Publicado originalmente no Blog da Companhia das Letras

Não conheci Luiz Gê. Digo, não conheci “na época”. Sempre ouvi falar que era da mesma geração e do mesmo nível de Angeli e Laerte, tanto que sempre tinha que ser mencionado com os dois. Mas estranhava que, diferente da facilidade em ler Chiclete com Banana ou Piratas do Tietê, não se encontrava dele álbum na livraria, nem revista na banca, nem tira de jornal. O meio da minha adolescência, quando comecei a levar os quadrinhos mais a sério, foi pós-Collor. O quadrinho pop-underground brasileiro, que vendia às dezenas (às vezes centenas) de milhares, tinha sido varrido da banca e das livrarias pela crise.

Ficaram só as menções recorrentes e a sensação de que eu tinha chegado atrasado na festa. O homem do sobrenome-letra já tinha ido embora.

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Edição número 2 da revista Circo, 1987. É Gê, de camiseta sem mangas e pose de machão, no índice da revista, início da fotonovela “Como é que se faz uma revista de história em quadrinhos“. Atrás dele, subindo uma escadaria, estão os colaboradores da revista Laerte, Glauco, Alcy e o editor Toninho Mendes. A fotonovela conclui nas páginas finais da edição, com todos descendo a escada a rolar e se estropiar. “Vamos de novo”, dizem. “O último a chegar é um Garfield”, conclui Gê.

Tivesse o Brasil alguma tradição de crítica e história dos quadrinhos, a Circo seria citada constantemente como marco. Bom, tivesse o Brasil tantas outras coisas, a Circo não teria durado só oito números. Só nesta mesma edição da fotonovela, havia histórias de Moebius e Crumb, lado a lado com a “Balada do Lobisomem” de Laerte (com narrativa e traço que não deixam nada a desejar em 2012, assim como irreverência que falta a 2012) e “Uma história de amor”, de Luiz Gê.

“Uma história de amor” é talvez o ápice da sua técnica de desenho. Treze páginas de batalha medieval com armas e armaduras pesquisadas, narrativa impecável — a sequência de planos-detalhe sem balão é quase sua marca registrada —, coisa que quadrinista brasileiro hoje só faz quando trabalha para o exterior. A reviravolta final lembra as de Moebius, e tem o humor irreverente que unia todos os colaboradores nacionais da Circo.

Na edição anterior, havia saído “Futboil (Fenomenozinho Urbano Tipicamente Brasileiro Observado In Loco)”. Na seguinte, “Presidente Reis”, que provocou polêmica no Estado de S. Paulo ao ser cancelada. Antes da revista acabar, ainda teve “Perdidos nos Espaço”, a revelação de que tatus-bola são naves alienígenas tentando invadir nosso planeta. Cada uma, um estilo de desenho — geometria meio Ziraldo em “Presidente Reis”, fotorrealismo em “Perdidos no Espaço” — experimentos de narrativa, misturas de sci-fi com política, crítica social e, sempre, ironia fina.

Hoje em dia, todo quadrinista que se preze diz que é difícil competir com a Laerte. Na época da Circo, eram os leitores na seção de carta que diziam não saber se gostavam mais de Laerte ou de Luiz Gê.

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No mês que vem, a Quadrinhos na Cia. lança Avenida Paulista, um dos trabalhos mais comentados e menos lidos de Luiz Gê. Publicado em edição especial da Revista Goodyear, no início dos anos 90, é a HQ que mais absorve sua formação universitária em arquitetura. É a biografia da avenida mais famosa de São Paulo, contada ao mesmo tempo com rigor histórico e delírios fellinianos. Serve como registro da criação e do desenvolvimento da Paulista, mas ao mesmo tempo trabalha a sensação poética do que foi passar por todas as renovações da Avenida do século XIX até as projeções para o futuro.

Numa das minhas sequências prediletas, um jato se arremessa para pouso complicado entre os dirigíveis e plataformas aéreas que formam o “céu” da Paulista. A pista de pouso é como a de um porta-aviões sobre um arranha-céu. O piloto desce auxiliado por uma comitiva de funcionários, tira o macacão e revela o uniforme de executivo, com o qual já entra no arranha-céu a comandar uma mistura de banco e indústria onde todo mundo usa jargões de business. O texto jornalístico que acompanha a HQ explica, nesta parte, a fase da globalização neoliberal, a relação do Brasil com o FMI e a crise de 2008.

Parece confuso, e certamente é complicada de fazer. Mas é o tipo de alegoria brilhante que só funciona na página de quadrinhos.

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Gê parou com a Circo e ficou meio sumido das HQs a partir do mestrado que fez na Inglaterra, no final da década de 1980. A partir daí começou carreira de professor e continuou produzindo, com menos destaque. Duas entrevistas relativamente recentes, com Télio Navega e Ronaldo Bressane, dão conta dessa história. E prometem mais republicações e mais inéditos de Gê no futuro próximo.

Laerte, seu reinado está a perigo.

Texto de Érico Assis

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