Luiz Schwarcz, no Blog da Companhia

(Foto de Lilia Moritz Schwarcz)

Os fins de tarde em Nova York — neste inverno primaveral, com temperaturas bem mais amenas que o usual — têm sido particularmente bonitos. O apartamento onde estamos morando fica no trigésimo sexto andar de um prédio central, com vistas parciais do parque e do rio Hudson. No fim da tarde, a visão dos prédios monumentais iluminados pelo sol é linda. Tento chegar do trabalho em tempo de curtir a vista, terminando o dia com alguma leitura, já que nessa área me sinto sempre em atraso. Terça passada cheguei faminto e, antes de começar a ler o novo romance de Ian McEwan, cortei alguns pedaços de queijo.

O reflexo do sol, já baixo, coloria o enorme prédio preto, com fachada envidraçada, que fica à direita do nosso. Escolhi uma trilha sonora: Chet Baker com Bill Evans e pronto, tinha a combinação perfeita para o que prometia ser o fim de tarde ideal. Pois não é que essa cena quase poética, idílica talvez, se transformou em um instante de horror?

Tudo por culpa do queijo, devo dizer. O primeiro pedaço que engoli, como sempre e por pura preguiça, sem descascar. Explico: a casca, ou um pedaço do queijo itself, sem dar bola alguma para o lindo pôr do sol, resolveu entalar na minha garganta, enquanto a narradora do livro de McEwan dirigia-se a um encontro amoroso com seu companheiro mais velho.

Sem respiração, passei a achar que não era só o dia se encerrava. Eu não terminaria o romance, não veria mais o fim de tarde em Manhattan, não voltaria ao Brasil levando presentes para as minhas netas, não reveria meus filhos, nem os colegas da editora — tudo isto passou na minha cabeça enquanto perdia a respiração, sem conseguir engolir o tal queijo.

Foi tudo muito rápido, até que eu desisti de engolir e optei por expelir. Acho que Chet Baker e Bill Evans nunca ouviram sons como aqueles. O sol parece até ter baixado mais rápido, assustado com o barulho, e o síndico do prédio por pouco não subiu com um bando de bombeiros para ver o que se passava no trigésimo sexto andar.

Se tivesse acudido, teria me visto branco, ou retomando alguma cor, com o olhar fixo no queijo assassino. Depois de pensar em todos que eu nunca mais encontraria, olhei para o prato onde ficara o outro pedaço de queijo, e percebi aliviado que se morresse engasgado deixaria vestígios que mostrariam que eu não tinha sido acometido por nenhuma síncope cardíaca ou derrame cerebral.

Minha reação foi ainda mais rápida. Acho que o que me deu forças para voltar a respirar, naquele momento, foi imaginar que no dia seguinte à tragédia os jornais falariam tanto do queijo com casca quanto de mim. Minha morte teria um protagonista de destaque, esdrúxulo e nada literário. “Editor brasileiro morre asfixiado com casca de queijo em Nova York”, ou pior, “Casca de queijo mata editor brasileiro em Manhattan”.

Quando me livrei do engasgo, o sol já não se refletia no prédio envidraçado; Bill Evans e Chet Baker já estavam na terceira faixa do cd e a narradora de McEwan pôde seguir para seu fim de semana erótico, perto de Cambridge, com seu tutor.

Olhei para o queijo, com desprezo, mas com um ar superior: “Meu amigo, sem chance de frequentarmos, juntos, as páginas dos jornais amanhã.

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