Publicado na Folha Online

Lisa Appignanesi, diretora do Freud Museum, em Londres, já escreveu sobre o conflito entre o pai da psicanálise e as ideias do feminismo. Depois, questionou o aumento no diagnóstico de doenças mentais em mulheres.

Agora, a premiada autora de “Tristes, Loucas e Más” parte em defesa do amor ordinário. Seu último livro, “All About Love” (“Tudo sobre o amor”), aborda os prazeres de um relacionamento comum. A edição brasileira deve sair em 2013.

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Lisa Appignanesi, escritora e diretora do Freud Museum
Lisa Appignanesi, escritora e diretora do Freud Museum

“Em um tempo em que todos os sentimentos viraram categorias médicas, o amor é a melhor linguagem para expandir a normalidade”, disse em entrevista à Folha, em sua casa, em Londres.

Nascida na Polônia, Lisa cresceu na França, morou em Montreal e Nova York e estabeleceu-se em Londres, onde vive com o segundo marido.

Aos 66 (“Detesto ter que contar isso a todo mundo”), tenta parar de fumar, mas usa um cigarro eletrônico para, solidária, acompanhar as baforadas do marido. “São essas pequenas gentilezas cotidianas que tornam a vida tolerável. Isso é o amor”, diz.

Folha – Por que, agora, a senhora resolveu escrever um livro sobre o amor?

Lisa Appignanesi – Quis explorar as diferentes formas de usar nosso impulso de união. É importante, hoje, repensar e reequilibrar as nossas várias ideias sobre o amor.

Como seria esse equilíbrio?

Podemos expandir a ideia de normalidade, encontrar excitação na familiaridade. Podemos pensar no amor não só em termos de tragédia, mas também como uma comédia. Dar risada junto com a pessoa amada é uma boa maneira de renovar o relacionamento. Perdemos a capacidade de perceber os prazeres do amor ordinário.

Não quer dizer que devemos ficar com a mesma pessoa a vida toda. Hoje é fácil se separar, o que é bom. Mas isso não nos ajuda a lidar melhor com a vida amorosa.

Por quê?

Porque está cada vez mais difícil criar histórias de amor que deem sentido ao nosso desejo. Em nossa cultura, pelo menos, criamos muitos obstáculos para isso.

Quais são eles?

Um obstáculo é a relação complicada entre amor e sexualidade. Ok, hoje pode não haver tanta repressão sexual, mas ainda colocamos essas duas coisas em compartimentos separados.

Ficou mais fácil ter satisfação sexual (sem amor), e mais difícil ter uma relação amorosa (com ou sem sexo).

O negócio é a pessoa encontrar a forma mais rápida de satisfazer seus desejos. O sexo é uma mercadoria mais fácil de achar do que o amor.

Outro problema é a obsessão moderna pela felicidade. Ser feliz virou uma obrigação -e o amor (como o sexo, o trabalho, a cultura) só serve se nos trouxer isso. Mas, ao mesmo tempo, as pessoas não acreditam mais no “felizes para sempre”. Então, trocam o eterno pelo intenso, querem algo que as deixe muito loucas, como uma droga, ou as leve a estados profundos de desespero.

Isso traz outra dificuldade, que é o ideal do amor extraordinário, fora do comum. Não temos, ou não usamos, referências do amor ordinário, que é o amor que temos na vida real, com alguns altos e baixos, mas, na maioria das vezes, com seus platôs. Não conseguimos ver nisso material para criar nossa história de amor e ficamos esperando que uma nova pessoa ou uma nova oportunidade nos traga a experiência extraordinária.

É um ideal, que nunca pode ser concretizado?

É também real, mas é só uma parte da história de amor que construímos no decorrer da vida, digamos que são alguns picos. Mas são os que queremos repetir sempre. Porque tudo começa no primeiro amor, a grande experiência da paixão que, normalmente, termina com algum grau de tragédia. É arrebatador porque é uma ruptura com a família, amamos outras pessoas que não são os nossos pais. Isso é realmente fora do comum e nos transforma. Essa experiência acaba sendo o molde do que esperamos encontrar no “verdadeiro” amor.

E também é incentivado pelos ideais do amor romântico…

E por ideais pós-modernos mesmo. Hoje, nossas fantasias não são moldadas exatamente pelo amor romântico, inalcançável, mas pela cultura do excesso. Temos tudo, queremos mais, nunca estamos satisfeitos. As pessoas não gostam de nada moderado, parece que estão perdendo algo. E não temos paciência para os hábitos do outro. Há fases em que o relacionamento é muito irritante.

E vale a pena insistir em um amor que se tornou irritante?

Não. Mas a saída não é a fantasia de que vamos achar outra pessoa que satisfaça todas as nossas expectativas. Não tenho a solução, não escrevi um livro de autoajuda, mas pesquisar sobre isso nos faz lidar melhor com a necessidade de amar e ser amado.

E as pesquisas da neurociência sobre o assunto, ajudam?

Fui criticada por não falar disso no livro, mas a a neurociência ainda tem muito pouco a dizer sobre o amor. Também não quis medicalizar o tema, não tratei do amor patológico. Deixei isso para o próximo livro, sobre os crimes da paixão.

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