Caminhante diurno, no Livros & Afins

Em primeiro lugar, devo dizer que há dois tipos de livros chatos. O primeiro tipo é formado pelos livros mal escritos: o autor não revisou o suficiente, faz descrições desnecessárias, os personagens não têm carisma, a história é desinteressante, etc. São livros que nunca deveriam ter saído do rascunho e devem ser abandonados sem dó. Outro tipo de livro chato – e esse sim merece o esforço – é o livro complexo. É o livro com uma linguagem a que não estamos acostumados, ou que têm uma narrativa mais densa, ou que demoram mais para nos conquistar. Ler um livro desses exige esforço e nos recompensa de muitas formas.

Vejo a leitura como um tipo de exercício. Se você se conforma em fazer sempre o mesmo exercício, sem aumentar a carga ou suar um pouco mais, terá sempre o mesmo resultado. Livros também são assim. Existem estilos e autores que nos descem mais fácil. Só que ficar no mais fácil não deixa de ser uma limitação. Sempre tenho a impressão de que alguma coisa está errada quando conheço alguém que só lê Coleção Vagalume ou Agatha Christie. Não que exista algo de errado com qualquer um dos dois, é que há um universo grande lá fora. É como se a pessoa estivesse lendo sempre o mesmo livro e não sabe.

A saída é arriscar. Pegar aquele livro de quinhentas páginas, ou aquele autor conceituado e tentar ler. Quando as páginas começarem a ficar difíceis ou as letras se embaralharem, ao invés de assumir que não consegue ou que é apenas um livro chato, persistir. Dostoievski demora muito tempo construindo os personagens, mas depois de certo ponto a história fica irresistível. Kafka, à primeira vista, parece não nos revelar nada, até que a gente percebe que é pra se sentir na pele do personagem. Guimarães Rosa parece escrito todo errado, depois as palavras adquirem uma musicalidade própria do interior. Isso só pra citar alguns exemplos. Quanto mais autores lemos, mais nos acostumamos com maneiras diferentes de construir uma narrativa. Por consequência, nos tornamos leitores mais maleáveis – e os livros chatos nem parecerão mais tão chatos.

No fim, se apesar de toda a boa vontade, um livro é insoluvelmente chato, vale a experiência. Você termina aquele livro com mais clareza do que não gosta e, como autor, aprende o que não fazer na hora de escrever.

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