Publicado originalmente no Marimoon

Hoje é dia de entrevista com a muito querida Clarissa Corrêa. Ela tem dois livros publicados e uma coluna no site da Revista Tpm. Um dia desses caí de paraquedas no blog dessa gaúcha e pirei nos textos dela. Eles prendem a tua atenção do começo ao fim. Ela fala aquilo que sempre pensei sobre a vida de uma maneira divertidíssima e ao mesmo tempo muito intensa. Será rolou uma identificação porque somos duas librianas?

MM: Clarissa, como que você se tornou escritora? Rolou uma paixão desde quando aprendeu a escrever ou vc pegou o gosto pela coisa em alguma época específica da sua vida?
Desde pequena gosto de causar emoção nas pessoas. Riso, choro, identificação, qualquer coisa. Lembro que eu escrevia longas cartas para meus pais, entregava para eles e ficava cuidando pra ver se caía alguma lágrima. Acho que foi aí que comecei a escrever. Depois, escrevia em cadernos, mas nunca mostrava pra ninguém. Foi em 2005 que aconteceu a grande virada: depois de uma decepção amorosa, decidi criar um blog.

MM: Você ia bem nas aulas de redação?
Na escola, minhas matérias preferidas eram artes, biologia e português. E toda vez que fiz vestibular ia muito bem nas redações. Fiz vestibular pra Turismo (só pra testar, mas acabei passando), Direito (fiz 3 anos) e Psicologia (cursei 4 anos, quase me formei). Mas acabei me formando em outro curso: Formação de Escritores e Agentes Literários, na Unisinos.

MM: Sempre teve esse seu jeito particular e divertido de escrever? Fala da
mesma maneira que se expressa nos textos?
Acho que cada escritor tem seu estilo de texto. A gente só descobre o próprio jeito, só se reconhece escrevendo. Misturo graça e romance nos meus textos. Sou uma pessoa bem sensível. E dizem que sou engraçada. Acho que falo do mesmo jeito, sim.

MM: Você é redatora publicitária… e escritora, claro! No seu site você
diz que “escreve crônicas, contos, receitas, bilhetes, cartas, cartões, títulos, textos e, se bobear, até bula de remédio”. Uma escritora pode atuar em quais áreas? Quais delas você já explorou?
Bem, eu trabalho com propaganda. O texto publicitário é bem diferente do literário. A criação é diferente, a base é diferente. Na propaganda, um redator faz anúncio, folder, jingle, spot, texto pra rádio, texto pra site, outdoor e mais mil coisas. Como escritora, dá pra fazer geração de conteúdo. Dá pra escrever texto para outras pessoas. Quer um exemplo? Me procuram muito pra escrever homenagens, votos de casamento, texto pra noivo, marido, carta de amor, coisas assim. Acho um barato. Adoro fazer.

MM: É difícil a vida de uma escritora? Qual a parte mais complicada e qual
a mais gostosa?
Não é mole, não. A parte complicada é que editoras grandes não investem em autores pequenos. Querem investir no Paulo Coelho, no Carpinejar, nesses caras mega reconhecidos. A parte complicada é que você vê texto teu rolando pela internet com o nome do Caio F. Abreu, Clarice Lispector, Cazuza e outros. As pessoas têm preguiça de procurar quem é o autor de determinado texto. Muita gente acha um texto bacana, copia e cola e esquece de colocar os créditos. Então vejo texto meu e de outros autores rolando por aí sem dono ou com nome de autor errado. Dá uma tristeza, sabe? Porque a gente rala, nada cai do céu. Escrever é disciplina, não é inspiração pura e sem gelo. A gente senta a bunda na cadeira, briga com a página em branco, sua pra fazer um trabalho bacana e não é valorizado. Mas eu não desisto. A parte mais gostosa é receber o carinho dos leitores. Emails queridos, mensagens, presentes. É muito bom ver que tu muda o dia de alguém. É maravilhoso tu saber que alguém se identifica, que aquilo que tu escreveu ajudou uma pessoa. Isso faz tudo valer a pena. Mesmo.

MM: Conta um pouquinho sobre os seus livros “Um Pouco do Resto” e “O amor
é poá”. (Eu li o primeiro e amei!)
“Um Pouco do Resto” foi lançado em 2010. Me deu um frio na barriga imenso. É um livro de crônicas bem feminino, leve, divertido. Meu primeiro filho. O “amor é poá” é um livrinho de bolsa, de frases. Dá pra deixar ao lado da cama, na mesa de trabalho, em qualquer lugar. Antes de lançar “Um Pouco do Resto”, fiz um twitter de frases pra divulgar o livro. Depois, passei a usar aquele twitter só pra postar frases que eu criava na hora. Então, surgiu a ideia de pegar esse bando de frases e fazer um livro. Assim nasceu “O amor é poá”. Todo mundo adora. Este ano, lanço meu terceiro livro. É de crônicas também. Um projeto lindo e especial. É surpresa!

MM: Quão difícil é lançar um livro no Brasil?
Depende do caminho que você segue. Se você quer pagar a publicação é bem fácil. Procure uma editora que trabalhe dessa forma, pague e eles fazem. Também dá pra lançar através de alguma lei de incentivo à cultura. Buscar patrocínio. Ou fazer o método que eu fiz: bater de porta em porta e oferecer teu original. É um caminho difícil, você leva muitos nãos, quase desiste. Mas uma hora vai. Agora tenho contrato com uma editora! É a Gutenberg, do grupo Autêntica. Tô bem feliz!

MM: Queria que você comentasse a questão da falta de leitura….
O pessoal lê muito pouco no Brasil. Os livros são caros e hoje em dia a internet tomou conta de tudo. Tem gente que prefere ler um livro na internet do que ir até uma livraria. Gosto do cheiro do papel, de segurar um livro nas mãos, entende? Na escola, a lista de livros obrigatórios é meio chata. Isso faz com que os jovens associem leitura a uma coisa ruim. Assim eles perdem totalmente a vontade de ler. Acho que as crianças devem ser estimuladas desde cedo. Livros coloridos, cheios de imagens. Os adolescentes precisam ler, pois a leitura amplia muito o vocabulário.

MM: Alguém que não tem paciência para ler deve tentar reverter a situação
de que maneira?
Penso assim: é melhor ler qualquer coisa do que nada. Não tem paciência de ler um livro grande? Leia um livro pequeno. Leia um blog. Leia esses textos que o povo envia por email. Leia matéria de revista. Leia o jornal. Leia até mesmo o horóscopo, mas leia!

MM: Se puder mandar um recado para os jovens que sonham com a carreira de
escritor, acho que seria bem legal!
Não desistam no primeiro não, na primeira porta fechada. Não desistam se não tiverem o apoio de amigos e familiares. Se a gente tem um sonho tem que ir atrás. Mesmo que o caminho seja meio torto. E quem quer escrever tem que ler. Ler muito!

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