Rogerio Galindo, na Gazeta do Povo

Liev Tolstoi era um sujeito cheio de ideias estranhas. Em seu livro “A Sonata a Kreutzer”, por exemplo, um personagem (e bem se sabe que estava falando o que ele queria dizer) defende, por exemplo, que a humanidade não deveria mais fazer sexo mesmo sabendo que isso levaria à extinção da espécie. Sabe-se, porém, que naquele mesmo ano Tolstoi estava tendo seu 13.º filho.

Uma ideia bem menos polêmica, mas curiosa, está em seu livro “Ressurreição”, o último longo romance que escreveu, já no início do século 20. No livro, há uma prostituta e um sujeito que se considera culpado por ela ter entrado nesta vida. E ele quer tirar a moça daquela vida (uma complicação é que ela está presa. O livro é excelente, vale ler).

O personagem masculino fica intrigado, no entanto, porque a moça se recusa a aceitar a ajuda dele. Não por achar indigno ser ajudada. Mas porque ela aprendeu a considerar que sua atividade como prostitua é valiosa. Ela se considera um bem para a sociedade. O raciocínio dela é que a melhor coisa que os homens podem ter é sexo. E que ela, uma mulher atraente, é capaz de proporcionar esse grande bem. Isso não pode ser algo mau, pensa ela…

Tolstoi diz que nos espantamos com isso, mas que todos nós tentamos fazer um esforço mental para considerar que nós, a nossa profissão, a nossa vida, são importantíssimos para os outros e para a sociedade como um todo.

“O que mais espantava a ele era que Katusha não se envergonhava de sua posição – não a posição de prisioneira (ela se envergonhava disso), mas da sua posição como uma prostituta. Ela parecia satisfeita, até orgulhosa disso. E, na verdade, como podia ser diferente? Todo mundo, para ser capaz de agir, tem de considerar a sua posição como boa e importante. Portanto, em qualquer posição em que a pessoa esteja, ela certamente vai formar uma visão da vida dos homens em geral que vai fazer com que a sua posição pareça importante e boa”, diz Tolstoi.

Será?

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