Luiz Cláudio Cunha no Sul21

As pedras fundamentais do jornalismo

É difícil e injusto estabelecer um filtro, sempre indevido, para as obras que são importantes ou marcam a vida de um jornalista, até pela visão pessoal e diversa de cada um. Mas, ao longo do tempo, existem bons exemplos de contadores de histórias que resumem este ofício. A começar pelo mais antigo de todos, o ateniense Tucídides, do quinto século antes de Cristo, que pode ser considerado de fato o primeiro repórter da história, mesclando nele as virtudes e os atributos que a academia identifica no profissional da imprensa: o historiador do presente, o repórter da atualidade que, pelo conhecimento acumulado, acaba de fato registrando a história do passado que vai prevalecer no futuro.

Minha lista dos ‘Dez Mais’ pode ser discutida, contestada, certamente é incompleta pela injusta restrição da dezena, mas todos os exemplos abaixo trazem um ou outro atributo essencial da profissão: o testemunho do repórter, o talento do texto, o sabor da frase, o tempero da inteligência, a relevância da história, qualidades que podem garantir a eternidade do reconhecimento para um trabalho geneticamente amaldiçoado pelo efêmero, pelo transitório, pelo passadiço.

Estes textos, estes autores, nunca passaram, nunca passarão.

Ficaram na história. E na minha memória.

Minha lista dos ‘Dez Mais’:

1. A Primeira Vítima, de Phillip Knightley (lançamento, 1975)

Phillip Knightley, repórter do The Times e do The Sunday Times de Londres, disseca aqui o sonho profissional de muitos jornalistas: a função de correspondente de guerra. Das frentes de batalha da Criméia (1854) ao Vietnã (1975), Knightley desfia uma coleção espantosa de histórias que tornam o jornalismo uma experiência de vida fascinante.  Uma edição mais recente, de 2000, inclui relatos de correspondentes do conflito das Malvinas, da primeira guerra do Golfo e dos combates no Kosovo.

Um livro soberbo, viciante, que conta histórias reais que parecem inventadas por serem tão inacreditáveis. Mas é apenas a essência da reportagem, deslizando sobre o gume quente, afiado, arriscado, eventualmente letal dos conflitos humanos.

 

 

 

2. A História da Civilização, de Will Durant (lançamento entre 1935 e 1975)

O historiador e filósofo Will Durant produziu uma prodigiosa história do mundo em onze volumes, os últimos cinco deles em autoria com sua mulher, Ariel Durant. É a série historiográfica de maior sucesso editorial de todos os tempos, redigida ao longo de quatro décadas num estilo leve, agradável, bem humorado, inteligente, irônico, sem nunca perder a densidade, o contexto e a abrangência de 25 séculos da civilização.

No volume sexto, sobre a Reforma, ao descrever um afamado humanista francês do Século 16, Guillaume Budé, que se dizia “companheiro, sócio e amante da filosofia”, Durant dá um exemplo de sua picardia: “[Budé] lamentava que tivesse de roubar tempo aos estudos para comer e dormir. Em um momento de distração, casou-se e teve 11 filhos”. Quando se lê a última linha do último volume, dá vontade de começar tudo outra vez. Não existe maior homenagem a um contador da história.

3. Memórias da Segunda Guerra Mundial, de Winston Churchill (lançamento entre 1948 e 1954)

Figura decisiva da guerra, o primeiro ministro inglês Winston Churchill teve a férrea disciplina de registrar toda noite, sob os bombardeios da Luftwaffe sobre Londres, a rotina dramática das graves decisões que influíram no maior conflito da história humana. Tirou dali, com o talento de sua prosa inigualável, o mais rico relato da resistência ao nazismo e da vitória aliada, em seis volumes envolventes de 4.135 páginas na edição inglesa (a brasileira, num único volume, tem 1.193 páginas) que lhe deram em 1953 o Nobel de Literatura.

Concentrava nele o papel de um jornalista talentoso que era, simultaneamente, um dos maiores estadistas do mundo num momento singular da história. Uma dupla raridade que desponta, íntegra, nesta obra impressionante pela dimensão dos fatos e dos personagens.

