Isabelle Kepe, no Puxa cachorra!

Depois de ler uma história, qualquer um é capaz de dizer que faria um final diferente – ainda que, no fundo, não é qualquer um que conseguiria escrever um começo e um meio decentes, que dirá um final. Mas vocês conhecem o gênero humano: temos opiniões para tudo, e arrumamos algumas bem arrojadas para reescrever clássicos da literatura nacional.

#6 Macunaíma de Mário de Andrade

É sobre…?    Aí que preguiça de escrever o resumo…! Macunaíma é a grande obra de Mário de Andrade que tem como protagonista um índio absolutamente sem caráter. Fala palavrões, xinga, grita, nasce já velho e vive com preguiça; e, pela descrição, provavelmente trabalha com social media também. Parte em uma aventura por São Paulo, enfrenta monstros comedores de homem, fica branco, perde seu amuleto e, no meio tempo, brinca com algumas índias aqui e acolá. E você achando que Game of Thrones era a maior viagem de fantasia, hein?

Porque queremos outro desfecho? Porque, por mais que as pessoas digam que entendem Macunaíma, elas não entendem. Sim, isso incluiu você, mestrando de Literatura Comparada que é pedante: não é possível que você entenda Macunaíma. Isso porque, sejamos sinceros, só o Mário de Andrade entendia o Mário de Andrade. Ele era um desses grandes gênios incompreendidos da sociedade que, depois de morto, começaram a inventar trilhões de teorias sobre o que seriam seus livros e trechos emblemáticos. A cena  em que Macunaíma cai numa poça e fica branco é sobre a miscigenação do povo brasileiro? Talvez. Ou talvez é só sobre uma poça mágica.

Um bom desfecho seria…criar uma nova versão de Macunaíma. Porque se o pedante mestrando de Letras não entende bulhufas (mas finge) de Macunaíma, imagina isso na mão de um adolescente que toma toddynho enquanto passa Rebeldes e escuta Nick Minaj? Se Andrade soubesse que seu livro viraria um (grande!) clássico da literatura-de-escola, provavelmente teria feito uma versão PG-13 e metáforas bem menos complexas que as que ele a criou. Por fim, o desfecho de Macunaíma poderia ser a criação de uma nova versão do livro. Que seria…

Venderia mais que Na Beira do Rio Pietra Sentei e Chorei do Paul Rabbit.

#5 O Ateneu de Raul de Pompéia

É sobre…? Sérgio, um homem perturbado por seu passado, conta por meio de flashback sua história no colégio interno chamado O Ateneu. Na verdade, Raul Pompéia deu para nós uma prévia do que seria a virose da Educação: o bullying. A obra gira em torno dos abusos (físicos e psicológicos) sofridos por Sérgio e seus amigos no colégio – violência que vem dos professores, diretores e outros colegas de sala. O Ateneu é um lugar escuro, com poucas janelas, sem esperanças e sem equipamento básico para aprendizagem – enfim, uma típica Escola Municipal brasileira. Sérgio é gente como a gente: um aluno pessimista que mal vê a hora de sair da escola e quer ir contra o sistema mas não pode porque ele é mal mas minha turma é legal – viver é foda e morrer é difícil. Vamos fazer um filme.

Porque queremos outro desfecho? Porque se O Ateneu é um reflexo da educação brasileira (e é!) e como ela pode ser uma tremenda ditadora, o que pode acontecer em sala de aula é: 1) os alunos adorarem a ideia de queimar a escola e queimar a sua na prática; 2) achar que todo diretor de escola é corrupto e tentar derrubar seu chefe; 3) criar um medo desenfreado dos outros amigos e, questiona-los sobre “você-não-queimaria-a-escola-queimaria?” 4) não ler o livro e ver o resumo na internet, consequentemente se ferrar em algum vestibular. Na prática, a 4 é a mais aplicável; ainda sim, as outras opções são possíveis. As consequências do final de O Ateneu podem ser preocupantes para educação brasileira, assim como o pagamento no final do mês é pro pobre professor. Logo, a alteração do final é uma possibilidade a se pensar.

Um bom desfecho seria... não alterá-lo de fato e deixar nas mãos de seus alunos, criando uma nova forma de interação com eles. Se você entende o mínimo de teorias educacionais, vai saber que trazer o universo do aluno pra dentro da sala de aula, é um dos conceitos mais repetidos nos cursos de Licenciatura (e mesmo assim, seguido por cerca de 20 professores no País todo) e a ideia é aplicá-lo aqui. Por fim, transformar O Ateneu em um jogo na mesma interface do Bully (ou GTA, pra quem não é familiarizado); o jogador controlaria Sérgio, um novato num internato que quer ser o rei da escola. Entre as missões dadas a ele teria a de ajudar (ou não) no incêdio que destrói o internato por fim. Dando a opção de diferentes desfechos ao jogador.

Para Playstation 3, Nintendo Wii e XBOX 360 – o preço varia de 150 reais o original a de graça no BitTorrent.

#4 Senhora de José de Alencar.   

É sobre…? Senhora narra a saga de Aurélia Camargo, a perfeição em forma de mulher e seu ‘amor’ Fernando Seixas. Estavam prometidos até que, num belo dito, Fernando encontra outra com um dote (nesse sentido, dinheiro mesmo) maior que o de Aurélia e a deixa. O tempo passa e a heroína acaba herdando uma fortuna e configurando-se na escala Podre de Rica de realeza. Decide então ‘comprar’ aquele que a deixou, casando com Fernando e tornando sua vida uma estrada para o inferno, com escalas no desespero e adicionais de ódio para o café da manhã.

Porque queremos outro desfecho? Com o passar das páginas e as descrições de mais de 50 linhas da cortina do quarto de Aurélia, acabamos nos afeiçoando a personagem principal. Ela é inteligente, linda e, claro, rica, o que cativa os leitores. Mas, acima de tudo, amamos Aurélia porque ela é uma mulher vingativa e não existe nada mais delicioso que a vingança. E é por isso mesmo que o final de Senhora decepciona: depois de fazer Fernando comer (merecidamente) o pão que o diabo amassou e fazer todas as mal-amadas leitores se sentirem vingadas ela…se entrega a ele? O desfecho é esse: ela acaba cedendo e descobrindo que Fernando é, de fato, o verdadeiro amor de sua vida.

Um bom desfecho seria… após a cena que Aurélia mostra o testamento que deixou em nome de Fernando e ele admitiria seu amor por ela, a heroína subiria em uma cadeira e recitaria “Agora que eu sou p#$@ você vem falar de amor” e rasgaria o testamento em pedacinhos, atirando-os todos em Fernando. Contaria então que nunca estiveram casados oficialmente e que, se quisesse, poderia ir embora – sem um tostão. Fernando então casaria de fato com Adelaide, aquela que ele trocou Aurélia que, por sua vez, lançaria uma carreira de sucesso na indústria funk com um grupo intitulado “Gaiola das Senhoras Nuas” com grandes hits que cantam sobre o feminismo, a liberdade do sexo e como sobre ela não vai dar e sim distribuir.

Segura esse chifre, Fernando.

#3 Dom Casmurro de Machado de Assis   

É sobre…? Sério mesmo que você não sabe? Quantas aulas do Ensino Médio você cabulou? De qualquer forma, Dom Casmurro é a história de Bento Santiago, nosso queridíssimo (cof, cof) Bentinho, que narra sua história de amor (depois ódio) por Capitulina a primeira girl next door da Literatura Brasileira. Depois de muitos pesares, o casal acaba casando-se e tem um filho – porém, o ciúmes doentio de Bentinho e a desconfiança de um adultério que poderia ter acontecido entre Capitu e Escobar acaba com eles.

Porque queremos outro desfecho? Não, não é porque gostamos de Bentinho. Ou porque achamos os olhos de ressaca de Capitu lindíssimos (fazendo cosplay de José Dias). Muito menos porque achamos o Escobar um gato que faz Exatas muito do esperto. Queremos outro desfecho acima de tudo porque não se aguenta mais a discussão literária mais realizada de todas: será que Capitu traiu Bentinho? Como se esse fosse o foco do livro. Desconfio que, se a família de Machadão ganha um centavo cada vez que questionam um aluno de Letras se ele acha se houve adultério ou não, eles devem estar nadando num tanque de moedas de ouro tão grande que faria o Tio Patinhos ter invejinha.

Um bom desfecho seria…Bentinho tocar o terror em casa e pedir um DNA o mais rápido possível. Quebrados de pagar todas as despesas médicas de Dona Glória, o casal decide ir ao programa do Ratinho no qual são calorosamente recebidos por Carlos Massa que diz que “a cobra vai fumar no cachimbão do seu Casmurro hoje”. Depois de muito quebra pau e cartolas jogadas para todos os lados, revela-se o veredicto: Capitu traiu Bentinho e comenta para o ex-marido que “ninguém mandou você ser broxa”. Desolada, Sancha é obrigada a pagar a pensão do falecido marido infiel enquanto Capitu decide, assim como no original, ir para a Europa tomar uns bons drink. Bentinho enlouquece com o chifre confirmado e morre sozinho.

Parabéns pro papai!

#2 Todo e qualquer poema de Manuel Bandeira

É sobre…? Dor, morte, doença, mais morte, remédios, cidades imaginárias, morte, infância perdida, todos que eu amo morrem na minha frente, humor negro, eu já falei que tem morte?

Porque queremos outro desfecho? Se o destino é um piadista, a vida do Manuel Bandeira foi um encontro nacional de comediantes de stand-up. Condenado desde muito novo a morte, graças a sua condição de tuberculoso, viveu uma vida sozinho e sem nada – não casou, não teve filhos, não andou de bicicleta – por saber que iria morrer da doença. No fim, viu todos morrer a sua volta e faleceu… de hemorragia gástrica.

Um bom desfecho seria… as imagens dizem tudo.

Os alunos nunca gostaram tanto de Manuel Bandeira.

#1 A Hora da Estrela de Clarice Lispector

É sobre…? A história de uma nordestina virgem que gosta de hot-dog com coca-cola. Macabéa é uma heroína ingênua que não sabe nada da vida, e como não tem facebook, escuta as notícias num rádio relógio (que dá quase na mesma). Assim como todos os livros de Lispector, é a saga introspectiva de uma personagem que faz todas as adolescentes pedantes acharem que a Clarice escreveu tudo aquilo pensando nela.

Porque queremos outro desfecho? We found a Macabéa in a hopeless place. Gostamos dela, simpatizamos com a amável inocência dela, pelo namoro fora dos padrões com o babaca, pelo bullying sofrido pela Glória. A ironia de Macabéa ser atropelada pelo carro que tem uma estrela e esse ser, por fim, a sua Hora da Estrela que a cartomante previu, dói demais. Para uma população que está acostumada com o Gugu dando casas e máquinas de fralda aos pobres coitados nos domingos, esse golpe é muito forte.

Um bom desfecho seria… Macabéa sair da cartomante deslumbrada. Entra na primeira lan-house que encontra e, com a webcam fuleira que encontra ali, grava seu vlog que questiona, no primeiro vídeo, sobre pessoas que tomam aspirina porque doem por dentro. Um sucesso estrondoso, Macabéa ganha o prêmio de melhor Webhit no VMB do mesmo ano, começa a escrever uma coluna semanal sobre moda & beleza para um grande site de conglomerado e dá entrevista pro Fantástico sobre como fazer sucesso na internet. Vira meme, faz parcerias com grandes nomes de seu meio como PC Siqueira e Felipe Neto e ataca de DJ nas noite cariocas.

 “- QUEM AMA O VLOG DA BÉA DÁ JOINHA.”

Isabelle Kepe é professora de Literatura, RPGista e farsante; divide seu tempo entre lecionar, a internet e a venda de algodão doce na praia vestida de Pokémon. Provavelmente vai perder o emprego e o (pouco) respeito que tinha na sala dos professores depois desse artigo. Escreve sempre um emaranhado de piadinhas bobocas de humor questionável.

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