Texto escrito por Camila Kehl no Livros Abertos

Alguns chamam de introdução; outros, de prefácio. Pode ser escrito pelo próprio autor, pelo tradutor ou por uma terceira pessoa. Ainda que não seja exatamente o caso, faz com que um livro ganhe ares de edição comentada. Não existe uma única finalidade para prefácios/introduções: servem igualmente para apresentar um novo autor, para esclarecer alguns pontos acerca da preparação e montagem da obra, para expor curiosidades, para comentar estilos, para aproximar um clássico do grande público. O perigo é: esses preâmbulos, muitas vezes interessantes, também têm o poder de assustar, enfastiar e afastar o leitor.

Uma das minhas compras mais recentes foi O amante de lady Chatterley, de D. H. Lawrence, editado pela Cia. das Letras. A introdução, assinada por Doris Lessing, vai até a página 40 — quando a história finalmente começa. Ou seja: o monólogo de Doris se alonga. Muito. Ainda assim, suas observações são pertinentes, curiosas e absolutamente necessárias para a compreensão plena da obra. É um prazer ler o que Doris Lessing tem a dizer — suas palavras claras, objetivas, diretas, perspicazes, essenciais. Não sentimos, como às vezes acontece, uma ansiedade desagradável para que a introdução se interrompa e o autor finalmente tenha voz própria. Ao contrário: desejamos que Doris nos ensine mais.

Não é incomum, nos leitores, o sentimento análogo ao de uma criança forçada a comer salada antes de ter permissão para saborear sua comida favorita. Sabendo que legumes e verduras são complementos essenciais à dieta, e que a entrada é saudável (instrutiva), ainda assim não controla a ansiedade de passar para o prato principal, que parece mais apetitoso.

Quando eu era mais nova, experimentava tal sentimento de culpa ao pular os prólogos que, tendo lido duas páginas do primeiro capítulo, voltava, arrasada, para encarar o que quer que fosse. Aquelas páginas não lidas a minha frente me causavam tamanho mal-estar que eu não conseguia ignorá-las. Assim, acabei desenvolvendo uma sensação de obrigação — que logo se transformou em genuína apreciação do conhecimento proporcionado por algumas introduções.

Algumas, sim: nem todas se destacam pela relevância ou, em último caso, pela fluidez.

Presenteei uma pessoa com Beleza e Tristeza, de Yasunari Kawabata, editado pela Globo. Ela reclamou: a introdução, disse, é tão chata que não tenho vontade de ler o livro; perdi o tesão pela história. Para refrescar a memória, recorri ao meu exemplar. Realmente: inacreditável como o prólogo, assinado por quem tem um imenso conhecimento de causa, consegue ser tão enfadonho e desnecessário. Mais do que isso: as palavras do homem que apresenta o enredo e o autor abrem um oceano quase intransponível entre o leitor e a literatura japonesa, em especial a de Kawabata. Não há vontade que resista. Não houve esforço algum para pegar o leitor pela mão e conduzi-lo, de uma maneira agradável, pelos labirintos nem sempre fáceis que cercam a arte em geral (não só a literatura). O prefácio de Beleza e Tristeza não foi composto para esclarecer e apoiar: foi um canalizador de uma vaidade; o resultado de anos de estudo esfregado em rostos que talvez estejam descobrindo um universo novo, e que, portanto, estão assustados, receosos e cheios de hesitação.

Teoria literária é muito interessante. Infinitamente interessante. Mas com ressalvas: o é especialmente para quem tem alguma ligação com a área, qualquer que seja ela, e não para o leitor médio. O prefácio de Beleza e Tristeza é incompreensível para os que não estão familiarizados com conceitos muito específicos. E por isso mesmo é supérfluo. Um anexo completamente inútil para o grande público, um conjunto de expressões estigmatizadas e teorias pontuais.

Prefácios sempre excelentes são os de Rubens Figueiredo, tradutor de Anna Kariênina e Guerra e Paz, ambos de Tolstói, pela Cosac Naify. Sem afetação, Figueiredo, que também é escritor, nos conduz por aspectos da vida e obra de Tolstói, mas apenas através daqueles que vão implicar diretamente na compreensão dos títulos que temos nas mãos. Figueiredo não se alonga mais do que o estritamente necessário. Fala para o leitor interessado em literatura russa, naquela especificamente, e nada mais.

Um bom prefácio pode mudar a maneira como uma obra é vista. Pode melhorar a compreensão do leitor. Pode instigar sua curiosidade sobre a história e sobre o autor — e pode levá-lo a querer descobrir um pouco mais. Um mau prefácio tem o efeito contrário. Como o de Beleza e Tristeza.

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