Publicado por Folha.com

Editoras desmembram o livro para vendê-lo em textos curtos, na forma digital e em papel

Antes que o livro morra, como os apocalípticos apostam que ocorrerá, o mercado editorial resolveu fazer picadinho dele. Há picadinho de papel e picadinho digital, ambos a preços camaradas.

No rastro de uma tendência iniciada no exterior, editoras brasileiras começam a desmembrar títulos e vender apenas um conto, um ensaio ou outras narrativas curtas.

Sim, você já viu esse filme, quando, há quase uma década, a indústria fonográfica passou a oferecer faixas separadas de seus álbuns.

O princípio dos editores é quase o mesmo -os arquivos digitais dos e-book também agilizam o processo industrial de produção-, mas no mundo livreiro a ideia foi transposta ao formato físico.

Pelo menos duas grandes editoras, L&PM e Companhia das Letras, lançaram, em papel, coleções de narrativas breves, em geral retiradas de títulos de seus catálogos.

BOLSINHO

Referência no segmento de livros de bolso no país, a L&PM planejou originalmente lançar seus “de bolsinho” somente no formato digital.

“Mas como o [livro] digital ainda não existe no Brasil, adaptamos a ideia. Seria uma pena desperdiçá-la com um formato que ainda não aconteceu”, afirma o editor Ivan Pinheiro Machado.

O slogan publicitário da coleção 64 páginas, da editora gaúcha, não poderia ser mais direto: “Do tamanho do seu tempo. E do seu bolso”.

Os títulos, como o nome diz, têm todos 64 páginas e são vendidos a R$ 5 em papel e R$ 3 em e-book.

Machado observa que, além de guardar um componente psicológico (“o cara gosta da sensação de que leu um livro, mesmo curtinho”), o modelo serve como degustação para a obra de autores.

Por enquanto, conta o editor, os livrinhos físicos vendem muito mais que os e-books, “coisa de 20 por um”.

A mobilidade dos tablets e smartphones, por outro lado, é uma aposta de que a nova tendência turbine o mercado de livros eletrônicos.

“O cara está no ônibus e compra um micro e-book pelo celular, para ler durante a viagem”, ilustra Kim Doria, responsável pela área digital da Boitempo, editora que reduziu o preço de seus e-books (leia abaixo) e estuda vender artigos isolados da revista “Margem Esquerda”.

A praticidade das plataformas móveis também é apontada como um trunfo por Fabio Uehara, que cuida dos projetos digitais da Penguin-Companhia das Letras.

Em abril, a editora começa a vender, por R$ 7,50, e-books da coleção Grandes Ideias, de ensaios consagrados.

Textos curtos são ainda o foco do projeto digital da editora Objetiva, em fase de implantação, coordenado pelo jornalista Arthur Dapieve. Ele conta que os e-books terão em torno de 30 mil palavras, ou cerca de 50 páginas de um livro tradicional.

“Textos desse tamanho são curtos demais para serem publicados em livro e muito grandes para serem publicados em jornal. Há aí uma lacuna, que pretendemos preencher”, relata Dapieve.

Uma das pioneiras do modelo no país foi a editora 34, que, no fim do ano passado, vendeu, de modo experimental e em arquivo digital, contos separados de sua “Antologia do Conto Russo”, de R$ 0,99 a R$ 2,99.

“Temos de explorar as possibilidades do digital, fazer diferente do impresso. Seria impossível vender só um conto no papel”, diz o diretor editorial da 34, Paulo Malta.

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