 

 

4. Todos os Homens do Presidente, de Bob Woodward e Carl Bernstein (lançamento em 1974)

A reportagem política de maior impacto do Século 20. A investigação de dois repórteres obstinados (Bob Woodward e Carl Bernstein) e de um jornal determinado (The Washington Post) confronta o presidente mais vigarista (conhecido como Dick Tricky) da história americana, desafiando a Casa Branca e as mentiras do homem mais poderoso do mundo.

Um clássico do jornalismo como ofício ético devotado à denúncia de um poder imoral e a serviço do interesse público. Tem a carga elétrica de um thriller policial com a dramaticidade de um evento real, que levou Nixon à renúncia e deu ao jornalismo a enganosa indulgência do mito.

 

 

 

 

5. Declínio e Queda do Império Romano, de Edward Gibbon (lançamento entre 1776 e 1788)

Obra em seis volumes do Século 18, Declínio e Queda… é o trabalho que deu fama ao historiador e cético iluminista Edward Gibbon, apontado como o autor da primeira ‘obra moderna de história”.  Ancorado em fontes primárias, desprezando a interpretação religiosa vigente em tempos de forte influência da Igreja, Gibbon desprezava visões místicas da história para apoiar seu relato em fatos induzidos pela sociedade, pela cultura, pela política. Em três mil páginas, a história de 1.400 anos do esplendor e decadência de Roma imperial descia do plano celestial para a realidade da vida terrena.

Dono de um estilo refinado e pujante, com um ritmo literário que dá leveza e elegância à narrativa, Gibbon, já na primeira frase de seu monumental trabalho, exibe a força e a índole de uma obra que sobreviveria ao império dos Césares: “No segundo século da era cristã, o império de Roma abrangia a mais bela parte da terra e o segmento mais civilizado da humanidade”.  É a porta de entrada para o que de melhor existe no espírito humano.

 

6. Os Sete Pilares da Sabedoria, de T.E. Lawrence (lançamento em 1935)

Winston Churchill, que entendia do ofício, definiu: “Um dos maiores livros já escritos na língua inglesa”. A guerra de guerrilhas das tribos árabes contra os opressores do império turco, unificadas sob a inesperada liderança de T.E. Lawrence, acontece nas areias escaldantes do deserto, oculta na periferia mais distante e empoeirada da I Guerra Mundial. Ali assoma a figura mítica do arqueólogo que virou militar, do inglês que assumiu a identidade de árabe, do homem anônimo que ganhou a dimensão de lenda ainda em vida como Lawrence da Arábia. Tudo isso graças a este livro autobiográfico escavado no subsolo da memória.

Lawrence perdeu todos os manuscritos numa troca de trens, na Inglaterra, em 1919. Insatisfeito com a segunda versão, refeita no ano seguinte, destruiu tudo. A nova e definitiva versão só brotou em 1935, depurada na versão viva, quente, imortal de um dos personagens mais fascinantes da fronteira entre dois mundos, o Ocidente e o Oriente. É um monumento único de estilo, erudição, história, filosofia e reportagem, que inspira e emociona.

 

7. 1964: a Conquista do Estado, de René Armand Dreifuss (lançamento em 1981)

O historiador e cientista político uruguaio René Armand Dreifuss produziu uma obra seminal da história brasileira: desfez a lenda de que a derrubada de João Goulart em 64 foi uma mera quartelada, provando que ela foi resultado de uma científica, longa conspiração de militares, empresários, grande imprensa e a Igreja conservadora, unidos no que foi, de fato, um clássico golpe civil-militar. Confirmou esta tese debulhando documentos, relatórios e atas de arquivos áridos que, tratados com habilidade e visão política, renderam um trabalho devastador, fonte obrigatória para historiadores e exemplo didático para todo repórter no manuseio correto de papéis aparentemente burocráticos.

O livro de Dreifuss revelou, para sempre, os nomes ocultos e os ilustres sobrenomes de quem trabalhou para a derrocada do governo constitucional e a tomada do aparelho de Estado para impor ao país a mais longa e sangrenta ditadura (1964-1985) de sua história. Uma aula meticulosa de jornalismo preciso para repórteres interessados nos documentos e arquivos que iluminam a história e jogam luz sobre seus poucos heróis e muitos vilões.

