Endereço tem um dos mais famosos mercados de livros do mundo árabe. Fundada em 1932, a rua Mutanabi ‘sobreviveu’ a um atentado em 2007.

Publicado no G1

A rua Mutanabi em Bagdá, com seus cafés e um mercado de livros, um dos mais famosos do mundo árabe, é considerada um refúgio para os amantes da literatura, que encontram lá um alívio para seus sofrimentos, como os atentados e as preocupações do dia a dia.

Às sextas-feiras, esta pequena rua de pedestres da velha Bagdá cria alma nova, quando os donos de sebos organizam seus últimos achados nos balcões. Tentam atrair a atenção dos passantes declamando versos de Al-Mutanabi, um conhecido poeta árabe do século X, que parece zelar pelos presentes do alto de sua estátua.

Registro da rua Mutanabi, na região central de Bagdá, feito em outubro de 2010.  Endereço tem cafés e comércio de livros de segunda mão (Foto: Ahmad Al-Rubaye/AFP)Registro da rua Mutanabi, na região central de Bagdá, feito em outubro de 2010. Endereço tem cafés e comércio de livros de segunda mão (Foto: Ahmad Al-Rubaye/AFP)

Outros frequentadores – exclusivamente homens – saboreiam tranquilamente chá com limão ou fumam voluptuosamente o narguilé, no café Shabandar, um dos mais renomados da cidade.

Esta rua de Bagdá não foi poupada dos atentados, e dezenas de pessoas perderam a vida aí. Mas os visitantes estão decididos a não se deixar impressionar.

“Faz 30 anos que venho aqui”, conta Kamil Abdulrahim al-Saadawi, um negociante de 59 anos. “Acordo às sextas-feiras dizendo que não vou voltar. Mas a rua Mutanabi é como a mulher amada, nos seduz”.

A rua Mutanabi foi inaugurada em 1932 pelo rei Fayçal I, em homenagem ao célebre poeta Aboul Ta¯eb al-Mutanabi (915-965), nascido no que é hoje o Iraque.

Com menos de um quilômetro, a rua está situada entre o rio Tigre, sobre o qual está o monumento em homenagem ao poeta, e uma estrutura em forma de arco, decorada com uma de suas citações.

“A rua Mutanabi nada tem a ver com a realidade do Iraque; é uma ilha à parte”, destaca al-Saadawi. “Enquanto do lado de fora somos confrontados com a violência e a imbecilidade dos políticos – a nossa realidade -, aqui encontramos o Iraque de nossos sonhos”, acrescenta.

Um Iraque de sonhos
Este Iraque sonhado não pôde fugir da trágica realidade, como no dia 5 de março de 2007, quando um terrorista suicida explodiu um caminhão na rua, matando 30 pessoas e ferindo 60.

A potência da detonação também destruiu as lojas históricas do local, entre elas o café Shabandar. Os cinco filhos do proprietário foram mortos no atentado. Sua mãe, que ficou cega, por causa do choque, morreu meses mais tarde.

Iraquianos seguram um cartaz, em 5 de março de 2012, mostrando fotos das vítimas do atentado ocorrido há exatos cinco anos na rua Mutabani (Foto: Ali Al Saad/AFP)Iraquianos seguram um cartaz, em 5 de março de 2012, mostrando fotos das vítimas do atentado ocorrido há exatos cinco anos na rua Mutabani (Foto: Ali Al Saad/AFP)

“A explosão é a lembrança mais dolorosa que temos desta rua”, suspira Abu Rabea, proprietário de uma livraria há quase 40 anos.

“Viajei a Najaf [centro do Iraque] e, quando cheguei, as pessoas me relataram a enorme deflagração”, conta. “Meus amigos partiram, perdi muito, a vida não é mais a mesma”, acrescenta, com a mão na fronte, os olhos úmidos.

Uma homenagem aos mortos na tragédia foi realizada na rua, para marcar os cinco anos do episódio, com as fotos das vítimas.

A rua Mutanabi só foi reencontrar um ar de normalidade em 2008, mas o café, fundado em 1917 como editora, só foi reabrir em fevereiro de 2009.

Às sextas-feiras, no entanto, inúmeras pessoas parecem ter um encontro marcado. “O que nos faz feliz aqui é a ausência da intolerância e do ódio”, define Jamal Saya, que administra, há 25 anos, uma livraria especializada em obras jurídicas. “Mutanabi é o que há de melhor na cultura deste país”, segundo ele.

Os frequentadores observam, no entanto, que os anos movimentados pelos quais passou o Iraque influenciaram, grandemente, a oferta de livros disponíveis. Antes da invasão americana de 2003, a maioria dos textos era em árabe, com um grande número deles dedicados à glória do ditador deposto Saddam Hussein.

Hoje, a escolha é mais abundante, com livros em línguas estrangeiras e outros objetos como os de papelaria, além dos CDs e os mapas geográficos.

 

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