Millôr, José Antônio Pinheiro Machado e Jorge Polydoro durante a entrevista, em 1981. L&PM: Arquivo pessoal

Publicado por Mundo Livro

“O Estado está fracassado definitivamente. O Estado não existe, o Estado já fodeu com 70% da humanidade. Nós temos hoje, em números absolutos e relativos, você sabe disso, mais miseráveis do que em todos os tempos. Claro, se fosse só em números absolutos você diria: ‘Claro, em Roma tinha 10 mil miseráveis, hoje tem 100 mil'”. Mas em números relativos também, se o mundo tinha 50% de miseráveis, hoje tem 90%. Então vamos esquecer o Estado e vamos entrar na metafísica, a possibilidade de um indivíduo atravessar a vida, o span of lif, o período que lhe foi dado a viver, que hoje no Brasil é 61 anos, em Roma é 82. Entrando nos fatores ocasionais considero que eu devo já ter terminado, como brasileiro, a minha média de vida; posso viver mais cinco anos, ou mais 10, ou mais 20, mas já estou no lucro. Enquanto eu vivo eu tenho também uma glândula que me faz feliz, uma glândula otimista! Não foi a sociedade que me deu isso! Quando eu acordo e vejo aquele puta céu de Ipanema e eu corro na praia, isto me faz extremamente feliz. Por exemplo, o meu trabalho: agora eu estou traduzindo o Rei Lear. De repente eu comecei a me chatear com o negócio e tal, mas também descobri a Aventura, que não tem nada a ver com o negócio; eu mergulhei no século XVI e concluí que só eu no mundo, ou pelo menos no Brasil, estou fazendo isso. A gente começa a entrar naquele negócio de descobrir as palavras, o significado, o que é que elas queriam dizer há 400 anos, aquelas coisas todas. Então a pessoa que tem este temperamento, que é capaz de correr na praia, de gostar, de gostar intensamente, veja bem, não é só sexual, não, de gosta intensamente da sua relação com mulher, bom essa pessoas está noutra. (Se as feministas soubesse como eu gosto de mulher totalmente, elas viriam aprender comigo.) De gostar da minha relação puramente dinâmica. Olha eu aqui, eu estava dizendo aqui no começo da noite, quando alguém perguntou onde nós íamos, eu falei, ‘olha, não vamos sair daqui, não. Vamos ficar conversando aqui, e se de repente não tiver mais ninguém pra conversar, eu fico conversando com a cozinheira até as 4 horas da manhã, para mim está sempre tudo muito bem’. E, se você tem esta possibilidade de vida, você não pode ser senão otimista em relação à vida. Mas esta posição, este sentimento, tem muito menos a ver com a sociedade em que eu vivo do que com a metafísica que me dirige.”

O depoimento acima, que resume a postura ávida de Millôr pela vida que ele teve de deixar provavelmente a contragosto hoje, está em um dos últimos livros sobre o autor lançados recentemente. No primeiro trimestre de 2011, a L&PM lançou Millôr Fernandes: A Entrevista (L&PM 104 páginas, R$ 22.), reedição em livro de uma extensa conversa entre o gênio Millôr e os então jovens homens de imprensa Ivan e José Antônio Pinheiro Machado, Paulo Lima, José Onofre e Jorge Polydoro. Os três primeiros seriam fundamentais para a criação da L&PM. José Onofre e Polydoro tornaram-se nomes referenciais do jornalismo do Estado.

Na entrevista, Millôr fala sobre sua trajetória, sobre a política e o cenário de um Brasil numa era pré- internet e até pré- democracia, uma vez que ainda vigorava a ditadura militar no país. A conversa de Millôr com o quinteto foi realizada em uma noite de 1981, durou sete horas e foi publicada na revista Oitenta, publicação cultural da própria L&PM que marcou época em Porto Alegre lançando ficção inédita, resenhas, entrevistas de grandes autores. Lembro que era uma das coisas que representava um oásis na bibllioteca da Fabico, em 1992, entre as milhares de obras sobre Teoria da Comunicação que encontrei por lá quando mudeu para Porto Alegre para estudar jornalismo. Na mesma época, fui a uma palestra de Millôr no centro municipal de cultura e muito do que vi e ouvi aquela noite me marcou para sempre. Tanto que estou até agora tentando organizar o que representa, para mim, a morte desse homem que li e admirei por boa parte da vida. É mais fácil especular o que a morte dele representa para o Brasil: um desastre e uma falta, imensa.

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