Publicado originalmente por Estadão

Autor da biografia do cofundador da Apple, Steve Jobs, o jornalista norte-americano Walter Isaacson, ex-editor da revista Time e ex-diretor da CNN, passou rapidamente por São Paulo para um evento fechado, concedendo uma entrevista exclusiva ao Caderno 2, em que falou sobre o livro que prepara, A Revolução Digital. Revelou ainda outros projetos, um deles deixado de lado, sobre o trompetista e cantor de jazz Louis Armstrong (1901-1971). Não seria propriamente uma nova biografia, mas um ensaio sobre o músico, escrito com a ajuda de seu amigo Wynton Marsalis.

Traços em comum com eleitos comprovam que toda biografia é um retrato do autor - JB NETO/AE

Animado com o sucesso de Steve Jobs – A Biografia (Companhia das Letras, 624 págs., R$ 49,90), que já vendeu 200 mil exemplares no Brasil, Isaacson se entregou a uma pesquisa extensa sobre as origens do mundo computacional, recuando até o século 19 para encontrar outro personagem que o deixou fascinado, o da primeira “programadora” de computadores da história, a inglesa Ada Lovelace (1815-1852), única filha legítima do poeta Lord Byron.

Lady Lovelace viveu pouco (37 anos), mas o suficiente para criar um algoritmo para o cálculo da sequência de Bernoulli, recorrendo à máquina analítica (de 1833) do cientista, matemático e filósofo inglês Charles Babbage (1791-1871), reconhecido como “pai da computação” por projetar um protocomputador que usava apenas partes mecânicas. “Achei interessante a filha de um grande poeta ser a pioneira do mundo da computação e isso me levou a desenvolver esse projeto sobre os primórdios de nossa revolução digital”, conta. A filha de Byron é tida como uma das poucas mentes privilegiadas que entenderam a máquina de Babbage, sendo autora de notas usadas nos anos 1950, um século após sua morte, na construção do primeiro computador.

O que seduz Isaacson para essa história científica não é tanto a tecnologia, mas os gênios nela envolvidos, como Jobs ou Babbage. “Todos nós conhecemos pessoas inteligentes, mas poucos gênios, e Steve era um deles, sem dúvida.” O biógrafo diz que nunca conheceu ninguém tão interessante. “Bill Gates é esperto, mas Steve tinha grande paixão pelo que fazia, era intuitivo e, ao mesmo tempo, muito emocional.” E também arrogante, capaz de humilhar os funcionários da Apple, como conta na biografia.

Isaacson teria algo dele e de outros biografados seus, como Benjamin Franklin, Einstein ou Kissinger? A filha Betsy acha que sim. Diz que o pai escreveu a biografia do ex-secretário de Estado americano para descobrir seu “lado escuro”. Isaacson ri. “E eu diria que ela se parece com Steve Jobs, enquanto Einstein lembra um pouco a personalidade do meu pai.” Ele concorda com o filósofo norte-americano Ralph Waldo Emerson (1803-1882), que disse ser toda biografia uma espécie de autobiografia.

“Emerson estava certo, pois me reconheço nos traços de alguns dos meus biografados”, admite. Ele destaca a sedução que o mundo transcendental exerceu sobre Jobs ou Einstein – e, consequentemente, sobre ele. “Quando comecei a escrever a biografia de Jobs, não sabia de seu envolvimento com o zen-budismo, mas descobri que tanto ele como Einstein encaravam a vida como uma jornada espiritual, embora o cientista não acreditasse num Deus pessoal, mas numa entidade superior capaz de intervir na ordem universal.”

Quando era editor da revista Time, Isaacson escolheu Einstein como o “homem do século”, o que traduz sua crença na ciência como força regeneradora da humanidade. “Poderíamos ter escolhido alguém que tivesse vencido os nazistas, como Roosevelt ou Churchill, mas as teorias de Einstein estiveram presentes em todas as invenções tecnológicas importantes do século 20”, justifica. E conclui: “É inegável que a conquista da liberdade tem a ver com a invenção da TV, dos satélites e da internet, que ajudam a derrubar as fronteiras dos países autoritários”.

Isaacson diz que escreve para “tentar unir as pessoas”, crédito que o levou à direção do Aspen Institute, organização educacional dedicada a orientar líderes por meio de seminários. Formado em jornalismo, história e filosofia, ele, na juventude, lutou contra a segregação racial em New Orleans, onde nasceu. “A eleição de Barack Obama foi histórica, mas ainda precisamos avançar”, diz, recorrendo ao slogan de Steve Jobs – “think different” (pense diferente). “Todos os que querem mudar o mundo deveriam refletir sobre isso.”

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