As Coisas – Uma História dos Anos Sessenta (1965), bem que tentou criar um método para suportar suas agruras. Divertido, erudito, irônico, tantos adjetivos foram gastos para definir o autor de A Vida – Modo de Usar que sobram poucos para qualificar seu ambicioso projeto literário, já anunciado em As Coisas. No primeiro livro, ele dispensa, por exemplo, os diálogos para contar a trajetória de um jovem casal de pesquisadores, loucos para consumir e ser consumidos. Atento à vontade de ambos, Perec acaba por não dar voz a nenhum deles. O narrador, onisciente e onipresente, transforma-os em parte do mobiliário que a dupla imagina para sua casa nova.

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Perec fez parte de um seleto grupo de autores reunidos em torno do Oulipo (Ouvroir de Littérature Potentielle, ou Laboratório de Literatura Potencial), formado em 1960 pelo escritor e matemático Raymond Queneau (1903-1976), autor de Zazie no Metrô, ao qual se associou o enxandrista e químico francês François Le Lionnais (1901-1984) e o escritor cubano, de pais italianos, Italo Calvino (1923-1985).

No primeiro manifesto do Oulipo, Le Lionnais diz que podem ser identificadas duas tendências na pesquisa que o grupo se propõe a seguir: a analítica, que busca nos textos do passado possibilidades desprezadas por seus autores, e a sintética, que aponta caminhos desconhecidos por predecessores do pós-surrealista grupo ao qual Perec se integrou em 1967, dois anos após a publicação de As Coisas.

Perec não é um desconhecido entre os leitores brasileiros. Já foram publicados aqui Um Homem Que Dorme (1967), W ou A Memória da Infância (1975), A Vida – Modo de Usar (1978), A Coleção Particular (1979) e A Arte e a Maneira de Abordar Seu Chefe para Pedir um Aumento (publicação póstuma, 2008). Porém, dois romances experimentais – talvez pelo desafio que representam para os tradutores – permanecem inéditos no Brasil: La Disparition (1969) e Les Revenentes (1972).

São justamente suas experiências literárias mais radicais. Em La Disparition, Perec propõe-se a escrever um romance sem utilizar a vogal “e” – isso numa língua em que ela é usada ao extremo desde o berço, bastando dizer que pai (père) e mãe (mère) têm a vogal em dobro. No segundo, Les Revenentes, ele faz o contrário: produz um livro em que só o uso da vogal “e” é permitido.

Não se trata de um capricho formal a ausência da vogal em La Disparition. Perec explica no posfácio que sua fixação como escritor era criar um artifício tão original como iluminador, capaz de ser ao mesmo tempo um estímulo ao leitor para que fique transparente o processo de construção e narração do romance. A ausência do “e” é tanto a falta de uma letra essencial como o anúncio de uma tragédia familiar, pois não se pode viver num mundo em que as palavras père e mère foram abolidas.

Perec, que também tem dois “e”, perdeu pai e mãe ainda criança. Tinha 4 anos quando o pai, judeu polonês, morreu como soldado na guerra e 7 quando a mãe foi levada pelos nazistas (e provavelmente morta em Auschwitz). Criado pelos tios paternos, foi adotado por eles. Estudante de Sociologia e História, desde cedo começou a escrever para revistas literárias (entre elas La Nouvelle Revue Française, fundada por Gide), mas sobrevivia com o baixo salário de arquivista de um laboratório de pesquisas neurofisiológicas (cargo que manteve até quatro anos antes de sua morte, aos 45 anos, de câncer pulmonar, em 1982).

A classificação, até por conta desse trabalho, é o exercício mais praticado na literatura de Perec, especialmente em A Coleção Particular, obra do final de sua vida que pinta com tintas balzaquianas um quadro bizarro, o de um homem que troca a Alemanha pelos EUA, torna-se um rico cervejeiro e dedica sua vida a construir uma incomparável coleção de arte. Ele encomenda um quadro a um pintor – em que deve figurar ao lado de sua galeria – e, ao morrer, sua fraude é descoberta: Raffke, o cervejeiro, é também o pintor Kürz. Todas as obras são falsas.

A literatura como falsificação que leva à verdade – e ajuda a sobreviver – foi o grande tema de Perec, explorado com amargura em W ou A Memória da Infância. Nesse livro híbrido, o escritor oscila entre um relato autobiográfico e um romance construído, usando letras em itálico para distinguir este último de sua recordações, capítulos que se alternam e convergem, no epílogo, para uma melancólica conclusão: a de que os campos de concentração nunca deixaram de existir. Perec evoca o David Rousset de L’Univers Concentrationnaire para mostrar como uma sociedade utópica se degenera na estrutura dos campos de concentração, sejam eles nazistas ou ilhotas que viraram campos de deportação durante a ditadura Pinochet. Há dois mundos, segundo Perec: o dos senhores e o dos escravos. “Os Senhores são inacessíveis e os escravos se entredevoram.” Ainda assim, o atleta W, do livro, espera que a sorte lhe sorria.

Os estudantes Jérôme e Sylvie, de As Coisas, se assemelham, em sua ingenuidade, ao atleta W. Não percebem que a satisfação de seus desejos de consumo (um amplo apartamento) é uma sentença de morte, a perda de suas identidades. Na obra-prima de Perec, A Vida – Modo de Usar, que Italo Calvino classificou de hiperromance, os vários tipos de narrativa, a estrutura do jogo de xadrez que divide os capítulos, os símbolos arcanos e o algoritmo eleitos por Perec obrigam o leitor a ficar atento às descrições do imóvel que o autor escolheu como representação metafórica de um mundo em dissolução. Sua literatura mostra, afinal, que tradição e inovação não são excludentes: por trás dela, que desbancou o nouveau roman francês, existiam Flaubert, Balzac e Proust.

AS COISAS – UMA HISTÓRIA DOS ANOS SESSENTA
Autor: Georges Perec
Tradução: Rosa Freire d’Aguiar. Editora: Companhia das Letras (120 págs., R$ 32)

Foto: Harold Chapm (Divulgação)

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