 

8. Cinco Dias em Londres, de John Lukacs (lançamento em 1999)

Autor de três dezenas de livros, a maioria deles sobre o duelo de gigantes entre Winston Churchill e Adolf Hitler no limiar entre civilização e barbárie, o historiador húngaro John Lukacs, naturalizado americano, conseguiu lapidar uma joia histórica neste enxuto (204 páginas), clássico e inovador relato sobre cinco dias cruciais de maio de 1940 que mudaram a história do mundo. Reconta a assunção de Churchill ao poder em maio de 1940, três semanas antes da épica retirada de Dunquerque, quando a vitória nazista e a rendição britânica pareciam iminentes.

Percorrendo meandros nunca antes trilhados pela multidão de historiadores que dissecam o rico universo churchilliano, Lukacs descobriu um detalhe instigante do líder britânico recém-chegado ao poder. A teimosa, brava resistência de Churchill  entre sexta (24 de maio) e terça-feira (28) contra a corrente derrotista no governo de Londres que defendia uma trégua precoce, quase uma rendição ao poder avassalador dablitzkrieg de Hitler, salvou o mundo de uma impensável capitulação ao nazismo.

O trabalho de repórter feito por Lukacs, num livro construído com o suspense do choque de pensamentos que poderia decidir o futuro da humanidade naqueles cinco dramáticos dias, é uma inspiração e um estímulo para o jornalista sagaz e persistente.

 

9. Chatô, o Rei do Brasil, de Fernando Morais (lançado em 1994)

O livro marca o encontro de duas figuras memoráveis: o repórter Fernando Morais e seu personagem central, Assis Chateaubriand. Conhecido pelo apelido de ‘Chatô’, era o dono de um império que inaugurou a moderna comunicação no país na primeira metade do Século 20, que ele dominou como uma versão real, ainda mais poderosa do que o Cidadão Kane da ficção do cinema. Chefe de uma corporação que reunia uma centena de emissoras de rádio e TV, jornais e revistas (incluindo a maior do país, a semanal O Cruzeiro), ‘Chatô’ tinha o estilo de um jagunço, a ousadia de um conquistador, a criatividade de um revolucionário, que agia com a determinação invulgar de um homem onde se mesclavam charme, truculência, sedução, brutalidade, invenção, rudeza e modernidade.

Era o personagem ideal em busca de um grande repórter. ‘Chatô’ teve a sorte de encontrar Morais, responsável talvez pela mais impressionante biografia do jornalismo brasileiro. O texto brilhante, vivo, abrangente, quase sempre cômico, inevitavelmente trágico, é uma exaltação ao talento do repórter e o ponto supremo do jornalismo biográfico.

Chatô de Fernando Morais é uma aula de Brasil, uma lição para jornalistas e uma delícia para leitores que apreciam uma bela história narrada de forma admirável.

 

10. História da Guerra do Peloponeso, de Tucídides (edição inglesa em 1628, brasileira em 1982)

O primeiro repórter da história, Tucídides, nasceu em 460 a.C, quando o ‘pai da história’, Heródoto, era um jovem curioso de 25 anos. Ao contrário do mestre, porém, Tucídides produziria este clássico, fundamento da história como ciência, em oito volumes calcados na experiência e no testemunho direto de quem, como general ateniense, acompanhou a guerra por dentro.

Tucídides registrava a história como produto das escolhas e das ações dos seres humanos, não como resultado da ira dos deuses. Desprezando lendas, superstições e relatos de segunda mão, Tucídides preferia ouvir testemunhas oculares e entrevistar participantes dos eventos, relegando a suposta intervenção divina nos assuntos humanos.

O tradutor Mário da Gama Kury lembra que Dionísio, um crítico literário nascido quatro séculos depois em Halicarnassos, terra natal de Heródoto, definiu as qualidades maiores de Tucídides, que valem ainda hoje para um bom repórter: “concisão monolítica, pungência austera, veemência, capacidade de inquietar e comover e, sobretudo, um profundo comando do patético”.

O olhar soberano do repórter, como ensina esta longa e viva reportagem realizada no campo de batalha há 25 séculos, quando ainda não existia Google nem Twitter, prova que a receita do bom profissional continua a mesma: é preciso estar lá, para ver e sentir a notícia, sem intermediários.

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