Publicado por Revista Época

 

 

Em cartas, o escritor maduro revela afeto incomum por uma jovem casada

LUÍS ANTÔNIO GIRON Editor da seção Mente Aberta de ÉPOCA, escreve sobre os principais fatos do universo da literatura, do cinema e da TV (Foto: ÉPOCA)

Machado de Assis (1839-1908) teria tido uma amante?
É a questão que o diplomata e crítico literário Sergio Paulo Rouanet deixa entrever, com extrema discrição, no recém-lançado volume III da Correspondência de Machado de Assis, publicado pela Academia Brasileira de Letras, que abrange o período que vai de 1890 a 1900, dos 51 aos 61 anos do escritor. Na condição de jornalista abelhudo que não tem mais uma reputação a perder (se é que teve um dia), eu tomo a liberdade e cometo a indiscrição de levantar mais abertamente a suspeita – ou, como prefere denominar Rouanet, “bisbilhotice póstuma”. Trata-se de um sentimento indigno, porém próprio ao cético Bentinho sobre a fidelidade de Capitu em Dom Casmurro, romance que Machado escreveu ao longo de quatro anos e a editora Garnier fez imprimir em Paris no final de 1899 e só lançado no início do ano seguinte. É apenas um detalhe aparentemente sem importância, trazido à tona pelo trabalho monumental de Rouanet, que traz não só informações importantes sobre a trajetória de Machado, como corrige muitos erros e omissões.

As cartas, bilhetes e cartões a ser distribuídas em cinco volumes (a ser publicados até o fim de 2013, o quarto neste ano) ajudam a compreender o papel de Machado de Assis como fundador da Academia de Letras, correspondente ativo e passivo de ficcionistas como Magalhães de Azeredo e de críticos como José Veríssimo, cidadão discreto, avesso à política e afeito às questões estéticas. No entanto, sob a barba já branca do “Bruxo do Cosme Velho” (detesto esse apelido popularizado pelo poema “A um bruxo, com amor”, de Carlos Drummond de Andrade, mas vá lá), batia um coração quem sabe não raro inconstante, dado, talvez, a devaneios amorosos, e certamente atento à alma feminina, que retratou em várias personagens, como a intrigante Capitu, a doce Helena e a sorrateira Sofia, de Quincas Borba. Na juventude, convém lembrar, ele dedicou seu primeiro poema publicado à soprano italiana Anette Casaloni, por quem teria se apaixonado. Teve algumas aventuras quando jovem. Uma carta, de 30 de outubro de 1899, seu colega maranhense Graça Aranha cometia várias indiscrições que devem ter enfurecido Machado. Uma delas foi contar, por imagens canhestras, que havia lido Dom Casmurro em primeira mão em Paris, sem a devida permissão do autor (e tinha certeza de que Capitu era adúltera). Outra foi fazer a seguinte declaração meio como desculpa: “Se em alguma coisa alguma evocação de figura amada, em tocar em certas reminiscências lhe causei qualquer inquietação ou sobressalto perdoe-me porque, meu bom amigo, entre os homens ninguém o ama mais. Entre homens, por que entre as mulheres…”

Para alimentar a suspeita sobre o caso de Machado, inspiro-me nesse tipo de declaração de Graça Aranha e nas entrelinhas das duas cartas que Machado enviou à jovem aspirante a escritora paulistana Rafaelina de Barros (1878-1943) em 1896, quando Machado, no ápice da fama, funcionário público exemplar e casado havia 26 anos com a portuguesa Carolina Augusta Xavier de Morais, contava 56 anos e Rafaelina, apenas 18. Isso segundo as datas oficiais, sobre as quais Rouanet e suas duas escudeiras no projeto de organizar a correspondência completa do autor, as pesquisadoras-detetives Irene Moutinho e Sílvia Eleutério, lançam dúvidas. Afinal, a intrépida Rafaelina já era casada com um comerciante quando escreveu a Machado. Além disso, começava a iniciar uma relação com o poeta paranaense Emílio de Meneses (1866-1918), também casado, bem como excêntrico e conhecido boêmio do Rio de Janeiro.

