Publicado por Estadão

Ficcionistas do País, de diferentes gerações, têm visões opostas sobre o diagnóstico e a cura para a fuga das palavras

Há controvérsia entre os escritores brasileiros quando o assunto é bloqueio criativo. Lygia Fagundes Telles, por exemplo, diz que nunca passou por isso. “Quando pego um trabalho fico muito apaixonada e possuída, e a coisa vai se desenrolando misteriosamente sem interrupção.” Ela acredita em inspiração, e conta que sempre conversava sobre isso com Clarice Lispector, que compartilhava da mesma crença. “A ideia vem, você fica tomada pelo conto ou pelo romance e aí vai, como se montada num cavalo, até o final. Isso é muito gostoso, é como um jogo secreto”, diz.

O escritor Paulo Lins / Foto: Ernesto Rodrigues/AE

Jornalista e escritor, Ivan Angelo também não sofre do mal. “Bloqueio pressupõe um pouco inspiração e não acredito em inspiração.” Para ele, trabalho diário, treino e uma boa preparação tornam mais tranquilo o processo de escrita de um livro. “Só tem esses bloqueios quem se impõe a obrigação de fazer a coisa. Não tenho prazos a cumprir e por isso não sou pressionado por agentes externos. Às vezes pode acontecer de você simplesmente ver que não está achando legal escrever, que não está na hora. Mas não é que você bloqueou, só guardou para depois.”

Sérgio Sant’Anna considera esses momentos normais na vida de um escritor, embora para ele o branco venha numa hora atípica – quando coloca o ponto final no texto. “Agora mesmo, por coincidência, terminei um livro, entreguei para a editora, que já aprovou o lançamento para outubro, revisei a prova no último fim de semana e fico me perguntando o que vou fazer da minha vida. Apesar de ser tudo muito recente, está faltando um pouco de inspiração.” O livro a que se refere é o Páginas Sem Glória, com duas novelas e um conto, que será editado pela Companhia das Letras.

Quem já passou por maus bocados com a página em branco foi Ignácio de Loyola Brandão. “Durante o Não Verás País Nenhum chegou uma hora em que eu não sabia para onde ir, se terminava tragicamente ou dava um happy end.” Na verdade, Loyola tinha planejado um final quando começou a obra, mas a condução do texto mudou de direção e o desfecho imaginado já não fazia sentido. “Fiquei uns três meses parado. No princípio, fiquei muito desconcertado. Depois falei: ou relaxo, paro e não acabo esse livro ou fico louco.” Foi olhando para uma parede de pedra que encontrou no meio do caminho, de onde brotava uma planta, que encontrou o final tão procurado. Nos últimos anos da década de 80, pensando que já não tinha mais o que dizer, resolveu abandonar a literatura. E nenhuma linha de ficção foi escrita durante dois anos. “Mas acho que era mais uma depressão, porque uma hora a coisa reanimou.”

Um dos desbloqueios mais aguardados dos últimos tempos foi o do escritor Paulo Lins. “Quando a gente lança um livro de estreia, faz para aquele povo de congresso e de universidade. O Cidade de Deus foi muito maior do que eu imaginava. Então, se eu disser que não pensei que queria que acontecesse o mesmo com o outro livro é mentira porque eu pensei nisso sim”, conta, às vésperas, enfim, do lançamento de Desde Que o Samba É Samba, previsto pela Planeta para o começo de abril. Foram três ou quatro anos com o livro parado, comenta. “Agora, reescrevi quase ele todo. Imprimi, li e cortei umas 50 páginas.” Lins está escrevendo o romance e a minissérie Suburbia com Luiz Fernando Carvalho. “A ideia foi dele. Primeiro escrevemos a sinopse, que é praticamente o livro. Escrever em dupla é mais prazeroso e rápido. Foi um desbloqueio fenomenal.”

Se uma sinopse foi responsável para que o terceiro livro de Paulo Lins não seguisse os passos do segundo, no caso de Lourenço Mutarelli ela foi a culpada por dois grandes bloqueios – uma peça e um romance, duas encomendas ainda não entregues. No caso do livro que tem de fazer para a coleção Amores Expressos, a situação foi mais delicada, mas há esperanças. Ele foi a Nova York e tinha de voltar com uma história de amor. Começou a escrever e travou por um ano. Terminou, mas a editora não gostou. Ele então mexeu no enredo, e dessa vez foi ele quem não gostou. “Mas como está previsto para este ano, vou reescrever de novo. O importante foi que identifiquei o motivo do bloqueio: era uma encomenda e eu tive de entregar uma sinopse com começo, meio e fim. É muito chato escrever uma coisa que eu já escrevi.”

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