Zagueiro do Corinthians disse que o time está mais forte para vencer a Libertadores

O zagueiro do Corinthians Paulo André está disposto a encarar um desafio que vai bem além de impedir a progressão dos adversários. O atleta quer ocupar uma lacuna deixada no esporte brasileiro desde a morte de um dos maiores pensadores do nosso futebol, o Dr. Sócrates. Em entrevista aoR7, o defensor conta como foi influenciado pelo ídolo e também fala sobre o lançamento de seu livro, O Jogo da Minha Vida, recém-lançado pela editora Leya.

– Conheci o Sócrates em 2009 através da esposa dele, a Kátia, que é minha amiga de infância. A partir de então, comecei a frequentar a casa dele. Aprendi muito. Ele sempre me incentivou a expor minhas ideias. Dizia que se eu acreditava, tinha que mostrar minhas ideias.

Paulo André é uma exceção em um meio que pouco ou nenhum valor dá à formação cultural e intelectual. Ciente disso, o jogador quer arrebanhar o apoio de seus pares para conseguir mudar para melhor o cenário esportivo brasileiro. E é justamente isso que faz com seu livro, que conta com depoimentos de grandes astros, como Ronaldo Fenômeno e Maurren Maggi.

A obra, de tom biográfico, abre um diálogo mais realista com o público sobre o que é ser um atleta profissional de futebol, as agruras e as oportunidades que a carreira oferece. Oportunidades que, segundo Paulo, às vezes não são bem aproveitadas pelo esportista brasileiro, principalmente quando tem a chance de crescer na Europa, como fez o zagueiro durante os três anos que jogou pelo Le Mans, na França.

– Eu acho que falta aos jogadores aproveitar melhor o crescimento cultural e intelectual dessas oportunidades, mas não os culpo 100%. Infelizmente, eles não tiveram instrução e formação o suficiente para perceber a oportunidade que eles estão tendo através do futebol. O jogador de futebol é reflexo da sociedade. Então, a falta de um ensino público de qualidade acaba refletindo nesses erros que os jogadores cometem quando têm a oportunidade de se expor na mídia e na sociedade.

Recuperando-se de uma lesão no joelho, o corintiano falou sobre suas firmes posições em relação à concentração, aos dirigentes brasileiros e também disse que vê a equipe atual do time do Parque São Jorge com mais chances de vencer a Libertadores do que a de 2011. Leia abaixo a entrevista exclusiva de Paulo André ao R7.

R7 – Como surgiu a ideia de escrever o livro?

Paulo André – Não foi nada planejado. Eu tenho um blog desde 2010 em que eu escrevo sobre futebol, bastidores, política do esporte. E as coisas foram caminhando bem, foi tendo boa aceitação. Uma coisa que não é comum no Brasil, atleta em atividade escrever. Como tinha uma boa quantidade, pensei em juntar tudo e fazer um livro. Do dia para a noite.

R7 – E quando você desenvolveu o gosto pela literatura?

Paulo André – Foi na juventude. Logo que saí de casa, com um pouco de medo de ficar para trás nos estudos. No alojamento e nas viagens, muito tempo parado, eu aproveitava para ler, para passar o tempo e melhorar a minha formação. Com 14, 15 anos. Romances leves como Sydney Sheldon, autores que na época eu gostava muito. Hoje eu já leio mais filosofia, psicologia, história.

R7 – A leitura e a escrita facilitam para suportar o tédio das concentrações?

Paulo André – Sem dúvida. Contribui para alguma atividade porque você está preso. Eu optei pela leitura e posteriormente pela escrita. Tem gente que prefere ver televisão, filmes. Eu passei todas as fases. Mas o período de concentração tem que ser usado de uma forma benéfica, porque senão é muito tempo perdido.

R7 – No livro, você diz que não é contra a concentração, mas acha que ela é exagerada no Brasil. Como é isso?

Paulo André – Eu acho que quando a gente tem um número de muitos jogos em sequência, quarta e domingo, ela acaba sendo importante para a gente se alimentar bem e descansar. Porque muitas vezes você vai para casa e tem o filho chorando, a conta para pagar no banco. Então você não descansa 100%. Mas quando o jogo é espaçado de domingo a domingo, acho que não tem necessidade, porque você já teve o descanso da semana, se alimentou direito. Você tem que ser profissional suficiente para se cuidar e estar preparado para o seu trabalho.

R7 – Quando você voltou da Europa para o Corinthians, estranhou o excesso de concentração?

Paulo André – Foi mais difícil me acostumar com a não concentração lá do que com a concentração aqui. Aqui a gente sabe que é assim e tem que fazer, então já tinha minhas atividades, meus livros. Já sabia o que fazer, enchia minha mala de livros, filmes, computador e ia. Não tinha muita surpresa. Apesar de não ser agradável, a gente consegue passar o tempo.

R7 – Por que foi mais complicado não se concentrar?

Paulo André – Você tem que procurar uma boa alimentação. Eu morava sozinho e tinha que sair para comer em um restaurante que eu sabia que ia comer bem, ia comer carboidrato, proteína. No café da manhã a mesma coisa. Então você começa a se educar para se cuidar, porque você não é tratado como criança como aqui no Brasil. No começo é mais difícil até que você se adapte, mas a partir de então é muito melhor. Muito mais natural, você dorme na sua cama, descansa melhor, pode ter seus lazeres dentro de casa, ver a família.

R7 – Você já é visto como uma espécie de sucessor do Sócrates, pelo seu engajamento político no esporte. Como você vê essa situação?

Paulo André – Eu encaro com naturalidade. Tenho alguns objetivos no pós-carreira, que ainda não estão bem definidos, por serem muito abrangentes. Mas é uma área em que acho que posso ajudar. E quando falo em política do esporte estou sendo sincero, falo o que tenho vontade e acho que é certo. Não estou fazendo tipo, não quero aparecer. Estou apenas assumindo uma responsabilidade que outras pessoas não assumem. Gostaria de puxar o carro no futebol brasileiro para conseguir mais apoio e para que possamos melhorar. Não só para o futebol, mas para o espetáculo, para o público. Você não consegue melhorar condição de atleta, de calendário, se não unir a classe e brigar por seus direitos. É muita coisa para se fazer. Algumas são pequenas e podemos fazer agora. Outras são mais demoradas, porque o problema no Brasil é cultural e precisa de uma educação maior, uma exposição maior dessas ideias, para as pessoas aceitarem.

R7- Você esteve com o Sócrates em seus últimos dias?

Paulo André – Não cheguei a visitá-lo no hospital porque não gosto. Quando ele faleceu, recebi uma mensagem da Katia no meio da noite. Perdi um amigo, um ídolo e um pensador do futebol. E tínhamos o último jogo do Brasileirão naquele dia. Antes de entrar em campo, pensamos na homenagem. Mas lá dentro esquece tudo, não dá para pensar em nada, só em jogar futebol.

R7 – Como você vê o papel do dirigente de futebol no Brasil?

Paulo André – Nós perdemos muito tempo com esse cargo político. Os caras são indicados por fator político e não técnico. Isso atrasou muito o desenvolvimento dos clubes. Hoje, a maioria deles tem um gerente. Aqui no Corinthians temos o Edu, que é de dentro do futebol e tem o preparo da administração, de gestão para o cargo. Eu vejo com sucesso também o Rodrigo Caetano, que era do Vasco, e hoje está no Fluminense. Então quanto mais técnicos e mais preparados forem os dirigentes, melhor para o futebol e para os clubes.

R7 – E como está sua recuperação? Quando volta a jogar?

Paulo André – Eu estou correndo já, tem 35 dias de cirurgia. E espero estar apto para treinar com o grupo em 15 dias. Depois, até adquirir o ritmo e a força necessários, vai mais um pouquinho. Mas em duas semanas eu quero estar no campo.

R7 – Você se lesionou bem antes da estreia na Libertadores. Vai ser mais difícil retomar a posição de titular agora?

Paulo André – Me machuquei em um momento crucial. Vou ter que respeitar a posição do Tite, que talvez seja de manutenção do Chicão. Mas o mais importante é que eu volte fisicamente bem. Tenho certeza que com a dedicação do dia a dia, ali na frente vai aparecer mais uma oportunidade para eu mostrar o meu valor e assumir a posição de novo. Mas, a princípio, acredito que eu deva voltar ao banco e não vejo problema nenhum nisso.

R7 – O clima no Corinthians muda com a Libertadores?

Paulo André – Não dá para negar que tem uma pressão muito maior. Nós temos que nos preparar melhor para suportá-la. De qualquer maneira, essa última vitória fez muito bem ao grupo, porque dá confiança e tranquilidade para os próximos jogos. Temos uma pedreira agora no México, mas acho que, dos últimos anos, essa equipe é a que está mais preparada para vencer essa competição.

R7 – Acha que esse time é mais preparado que o de 2012?

Paulo André – Acho que sim. É um time que venceu o Campeonato Brasileiro, que já conhece os atalhos e as dificuldades. Tem um elenco muito forte, uma reposição de jogadores muito boa. E o Tite tem um esquema padrão que não mexe há quase um ano. Então quem entra consegue jogar bem.

R7- Podemos esperar mais um livro seu em breve?

Paulo André – Eu tenho alguma coisa escrita que eu fico brincando. Mas a princípio não tem nada. O meu livro tinha mais parte sobre direitos de atletas, leis. Mas como eu não me aprofundei muito, acabei tirando. Então eu já tenho um material encaminhado, mas precisa de muito estudo e ideias novas para chegar a publicar outro livro. A única coisa que posso dizer é que não vou parar de escrever.

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments