Publicado originalmente na Folha.com

Na peça de Shakespeare, quando o fantasma do pai pede que se lembre dele, Hamlet promete apagar todos os registros “da tábua da minha mente” para se concentrar na memória do pai –e na vingança de sua morte.

A tábua, “table” no original, é “O BlackBerry de Hamlet“, título do livro de William Powers que sai no Brasil um ano e meio após entrar para os mais vendidos do “New York Times”, nos EUA.

Leia abaixo a íntegra da entrevista com Powers:

Folha – Seu livro abre com Sócrates. No diálogo que você menciona, ele fala contra a palavra escrita e Fedro fala contra a cidade, o ambiente. Essas visões têm paralelo com os dias de hoje?
William Powers:
Sim. Comecei a parte filosófica do livro com esse diálogo porque ele levanta temas que acredito que são importantes hoje.

Um é que nós somos criaturas sociais, queremos conhecer nosso ambiente e nosso mundo e, para prosperar nele, precisamos de informação e de outras pessoas. Sócrates, em seu amor pela cidade e pela comunicação oral, é um grande exemplo disso. Você pode dizer que ele era viciado na palavra falada. Mas, da maneira como Fedro entende, em parte por causa do conselho que ouve de um médico, nós também precisamos de alguma distância de nossa conectividade, de modo a poder fazer algo útil com ela. Para refletir sobre ela; para talvez levar o mundo em que vivemos a uma situação melhor; para refletir sobre aquelas informações e fazer algo novo com elas e levar de volta ao mundo.

Isso é o que a caminhada simboliza para mim, é a importância de manter alguma distância da multidão nas nossas vidas. Para mim, a multidão de Atenas, a cidade movimentada, é uma espécie de metáfora ou substituto para a movimentada multidão digital em que estamos navegando hoje, todos os dias.

Mas Sócrates também é cético com a novíssima tecnologia que chegou, a palavra escrita, e para mim isso é um lembrete de que, mesmo quando buscamos nos distanciar da tecnologia, não devemos ter a mente fechada. Não devemos temer a tecnologia da maneira como algumas pessoas temem hoje.

Não sei quanto ao Brasil, mas aqui temos pessoas que são basicamente luditas, que acreditam que o mundo está sendo destruído pela conectividade digital. Eu não acredito nisso, sou um otimista, e queria mostrar que mesmo alguém tão brilhante como Sócrates poderia entender errado. Essa é uma espécie de alerta na história: tenha consciência de que não devemos ver só o lado ruim da nova tecnologia, mas também o lado bom, os benefícios. O que, é claro, Platão viu, porque ele decidiu usar exatamente a tecnologia que Sócrates condena, para registrar o diálogo.

A metáfora mais interessante, ao menos para mim, é exatamente aquela que você leva ao título, o BlackBerry de Hamlet. A “tábua” mencionada já era uma metáfora em si mesma, para a visão de Shakespeare da nova tecnologia da época, que era a imprensa.
Sim.

É a mesma ideia ou você vê diferença com o que menciona de Platão?
Eu falo bastante sobre o livro, agora já tem um ano e meio que venho tratando publicamente dele, e na verdade essa é a mais difícil de abordar, embora seja o título, porque as ideias que levanto naquele capítulo são um pouco sutis. Vou tentar abordar os diferentes níveis que trabalho nele.

Em primeiro lugar, sim, a tábua de Hamlet faz um paralelo com o nosso próprio tempo tecnológico. É um aparelho, uma nova invenção que as pessoas amavam e na qual eram viciadas, durante uma revolução tecnológica. O que é diferente é que ela é uma combinação entre o velho e o novo, usa uma tecnologia, a escrita à mão, que as pessoas pensavam que morreria, na era da imprensa. E que na verdade se tornou mais útil, num tempo em que as pessoas se sentiam oprimidas pelo peso de todos aqueles impressos sendo empilhados ao seu redor. E pela incapacidade de estar a par de tudo, um excesso [overload] de informação, digamos.

Elas podiam escrever algo temporariamente e fazer com que desaparecesse, trazendo portanto alguma ordem às suas vidas malucas e se mostrando capazes de navegar a revolução mais efetivamente. Nesse sentido, era diferente dos nossos aparelhos, que tendem ao excesso hoje. E é um modelo de como a tecnologia pode nos ajudar a ir para a frente, para um quadro melhor, e tornar a carga um pouco mais leve.

Em segundo lugar, eu simplesmente gosto da linguagem metafórica que Shakespeare usa, quando Hamlet fala de seu “globo alterado” e de “apagar a tábua da mente”, tentando se livrar de toda aquela desordem. Isso me fez lembrar tanto os desafios que enfrentamos, com nossas distrações de hoje, como o desejo que temos de ser capazes de aliviar a carga e tornar a vida um pouco mais administrável.

Todas essas coisas estão de certa maneira empacotadas nesse capítulo. Sou muito cético das pessoas que dizem que o futuro será digital e não haverá utilidade para velhas tecnologia como o papel impresso. Realmente acho que não é o caso. Portanto, a maneira como o BlackBerry de Hamlet, a tábua, usa a velha tecnologia da escrita à mão tem a ver com isso também.

