Camila Kehl, em Livros Abertos

Mesmo que seja relativamente longo (para a era da internet), recomendo que se assista ao vídeo com o discurso da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. Como não se trata de um ensaio, um post ou uma matéria em estado bruto — escritos relativamente impessoais, ainda que bem argumentados e envolventes —, mas da combinação de imagem e áudio, podemos observar os gestos e a expressão de Chimamanda enquanto lê em voz alta suas palavras. Sua fala, a cada sílaba e a cada pausa, cala fundo.

Sempre enxerguei o campo da literatura como essencialmente inclusivo. Não se trata de trazer o politicamente correto (muitos usam a expressão como se seu significado fosse nada menos que uma ofensa extremamente ultrajante — em especial os comediantes, que se valem do humor para perpetrar desrespeito e preconceito) para dentro das páginas de um livro: algo como uma censura, um controle do que pode e do que não pode ser escrito. Ao contrário: sou a favor da liberdade de expressão; da pluralidade. Por tudo isso, concordo com cada frase do discurso de Chimamanda, e admiro sua ousadia de, diante de uma plateia tão numerosa, dizer o que disse de forma veemente e clara. Há um perigo imenso na disseminação de uma única história — seja qual for a face tantas vezes replicada.

Sempre enxerguei o campo da literatura como essencialmente inclusivo, eu dizia. Mas, se prestarmos atenção, não funciona assim. A voz — como a que tiveram Flaubert, Balzac, Austen, Goethe, Woolf — deveria ser estendida a todos, independentemente de tempo, espaço e circunstâncias. Sabemos que, na prática, as coisas foram e são diferentes. Do ponto de vista relatado por Chimamanda, há a supremacia de uma cultura em relação a outras (uma espécie de eurocentrismo literário). Também vemos isso por aqui: o desprezo por autores nacionais e a exaltação constante de tudo aquilo que vem de fora de nossas fronteiras. Com isso, acabamos nos habituando sem questionar a ambientes pelos quais se movem os personagens que povoam nossas estantes: arrondissement, square, avenue, rue, boulevard. Não há nada de errado com isso: há belíssimas histórias francesas ou inglesas. Temos um problema no momento em que elas se tornam a única verdade — sobre aquele povo e sobre a forma como enxergamos o nosso.

É preciso que tenhamos o poder da palavra e da expressão; é necessário que tenhamos a chance de reconhecer o humano, em toda a sua extensão e trajetória, em obras literárias. Tanto quanto devemos garantir, na prática, o pleno direito de todos os indivíduos a uma voz, também podemos escolher, com consciência, a voz que queremos ouvir. A própria era pós-moderna, deixando de lado o debate sobre internet e direitos autorais, propicia o contato com outras culturas e visões. Manter-nos deliberadamente presos a cabrestos, recusando veementemente qualquer oportunidade de olhar para o lado, é como negar a recém-adquirida ampliação de nossas fronteiras e de nossas possibilidades.

Ainda que olhemos para o lado e admiremos a liberdade, mesmo então lamentamos as vozes que foram — e ainda são — sufocadas e obrigadas a calar. Penso que aí reside o caráter subversivo (e justamente o mais belo) da literatura: quando os reprimidos, desvalidos e os excluídos falam através de um enredo e de um personagem. Neste ponto, quando entendemos que a literatura é o ser humano em sua pluralidade, e que é muito mais do que um mero entretenimento particularmente divertido (divertido é sinônimo de leveza? de humor?) e, portanto, ampliamos nossa percepção, finalmente entendemos a importância de enxergar também o feio e o incômodo, ou o outro lado de uma verdade amplamente conhecida e divulgada. Temos, então, em forma de crítica contundente, o submundo, o crime, a loucura, as guerras, o ódio — o nosso passado, o nosso eu, a nossa história. Tudo — menos o escapismo.

Para onde quer que se olhe, temos uma infinidade de obras, que, por sua vez, correspondem a uma imensa quantidade de estilos, e que narram milhares de vidas (imaginárias, mas inspiradas em uma verdade). Escolher sempre mais do mesmo é ignorar deliberadamente o que há de interessante na literatura: sua veia política, construtiva e destrutiva, acusadora, crítica, inconformista. Escolher sempre um dos lados é ignorar o outro. Os outros.

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