Pedro Borges, no Balaio do Pedrão

Nascer, viver e no Santos morrer
É um orgulho que nem todos podem ter

Não sou de Santos, não moro lá não pretendo findar os meus dias naquela cidade. Mesmo assim, as vibrações futebolísticas que vêm de lá me arrebatam como nenhum outro lugar do mundo pode fazer.

Ninguém saberá explicar o que que a Vila tem. Pelé, Clodoaldo, Canhoteiro. Gilmar, Mauro, Juari, Pita. Chulapa, Dema, Edu, Coutinho. Passei a infância e a adolescência toda ouvindo provocações contra o meu time, coisa do passado, velharia, diziam. Mas nenhum time tem passado semelhante.

De fato, nos meus verdes anos, não era olhando para o campo que encontraria motivos para torcer pelo time da Vila. Trata-se de herança paterna, de memória afetiva e coletiva, pois meu pai, tios e primos mais velhos viram Pelé e seu regimento conquistar espaços, títulos e mística em uma época que o marketing contava bem menos que a habilidade. Eu, enquanto via Rodolfo Rodrigues precisar trabalhar triplicado para compensar a inópia dos jogadores de linha, me alimentava de alguma esperança de que, no futuro breve, alguma fagulha do passado resplandeceria nos gramados.

Aí apareceu Giovanni, que a história cruelmente – a história e um juiz de honra duvidosa – não deixaram vencer um campeonato brasileiro. Giovanni era gênio e deu aos santistas, que já andavam cabisbaixos há anos, uma vaidade bem explicável. Ainda éramos torcedores de um time mágico, casa de bambas, súditos felizes do único rei do futebol. Não, a nossa hora não chegaria, pois o Santos já havia se tornado atemporal. Apenas voltaríamos, em breve, ao nosso lugar de direito: o topo do futebol brasileiro. Mas não havia títulos.

Então Diego, Robinho, Elano, Renato, Léo. Então vitórias, títulos, arte. Voltamos de vez.

E agora, como não bastasse, Neymar, Ganso, Arouca – Wesley e André, que passaram rapidinho por aqui, onde tiveram seus melhores momentos – títulos, a reconquista da América.

Agora, todos sabem por que somos santistas. Não é apenas pelo passado de glórias. Não é imposição ou persuasão paterna. Não é apreço pelo sofrimento, queda pelo mais fraco, tendência arqueológica. Somos os privilegiados, os eleitos para nos deliciarmos com pedaladas, bicicletas, dribles, gols de placa, irreverência, passes de gênio. Somos os que podem, a cada jogo, sorrir, não pela tática, não pela “eficiência” do 1×0: somos a especial plateia do maior espetáculo da terra.

Todos podem ver uma jogada brilhante de Neymar, um passe mágico do Ganso, uma bela defesa do Rafael. Todos, até hoje, podem se deliciar com as jogadas de Pelé, a bomba de Pepe, a força do Chulapa. Todos podem provar da elegância discreta de Giovanni. Mas todos precisam saber que cada lance de mestre desses craques foi, é e será para nós, os alvinegros da Vila Belmiro. Nós, os que temos orgulho de sermos santistas sem sermos de Santos, mas do Santos.

Nós que, como diz o hino oficial – o clube é tão gigantesco que acabou tendo mais de um hino – mantemos a dignidade, sejamos vencidos ou vencedores. Nós que há um século já nascemos vencedores.

Outros times brasileiros já comemoraram seus centenários, todos de forma melancólica ou decepcionante. Não há time como o Santos, o abençoado Santos que nos abençoa com a sua história que continua a ser escrita, que conta, em seu centésimo aniversário, com os dois maiores craques brasileiros da atualidade para apagar as velinhas.

Os presentes, já nos deram muitos, mas, cá entre nós, aguardamos para dezembro a redenção final. Caso a dádiva seja alcançada, nós, os santistas, podemos até deixar de torcer, pois o futebol, que, desconfio, tenha sido inventado para que o Santos pudesse brilhar, já terá cumprido sua função na história.

Aproventando o centenário do clube, vamos sortear HOJE 2 exemplares de Santos 100 Anos 100 Jogos 100 Ídolos, presentão da Gutenberg. Basta enviar DM para @livrosepessoas para concorrer. Boa sorte!

Saiba + sobre o livro:

Há 100 anos, a cidade que procurava um clube à altura de sua importância acabou dando ao mundo o time de futebol mais famoso de todos os tempos. Grande, porém, o Santos F. C. sempre foi. Desde os tempos dos pioneiros Millon e Arnaldo. Do ataque dos 100 gols de 1927. Do primeiro título de campeão paulista, conquistado em 1935. Do bi de 1955/56, com Formiga, Tite, Del Vecchio, Vasconcelos, Zito, Jair Rosa Pinto e Pepe, todos precursores ou contemporâneos da Era Pelé. E quando o melhor jogador de futebol do mundo de todos os tempos ganhou um lugar no time, já de 1957, o que era bom ficou melhor ainda. O Santos passaria a encantar o Brasil, a América do Sul e o mundo – que conquistou duas vezes. Depois do Rei (que neste livro ganha um capítulo à parte), o Santos seguiu enorme, ao ritmo do futebol discoteca dos Meninos da Vila, em 1978; no embalo dos gols de Serginho Chulapa, em 1984; contando com a juventude em doses duplas de Diego e Robinho, Ganso e Neymar, neste novo milênio. Aqui, esses 100 anos são contados por meio de 100 jogos, 100 ídolos e milhões de emoções.

 

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