Publicado originalmente no Zero Hora

Em nova parceria com o governo, entidade leva acervos a penitenciárias e centros de recuperação

Coautor de um latrocínio, interno da Fase que abandonou a escola na 7ª série descobre “O Pequeno Príncipe”, clássico de Saint-Exupéry / Foto: Jean Schwarz / Agencia RBS

Encerrada a consulta com a assistente social, o garoto saiu carregando uma dúvida improvável. Estava diretamente relacionada à rotina que já somava 13 meses de confinamento e às intempéries familiares que continuavam surgindo em casa, num bairro da periferia de Porto Alegre, apesar de sua ausência.

— O que que é “cativar”? — perguntou ele a uma funcionária do Centro de Atendimento Socioeducativo POA 1 da Fundação de Atendimento Socioeducativo (Fase), na Vila Cruzeiro, na Capital.

Maria Regina Abbud Dorneles, agente socioeducativo há 21 anos na instituição, acostumada com a clientela de lares desfeitos e ingresso precoce na vida criminosa, descartou imediatamente a resposta mais fácil.

Embalada por um afeto singular que desenvolveu pelo menino – acha-o muito parecido com o neto de cinco anos, e acostumou-se a mostrar fotos de um para o outro —, prometeu emprestar-lhe um livro com a mais precisa descrição que conhecia da palavra.

— “És eternamente responsável por aquilo que cativas” — recitou a fã de O Pequeno Príncipe.

— Te trago amanhã — garantiu Maria Regina ao interno, usuário de maconha e cocaína que abandonou a escola na 7ª série do Ensino Fundamental, envolveu-se em assaltos, chegou à entidade depois de participar de um latrocínio (roubo com morte) e jamais ouvira falar de um dos maiores clássicos da literatura infantil.

Multiplicadores como Maria Regina são essenciais para a efetividade de um dos mais recentes projetos do Banco de Livros do Estado. Para atrair um público geralmente alheio ao universo da literatura, que em boa parte das vezes jamais viveu a experiência de se envolver com uma história escrita, vem espalhando bibliotecas por instituições prisionais e centros de recuperação de crianças e adolescentes como a Fase.

Até o final do ano, em parcerias firmadas com a Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe) e com a Secretaria da Justiça e dos Direitos Humanos do Estado, a meta é inaugurar ou recuperar espaços exclusivos para o empréstimo de títulos nas 97 casas prisionais do Rio Grande do Sul.

Elas buscam a superação

A lista com o registro dos livros emprestados nos primeiros dias, ao lado do nome, da cela e da galeria de cada detenta, ilustra bem o que buscam as leitoras da Penitenciária Feminina de Guaíba, a primeira a receber um acervo do Banco de Livros.

O Silêncio dos Amantes, Agora Estou Sozinha, Nunca É Tarde Demais, Otimismo em Gotas representam o que ficou do lado de fora ou o que se tentará resgatar depois de cumprido o período de detenção — os casos, na maior parte, são relacionados a envolvimento com tráfico de drogas.

— Pedro e Janaína se conheceram numa ilha e estão agora em “loves”, mas os pais não querem que eles fiquem juntos. Uma família é contra a outra — explica Simone, 25 anos, sobre um dos títulos da série Bianca.

— O amor une, não tem. O amor é inexplicável.

Simone, detida por assalto e na expectativa da progressão da pena para o regime semiaberto, encontrou na tarefa de voluntária da biblioteca o que buscou na maior parte dos cinco anos de encarceramento: uma distração para o tempo ocioso, apesar de se ocupar com tarefas do dia a dia na penitenciária.

— A ociosidade, a cabeça vazia, é um dos maiores problemas. A leitura é uma distração e pode, pelo menos, despertar a curiosidade — afirma a psiquiatra Thaís Ferla Guilhermano, que desenvolveu sua dissertação de mestrado em Ciências Criminais acompanhando detentas do Madre Pelletier, na Capital.

Para Viver sem Sofrer, de Luis Antonio Gasparetto, foi suficientemente marcante para que Simone acredite que o hábito da leitura vai transpor os limites da penitenciária.

— Tive muitas perdas: mãe, pai, irmão, vô, vó. Me sinto muito sozinha. O livro me ensinou a ter mais cuidado com quem a gente convive. Tem que olhar para a frente, mas é difícil. Atrás dessas portas, a realidade é muito dolorosa.

Diretora do Departamento de Tratamento Penal da Susepe, a psicóloga Ivarlete de França destaca que, para o dependente químico, a oferta de atividades é ainda mais importante.

— A ociosidade e o cerceamento da liberdade contribuem para que ele desenvolva outros vícios. A droga ocupa um lugar na vida da pessoa. Temos que oferecer outros interesses — explica Ivarlete.

 

dica do Jarbas Aragão

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