Publicado por Folha.com

Veterano na arte das tiras, Mort Walker, pai do ‘Recruta Zero’, comemora a longevidade de sua obra

Mort Walker, 88, em seu estúdio, em Stanford, nos Estados Unidos (Associated Press/Craig Ruttle)

O ano é 1950. Os EUA lutam, na Coreia, uma de suas tantas guerras do século 20.

O serviço militar é obrigatório, e as agruras vividas por jovens recrutas em um quartel militar são familiares à sociedade norte-americana.

Cotidiano, o assunto transborda para as páginas dos jornais, inspirando o artista americano Mort Walker, 88, a criar as tirinhas de “Recruta Zero”.

De lá até aqui, passaram-se mais de seis décadas. O alistamento deixou de ser compulsório nos Estados Unidos. Mas “Recruta Zero” continua a ser publicado diariamente em todo o mundo.

No Brasil, a editora Pixel lançou, em março, revista mensal compilando tirinhas de Zero (64 págs., R$ 4,50).

De acordo com pesquisa da Escola Superior de Administração, Marketing e Comunicação, 40% dos leitores de HQs preferem histórias e personagens antigos.

Walker comemora essa longevidade. “Apesar de o negócio das tirinhas estar sofrendo, eu sobrevivo”, disse à Folha o criador do personagem clássico.

“Não perdi espaço em tantos jornais, e minha renda é a mesma de um ou dois anos atrás. Sou muito grato por ter sido poupado. E me esforço para manter a qualidade para que eu seja um dos últimos a cair.”

Walker não tem certeza dos motivos que fizeram seus personagens persistirem enquanto outros tantos mergulham no anonimato e na indiferença dos leitores.

“As tirinhas [de ‘Recruta Zero’] vão continuar quando as guerras terminarem?”, questiona-se. “Acho que sempre teremos um Exército, e sempre haverá um quartel para treinar novos soldados.”

Além disso, “tantos caras que são hoje civis gostam de lembrar dos dias em que serviram no Exército”.

A nostalgia parece ser, de fato, um fator para a sobrevivência de tirinhas clássicas, caso de “Recruta Zero”.

“Parece que os leitores ainda gostam da minha tirinha em 52 países, então tento não me preocupar demais com isso”, disfarça Walker.

A ascensão de outras modalidades de histórias em quadrinhos, como as “graphic novels”, também não foi motivo de ameaça para o artista.

Mort Walker é um homem de tirinhas de jornal, e não de revistinhas.

“Nos Estados Unidos, as HQs são voltadas a crianças e colecionadores. Conheço poucas pessoas que leem gibis.”

Sobre o potencial do formato digital (“Imagino que você queira dizer ‘a internet'”, checa o artista, incerto), Walker se mostra um tanto reticente.

“Minha audiência aumentou, mas o dinheiro, não”, diz.

AMIGÃO

No gibi de “Recruta Zero”, Walker vai dividir o “mix” -conjunto de histórias que compõem uma revistinha- com “Hagar, o Horrível”, criação de seu colega Dik Browne.

Eles fizeram juntos a tirinha “Zezé & Cia”, que também está no gibi compilado.

Mas Walker não se derrete em elogios pelo artista. Ele conta ter procurado Browne para ilustrar o projeto, e “ele desenhou algumas das minhas ideias, mas não gostei”, afirma.

“Então escolhi o estilo de traço de que eu gostava mais, e ele passou a desenhar as tirinhas assim.”

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