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Rodrigo Santoro interpreta um travesti no filme “Carandiru”

Sérgio Rodrigues, na Veja on-line

Conhecer um pouco do trabalho do linguista belga Henri Van Hoof é o melhor remédio que conheço – amargo, mas poderoso – para quem, no constrangedor episódio da tentativa de censurar o dicionário Houaiss por causa da acepção pejorativa de “cigano”, ficou a favor do procurador da República e contra o bom senso.

Num ensaio de 1999 inédito em português, cujo título traduzido seria “Nomes de países, povos e regiões na linguagem figurada”, Van Hoof registra um verbete surpreendente: brésilienne (isto é, “brasileira”) como uma gíria que significa “travesti”.

Espera aí: quer dizer que esse linguistazinho obscuro está determinado a ofender todo um país, como se fosse uma espécie de Jérôme Valcke com doutorado?

É claro que não: o cara só está fazendo o seu trabalho. No caso, registrar acepções históricas ligadas a topônimos e gentílicos no idioma francês. Seu brésilienne/travesti traz a data de 1884 e tudo indica ter caído em desuso, embora não se possa dizer o mesmo da tradição brasileira de exportar travestis para a Europa.

Se a data é surpreendente – por ser anterior até ao desembarque da palavra travesti em nossa língua, vinda justamente do francês, já no século 20 –, só um desinformado ou um hipócrita profissional diria que existe gratuidade na gíria desenterrada por Van Hoof.

Palavras têm história. Sendo uma história escrita por seres humanos, é natural que nem sempre seja bonita. Mas tentar passar uma borracha em suas vilezas é tão inteligente e eficaz quanto matar os portadores de más notícias.

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