Tonny Bellotto, no Blog da Companhia

Há todas aquelas belas histórias sobra a solidão infinita do escritor, do homem que acorda ao amanhecer para escrever e depois se arrasta ao longo do dia ansioso por acordar no dia seguinte e recomeçar a escrever. Da mulher que abdica dos prazeres mundanos e se retira como monja a uma pequena e bucólica praia deserta para dedicar-se às obrigações da literatura. Do poeta louco que se embriaga de vinho a cada noite num bar diferente, fiel apenas aos seus versos e às ruas que o conduzirão até um outro bar na madrugada seguinte. E há os caras normais, os escritores que além de escrever querem levar uma vida normal, com emprego, mulher, filhos, cachorro, cic e rg a dividir sua atenção com a Literatura com éle maiúsculo, essa tirana com cara de Gertrude Stein.

Esses escritores, eu por exemplo, vivem em busca de frestas de solidão e fiapos de silêncio pela casa e quase sempre encontram apenas tv ligada, telefone tocando, esposa a fim de um cinema e amigos dos filhos jogando pingue-pongue no terraço. Se um desses escritores, eu por exemplo, tem a sorte de ser guitarrista de rock ou caixeiro viajante, ou qualquer outra profissão que o obrigue a viajar de vez em quando, ele aproveitará a viagem para finalmente ficar sozinho. Para um escritor não é necessário que escreva, mas que fique sozinho.

Dia desses, aproveitando uma viagem a trabalho para São Paulo, depois de uma tarde ruidosa e “coletiva” despendida num ensaio, aproveitei a noite para ficar sozinho. Botei meu Operação Shylock debaixo do braço e rumei para um japinha conhecido em que só preciso abrir a boca para comer o peixe, já que o sushiman é meu velho amigo e nos comunicamos por telepatia. Mas eis que surge o Chato. Sim, o Chato está à espreita, sempre pronto para demolir a solidão do escritor.

Ainda que no sushi bar houvesse outros lugares, o Chato sentou-se ao meu lado. E ainda que eu não desviasse os olhos das páginas de Philip Roth, ele encontrou espaço para me perguntar: “Que livro é esse?”. “Operação Shylock, do Philip Roth. Conhece?”. “Não. É sobre o quê?”. “É sobre ser judeu”. “Você é judeu?”. “Não. Mas isso não me impede de ler o livro”. Não, claro. O que me impediu de ler o livro foi o Chato, que não parou de falar até mesmo depois de eu me levantar e cair fora. Acho que ele ainda está lá, falando até agora. Da próxima vez vou tentar um iPod desligado, com fones acoplados aos ouvidos.

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments