Publicado originalmente no Estadão

Em entrevista ao ‘Estado’, quadrinista fala da ideia de abordar consciência coletiva nas histórias

Inconformado com sua incapacidade de ajudar o pai que agonizava em um hospital, o cartunista americano Daniel Clowes, enquanto aguardava por notícias, tentava relaxar desenhando. “Fiz vários quadrinhos engraçados sobre as divagações de um cara cuja personalidade se revelou logo no primeiro instante”, conta Clowes. “Era algo que eu fazia apenas para me distrair, sem pensar muito, deixando o comando com a mão, livremente, sem censura.”

Wilson. Ele tenta, mas não consegue, se conectar com o mundo / Divulgação

Quando se deu conta, tinha desenhado dezenas de quadrinhos que, se não contavam uma história coerentemente, ao menos revelavam um personagem sólido, um homem de meia-idade, solitário, egoísta, que, apesar de insistir, não consegue se relacionar com outras pessoas. “Na iminência de perder o pai, ele tenta juntar os cacos e remontar o que fora uma família”, continua Clowes, que conversou com o Estado por telefone. A partir desse fio de meada, ele retrabalhou o material e criou Wilson, álbum que a Companhia das Letras apresenta nesta semana em seu selo de quadrinhos.

Lançada em 2010, a graphic novel tornou-se um sucesso instantâneo, para surpresa do próprio autor. Afinal, ao contrário de homens indestrutíveis, Wilson traz como protagonista um senhor por vezes antipático, que diz em voz alta o que a maioria apenas pensa. Basta a leitura de uma das séries de quadrinhos, intitulada Lanchonete: enquanto aguarda pela ex-mulher, Wilson a descreve como uma prostituta sem perceber que está diante da própria – é a garçonete. Em outra, Portão 27, Wilson puxa conversa com um engravatado no saguão do aeroporto. Ao descobrir que ele é gerente sênior de um pequeno fundo de negócios, Wilson tenta convencê-lo de que está na profissão errada, algo que só vai descobrir quando estiver no leito de morte. Como o rapaz garante ter orgulho do que faz, Wilson, desconsolado, segura o rosto com as mãos e se lamenta: “Ah, Deus, que horror o jeito como as pessoas vivem!”.

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