Publicado por UNISINOS

Martin Angioni, chefe do gigante negócio na Itália e que deverá estar presente no Salão de Turim, explica como o conceito de texto e de livro irá mudar. “Hoje, você lê uma resenha e com um clique pode comprar essa obra”. “Se você pode publicar 30 páginas a 99 centavos, é evidente que um paradigma mudou”.

A reportagem é de Jaime D’Alessandro, publicada no jornal La Repubblica, 07-04-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Ele chama de “tsunami”, sem meios termos. Eis o que há no futuro da editoração italiana segundo Martin Angioni, chefe da filial da Amazon na Itália. Nascido em 1967, com um passado antes no banco de investimentos JP Morgan entre Berlim, Londres e Nova York, depois como CEO da editora Electa di Mondadori, Angioni usa tons pacatos para transmitir conteúdos explosivos.

Começando por aquilo que acontece hoje no mundo dos livros, exatamente enquanto boatos de corredor dão por certa a presença da Amazon no Salão de Turim, e enquanto chega às lojas o Kindle Touch, o leitor de e-books com tela tátil da multinacional de Jeff Bezos.

“A onda anômala – explica – é um processo inevitável que, em dois ou três anos, vai mudar completamente o rosto da editoração. Isso não se refere ao tipo de leitor, que no fim é sempre o mesmo, mas sim a própria ideia de livro. E é uma mudança contra a qual muito pouco pode ser feito”.

Eis a entrevista.

Tudo por culpa ou por mérito do e-book?

Nos EUA, para as grandes editoras, os livros digitais já valem 20% do faturamento. Na Inglaterra, estamos em 10%. E os números tendem a duplicar ano após ano. Em 2010 e 2011, houve uma aceleração. Um e-book, além disso, custa entre 30% e 50% menos do que a cópia de papel. Em certos âmbitos, penso na ensaística, chega-se a 70% menos. E depois se chega à livraria 24 horas por dia. Você lê uma resenha e compra o livro. Também é possível baixar um trecho gratuitamente, 10% de um volume, ou emprestá-lo a um amigo. Não há jogo.

Isso me lembra o iTunes. E talvez algumas editoras não estão contentes em ter o mesmo fim das gravadoras.

Respondo-lhe partindo da definição de livro da Unesco: “Não é serial, no sentido de que não é um periódico como uma revista ou um jornal, e é mais longo do que 50 páginas”. O Kindle Single, a possibilidade de publicar breves ensaios ou contos a preços de pechincha está subvertendo o paradigma. Portanto, o que é o livro hoje? Um recipiente que não condiciona mais o conteúdo. É possível publicar 30 páginas a 99 centavos, e pode-se fazer isso serialmente. Como no caso de John Locke, o primeiro autor a se autopublicar que superou um milhão de cópias.

Isso também acontece no mundo das lojas de aplicativos, às quais as pessoas propõem suas próprias criações. Mas, depois, quem realmente ganha dinheiro, salvo exceções, são apenas a Apple e o Google. A primeira vendendo tabletes e smartphones, o segundo com o mercado publicitário. O ganho médio por aplicativo individual pago supera 300 dólares. Coisa de pouco valor. Isso também acontece no Kindle?

Na editoração tradicional, é a mesma coisa. Só 5% dos livros publicados vende.

Você está dizendo que, em todo caso, não há escolha?

O futuro já está aqui. Ou decidimos fazer parte ou ficamos de fora. Não há alternativas aos e-books. Além disso, como fazemos para vender livros a 20 euros quando há uma crise desse nível? E não é coincidência que o colapso maior encontra-se nos livros de arte, os mais caros. Sem falar dos catálogos das exposições. Antes, vendia-se um a cada 15 visitantes. Hoje, um a cada 50.

A propósito da crise: os dados recentes da Nielsen sobre o declínio dos leitores também são um sinal para vocês.

Os leitores fortes, aqueles que compram de 9 a mais de 12 livros por ano, caíram entre janeiro e fevereiro em 720 mil unidades. Mas olhando para os dados da Nielsen com relação a 2011 descobrimos que eles ainda são 6,3 milhões. Eu abriria uma garrafa de champanhe. Durante anos, dizia-se que eram apenas cinco milhões.

E vocês abriram a garrafa de champanhe? Na França, os editores levantaram barricadas contra a Amazon. Na Itália, eles lhe deram todo o catálogo de e-books sem pestanejar.

Na França, eles têm 15 mil livrarias independentes. Entre nós [italianos], são apenas 1.200. Em Paris e arredores, o mercado dos livros vale três vezes mais do que o italiano e há um governo com uma verdadeira política cultural.

Mas aqui há um ministro como Profumo que defende a ideia da digitalização dos livros didáticos, enquanto na França Frédéric Mitterrand fustiga os gigantes do hi-tech apoiado por figuras como Teresa Cremisi, chefe da editora Flammarion.

É o belo e o feio da Itália, um país muito “desregulado”. A defesa francesa das livrarias é a defesa ideológica de um sistema. Mitterrand pediu expressamente que os editores não negociem individualmente conosco, com Apple e com o Google, mas que expressem uma posição comum. Muitas editorias italianas, ao contrário, veem uma oportunidade no digital, olham para a frente. Mas estão divididos. A editora Messaggerie é favorável à lei Levi que bloqueia os descontos em 15%. As outras, não. A editora Mondadori, por exemplo, culpa essa mesma lei pela recente queda de leitores, porque impede as promoções.

E o que você acha?

É uma questão cultural. Há vantagens e desvantagens tanto no modelo anglo-saxão, sem preços fixos e sem regras, quanto no europeu, que prevê ambas as coisas. Acredito que a lei Levi não ajuda, mesmo que ela não também não seja a principal causa do declínio de leitores.

O tsunami indica que a Amazon Itália irá fazer as vezes de editora, como faz nos EUA?

Temos sete marcas editoriais, mas só nos EUA. Na maior parte dos casos, tratamos de livros que não existem em inglês. Apenas 3% dos volumes publicados no mundo chegam às bibliotecas dos EUA. E como a Amazon sabe o que vende em outros lugares, ela os traduz e os publica. Depois, em 2011, ela começou uma campanha de aquisições. A Feltrinelli era editora e agora tem livrarias. A Amazon, de livraria, também é editora. Não há nada de estranho.

É um sim ou um não?

Por enquanto é um não. Não houve iniciativas semelhantes fora dos EUA, nem novas compras, planos de curto prazo, investimentos. Mas se a Amazon tem 60 bilhões de dólares de faturamento, isso significa que onde ela opera ela é mais eficiente do que os outros. Vemos que, nos EUA, as editoras não fizeram tudo o que poderia ser feito para ter boas margens de lucro, deixando muito espaço para os outros.

dica do Jarbas Aragão

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