Publicado no Terra

A estudante Renata Salles é autora de um projeto ambicioso: a continuação da famosa quadrilogia de Stephenie Meyer, iniciada em 2005 com  Crepúsculo  . Foto: Arquivo pessoal/Divulgação

A estudante Renata Salles é autora de um projeto ambicioso: a continuação da famosa quadrilogia de Stephenie Meyer, iniciada em 2005 com Crepúsculo Foto: Arquivo pessoal/Divulgação

Fãs de histórias consagradas, como as sagas Harry Potter e Crepúsculo, encontram na internet terreno fértil para recontá-las, muitas vezes com personagens imersos em enredos completamente diferentes. Ao criar as chamadas fan fictions, narrativas ficcionais feitas por fãs, eles estimulam a criatividade e o gosto pela escrita.

A iniciativa não é nova: já no século XVII, versões não autorizadas de Dom Quixote foram publicadas antes de o segundo volume da obra de Miguel de Cervantes ser lançado, em 1615. Populares entre os anos 1970 e 1990 no Brasil, as fanzines também estamparam adaptações em revistas editadas por fãs. Mas foi a internet que potencializou e deu nova dimensão à produção das fan fictions.

“A cultura participativa dos fãs sempre criou seus próprios produtos. A diferença é que a rapidez e a facilidade de publicação amplificam o público e geram novas apropriações”, avalia a professora da pós-graduação em Ciências da Comunicação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) Adriana Amaral.

São diversos sites que abrem espaço para as também chamadas fanfics. O FanFiction.net (http://www.fanfiction.net/) recebe adaptações não só de obras literárias, mas também de filmes, peças de teatro e jogos, por exemplo.

Entre os que fizeram sucesso nas telonas, a franquia Piratas no Caribe conta com mais de 19 mil fanfics. Até o longa O Silêncio dos Inocentes, ganhador do Oscar de melhor filme em 1991, ganhou versões: são quase 1,4 mil recriações. Harry Potter é insuperável entre os livros: a saga de J. K. Rowling já ultrapassou as 577 mil adaptações. “A fanfic é uma escrita de nicho, daí o porquê dessa prática também ter alcançado seu sucesso na internet, pois é algo que quem gosta vai atrás. É preciso buscar a informação”, diz Adriana. O formato é tão estruturado que há até classificação etária, de acordo com o conteúdo abordado.

A estudante de Arte Dramática Renata Salles, 18 anos, de São Paulo, é autora de um projeto ambicioso: a continuação da famosa quadrilogia de Stephenie Meyer, iniciada em 2005 com Crepúsculo, e febre entre adolescentes. Intitulado Utopia, o livro que começou a ser escrito em 2008 já está no décimo capítulo e reúne leitores no blog oficial (http://utopiaon.blogspot.com/) e em redes sociais. A versão tem até capa de divulgação. Na conta, mais de 1,2 mil visualizações e downloads – sem falar no número não estimado de leitores através do site brasileiro especializado Nyah! Fanfiction (http://www.fanfiction.com.br/viewstory.php?sid=47823).

Para Renata, o gosto de “quero mais” deixado pelo último livro da série serviu de impulso para novas ideias e para a vontade de escrever. “Não foi premeditado. Na época, eu nem sabia o que era uma fan fiction“, conta.

O início foi modesto: participante de fóruns de debate sobre a saga, ela enviava os capítulos em PDF (formato de arquivo eletrônico) via e-mail para quem se interessasse. A intenção de publicar uma versão impressa não se concretizou, mas no meio online ela acumula fãs que vão dos 13 até mais de 25 anos, segundo sua própria estimativa.

A professora de Língua Portuguesa do Colégio Sagrado Coração de Maria, em Vitória (ES), Kelly Christine Lisboa Diniz vê na produção de fanfics um exercício criativo válido. “Entre um adolescente não escrever nada e escrever esse tipo de história, é melhor que ele faça uso da escrita. Assim, ele está se comunicando socialmente, está interagindo com as estruturas de narração”, analisa. Ela ainda frisa que as produções derivadas e disseminadas via internet não devem ser descartadas, pois representam uma característica da geração atual.

A professora de Língua Portuguesa e Redação Evanice Ramos Lima Barreto, doutoranda em Língua e Cultura pela Universidade Federal da Bahia, vê nas fanfics grande importância no desenvolvimento da leitura e da escrita entre os adolescentes. “Elas despertam o desejo de ler e estimulam a produção textual”, diz.

Com Renata, o processo foi semelhante. Empolgada com a adaptação de Crepúsculo para as telonas (o filme foi lançado no Brasil em dezembro de 2008), ela aceitou a sugestão da irmã e começou a ler os livros. “Eu não tinha o hábito de ler. Para falar a verdade, eu odiava. Nunca tinha conseguido, e Crepúsculo parecia um livro muito grande”, admite. Quando terminou o primeiro volume, seguiu com a curiosidade típica de quem faz uma nova descoberta. Agora, o objetivo é finalizar Utopia e partir para uma obra autoral, com universo e personagens próprios. “A escrita e a leitura agora definitivamente fazem parte de mim. E continuarão fazendo, com certeza”, garante.