Rafaelina e Emílio viveriam uma paixão arrebatadora em meados da década de 1890. O caso provocou escândalo na Capital Federal. Emílio levou uma surra do marido ultrajado, e Rafaelina abandonou o lar tornando-se companheira e musa para a vida inteira do escritor. Ela estreou na ficção como volume de contos Almanara (192) e, em 1923, publicou o livro de poemas Bíblicas. Quando enviuvou, tornou-se zeladora e organizadora da correspondência de Emílio (hoje desaparecida) e ajudou com dinheiro ao escritor Lima Barreto, que vivia praticamente como mendigo no fim da vida.

Rafaelina era apaixonada por amar escritores (se vivesse hoje, faria networking nas várias festas literárias espalhadas pelo país). Ela já morava com Emílio quando escreveu duas cartas a Machado. “O que é surpreendente nessas duas cartas de Machado é o tom misterioso, cheio de subentendidos”, afirma Rouanet. A primeira, datada de 6 de abril de 1896, solicitando que ele lhe enviasse uma cópia da tradução do poema “Corvo”, de Edgar Allan Poe, que Machado havia feito e ainda era inédita em livro. As cartas se perderam (ou teria sido eliminada pelo pudor do próprio destinatário?). Segundo Rouanet, é provável que Rafaelina atendesse a um pedido do companheiro Emílio, que também estava preparando uma tradução do poema. Em 20 de abril, Machado envia uma carta à “prezada Senhora Dona Rafaelina de Barros”. Ele cumpria uma das duas promessas que fizera a ela, enviando incluso o poema de Poe. Quanto à segunda, escreve Machado, “pesa-me confessá-lo, há razão que só à vista lhe poderei dizer, e que me impede de a cumprir, como deseja cordialmente. Creio que o meu pesar é maior que o seu, por mais amável que seja da sua parte sentir algum.”

A segunda carta, datada de 25 de maio de 1896, responde à de Rafaelina, que deve ter declarado que a leitura da tradução do poema de Poe a fez se alegrar, em uma espécie de alteração do efeito da ave, agora tropical e alegre. Traz comentários de Machado sobre a tradução: “Que o Corvo tivesse produzido nessas sertanias, o efeito da ave alegre e feliz, é notícia que me lisonjeia muito, mas não atribua só a mim este grande regalo. É principalmente do poeta americano. Sem a beleza original da concepção, é certo que eu não chegaria a fazer coisa que prestasse. Como, porém servi de intermediário à inspiração original, fico satisfeito pela parte que tive nas suas comoções.” Rafaelina parece ter se encontrado com Machado, e falado sobre lágrimas antigas. A isso, Machado respondeu, com alguma indiscrição: “Sobre as lágrimas de tempos idos não lhe digo mais nada, além do que falamos sábado. É memória que nunca perdi, e pode imaginar-se se me haverá penalizado tamanha dor sem culpas de uma por causa involuntária de outro”.

Rafaelina certamente havia trocado confidências com o escritor três dias antes, no sábado, 23 de maio de 1896. Onde teriam se encontrado? Certamente não no Cosme Velho nº 18, onde o escritor vivia aparentemente em harmonia com Carolina. Será lícito desconfiar de que Rafaelina seduziu definitivamente Machado de Assis naquela ocasião? Será que falaram de seus respectivos cônjuges – e talvez dessa palestra adúltera tenha surgido a inspiração para construir a personagem da adúltera (ou não) Capitu? Leram juntos “Corvo”? Ou juraram não se encontrar, feito o corvo, “nunca mais”, e assim potencializar a paixão? Pois, conforme escreveu Machado, “A ausência diminui as paixões medíocres e aumenta as grandes, como o vento apaga as velas e atiça as fogueiras.”

A suposição mais racional é de que houve simplesmente um encantamento, uma simpatia de Machado pela moça e vice-versa, e nada mais. Talvez uma paixonite que um e outro tratou de sarar. Daí a prudência dos organizadores do volume em não extrapolar os limites da pesquisa. Mas, para um reles jornalista – e que me perdoem Rouanet, Irene e Sílvia – , não deixa de ser tentador imaginar a queda do autor de meia-idade por uma jovem de 18 anos, no esplendor da curiosidade, inclusive literária. Toda esta fantasia já me inspira um conto…

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