O subtítulo de seu estudo original em Harvard, em 2006, era “Por que o papel é eterno”. Isso não o torna também um ludita?
Não, não. No ensaio eu argumento que a razão por que o papel será eterno, na minha opinião, é que as tecnologias digitais vão evoluir, de maneira que farão por nós o que o papel sempre fez. O papel pode até desaparecer, mas será como se não percebêssemos, porque teremos aparelhos que trabalham por nós da mesma maneira que o papel faz.

Por exemplo, existe essa visão de um e-book que terá centenas de páginas e que você vai tocar e sentir como um papel, virar as páginas com as mãos. O que seria muito útil, penso eu, porque somos seres corporificados e é bom trabalhar com uma tecnologia corporificada. E o e-book será atualizável e você poderá transformá-lo em qualquer livro que queira. Portanto, acredito que estamos caminhando para um futuro que, de forma irônica, será moldado pela nossa experiência com o impresso.

Ainda que gostemos de pensar que estamos vivendo uma ruptura com o passado, eu vejo mais como uma evolução contínua, uma tecnologia se sobrepondo à outra. É a ideia que eu estava querendo lançar com o ensaio, que eu imaginava que teria um papel muito maior no livro. No rascunho, era um capítulo inteiro. Mas meu editor ficava dizendo que ele não cabia no livro e eu deveria deixá-lo como ensaio. Foi o que decidi fazer, no fim.

Li um texto na “New Yorker” que elogia, mas também questiona seu livro. Pega a parte que oferece uma saída ao vício tecnológico –desligar tudo o que é digital– e aponta como contradição que você aceita manter a TV ligada. A televisão não assusta mais, como antes?
Em primeiro lugar, sobre esse texto, eu fiquei feliz de ser discutido na “New Yorker”, mas não penso que o autor, Adam Gopnik, leu o livro todo, porque me classifica na categoria errada, das pessoas que gostariam que as novas tecnologias nunca tivessem aparecido. E eu penso que sou de outra categoria, das pessoas que acreditam que estavamos atravessando um ciclo que sempre atravessamos e que é algo normal. Acho que o livro foi mal interpretado.

Mas sim, quanto à questão da televisão, como eu nasci nos anos 60, para mim ela é perfeitamente natural, não uma ruptura. E acredito que esse é um aspecto natural de todo período que você atravessa. As pessoas que nascem com a tecnologia se ajustam mais facilmente.

Ouço muito uma pergunta, “isso não significa que os jovens de hoje não têm problemas com o excesso de informação e com o vício digital?”. E eu sempre contraponho que encontro muitos jovens que se sentem conectados com o livro, que agora é parte do currículo de um monte de universidades. Porque nossa atenção só vai até uma certa capacidade de expansão, pela natureza do cérebro. Isso significa que, em algum nível, todos estamos tendo de nos ajustar a essa nova inundação de informação. É uma inundação muito rica, com grande potencial, mas também um desafio.

Você esteve no último festival South by Southwest, que priorizou essa corrida para lidar com o excesso de informação digital.
Sim.

Neste ano, além do excesso de informação, o SXSW deve focar também realidade aumentada [“augmented reality”] e inteligência expandida, esse tipo de discussão. Como você vê essa questão, da tecnologia tornando nossas mentes e nossas realidades maiores e sem limites?
Acredito que estamos no caminho de um sentido expandido de realidade, de uma conexão expandida com a realidade, graças às nossas ferramentas. Falo de uma dessas visões no livro, em que as paredes dos prédios serão cabeadas e a capacidade de conexão com a informação estará ao nosso redor _e portanto será como se parte de nossas mentes estivesse lá fora, no mundo. Teremos uma espécie de consciência expandida, o que vejo como uma possibilidade maravilhosa. Acredito que chegaremos lá mais efetivamente se nos mantivermos com os pés no chão.

Lembre-se que também trazemos muito poder e potencial à equação. As máquinas são extraordinárias e vão nos ajudar, mas muitas vezes não levamos em conta que a mente humana é o aparelho mais complexo e poderoso criado no Universo, de que temos notícia. E somos tão importantes para a equação quanto qualquer computador. Daí essa ideia de equilíbrio entre nossa vidas digitais e não digitais ser tão crucial para mim. Porque queremos manter nossas mentes tão arraigadas na realidade e trazer nossas próprias conclusões e conexões à mesa, para que a realidade expandida seja tão rica quanto possível.

Ao mesmo tempo, você está agora mergulhado na tecnologia, com a Bluefin Labs.
Vou trabalhar nesse projeto ao longo do próximo ano. É uma startup de tecnologia, que saiu do MIT, e criou novas maneiras de identificar padrões e extrair significados da conversação de mídia social, especialmente do Twitter. Vou aplicar a tecnologia na campanha presidencial americana. Será uma nova maneira de ler o público. O livro tem uma série de mensagens, e uma delas é sobre o potencial criativo do digital. Vejo esse projeto como uma tentativa de ir mais fundo, como escrevo no livro, de levar a tecnologia a lugares mais profundos.

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