O processo de criação na internet
Na hora de começar uma fan fiction, o importante é não limitar o potencial criativo a uma mera reprodução da história. “Quando o jovem recria com uma base pré-concebida, também precisa de criatividade, senão ele cai no óbvio”, orienta Kelly. Outro ponto ressaltado por ambas as professoras é que as fanfics devem servir como ponto de partida para o adolescente tomar gosto pela leitura ou pela escrita, não como uma preferência exclusiva. “É preciso estimulá-los à leitura dos mais diferentes gêneros textuais, a fim de que eles não se limitem a uma modalidade”, destaca Evanice.

No entanto, narrativas que incorporam gírias e abreviações utilizadas pelos jovens no ambiente virtual, como é o caso de algumas fanfics, são um dos principais motivos para que certos acadêmicos observem esse tipo de narrativa com reservas. “Há puritanos da língua que defendem apenas a escrita baseada em norma culta, mas nós temos que levar em conta essa variação”, defende a professora Kelly, que também é mestre em Texto e Discurso pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Por outro lado, Evanice argumenta que o meio acadêmico tem, sim, consciência de que se deve valorizar todos os gêneros textuais, incluindo a literatura na web.

Além das fanfics, a internet pode servir como estímulo à escrita em projetos pedagógicos colocados em prática na sala de aula, seja de forma lúdica ou desafiadora. Evanice acredita que a possibilidade de publicação – e a potencial existência de leitores – é uma grande motivação para que jovens invistam na criação de textos. “A construção de blogs para a publicação de relatos pessoais, poesias, contos e crônicas produzidos pelos alunos, bem como o jornal escolar virtual e a revista eletrônica são alguns exemplos”, indica. Na escola onde Kelly leciona, os alunos são incentivados a discutir temas em fóruns, nos quais os professores também participam, criar conteúdo para jornais internos e produzir livros online (alguns deles com histórias em quadrinhos).

Tornar-se autor de fanfics não é uma tarefa difícil e traz benefícios. Muitas vezes, mexe com a vontade do autor iniciante de mais tarde se profissionalizar. Produzir literatura pra valer, contudo, não é tão simples: exige planejamento, conhecimento de aspectos estruturais, culturais e avaliação do público a que será direcionado a obra, aponta Kelly. “Nem a escola consegue garantir que todos os escritores de redação serão literários, então que dirá um gênero textual na internet. Mas pode ser que saiam bons, e tomara que saiam”, diz.

A questão legal
As leis brasileiras sobre propriedade intelectual e direitos autorais são enfáticas: autorização do autor é essencial para reproduzir ou adaptar uma obra com copyright. Mesmo no caso de produções estrangeiras, a advogada Sâmia Amin Santos, representante em Minas Gerais da Associação Brasileira de Propriedade Intelectual (ABPI), esclarece que o Brasil tem tratados internacionais que reconhecem a reciprocidade e fazem valer a lei quando é caracterizado o dano. “Na prática, se o autor quiser impugnar, ele pode pedir para retirar o material do ar”, explica.

Mas nem sempre a medida extrema é a mais requisitada. Alguns criadores inicialmente se sentem prejudicados pelas adaptações de seu trabalho, mas depois ficam contentes com o sucesso. “Tem clientes que primeiro chegam indignados. Posteriormente, em razão da repercussão, eles até incentivam, desde que não denigra a imagem do autor ou do personagem”, conta Sâmia.

Na turma dos que levam a prática na esportiva, J. K. Rowling estabelece como regra aos fãs de Harry Potter que as histórias não sejam publicadas com objetivo comercial, enquanto Stephenie Meyer chegou a abrir um espaço em seu site oficial (http://stepheniemeyer.com/ts_fansites.html) para a publicação das adaptações. Já Anne Rice, autora de Entrevista com o Vampiro, manifestou-se totalmente contra à prática e pediu aos fãs que não escrevam fanfics sobre sua obra.

Renata Salles, autora de Utopia, reconhece que as criações podem ser consideradas uma infração às leis de direitos autorais, mas também acredita que a repercussão e o retorno que a atividade oferece ao autor da obra original pode relevar esse aspecto. “De modo algum eu quero tomar a história pra mim. Utopia é um tributo à saga Crepúsculo, de modo que a história que escrevi de certa forma também é dela Stephenie Meyer”.

Lidar com a propriedade intelectual em tempos de rápida disseminação de material em meios digitais é um debate controverso. Para a advogada Sâmia, tanto autor quanto leitor teriam de ceder um pouco, respeitando o conteúdo que não é liberado para reprodução e entendendo que é difícil monitorar o que é divulgado. “A internet, sem dúvida, possibilitou maior liberdade e circulação de informações, mas também trouxe prejuízo para alguns autores. Agora é hora de repensar. Teria que existir uma forma de o autor controlar, mas sem ferir a liberdade de expressão”, opina.

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