Publicado por OBVIOUS

Porque as marcas que deixamos nos livros que lemos, feitas de traços e vincos e dobras de página, são apenas o reflexo das marcas – tão suaves quanto fortes – que os livros deixam em nós.

Há dias, no Facebook, um amigo (“amigo/amigo”, não “amigo/friend”) publicou o link para um post onde fala sobre um dos filmes mais bonitos e delicados que já vi: Malèna, de Giuseppe Tornatore. Como diz o João, e bem, há mais beleza no filme do que aquela que é evidente aos olhos: tem Monica Bellucci, sim, mas tem mais do que isso. Tem comunidade, tem sociedade, tem preconceito, tem ascensão e queda, tem vida – tem tudo. Um filme daqueles que nos marcam, e onde podemos aprender mais do que a simples história que ele conta.

Como acontece com tantas coisas na nossa vida.

Nas férias da Páscoa, entre limpezas e arquivos de coisas passadas, arrumei livros que já li e já não leio mas que, de uma forma ou de outra, fazem parte daquilo que me fez ser. E, numa consulta que não demorou mais do que um folhear de páginas – porque os livros que se conhecem são como parte de nós, e sabemos, em segundos, onde encontrar o que de nós é – encontrei frases e linhas que são, na verdade, mensagens maiores que as palavras que as compõem.

“- Se eu ordenasse a um general que voasse de flor em flor como as borboletas, ou que escrevesse uma tragédia, ou que se transformasse em gaivota e se o general não executasse a ordem recebida, de quem era a culpa? Minha ou dele?
– Era Vossa – respondeu firmemente o principezinho.
– Pois era. Só se pode exigir a uma pessoa o que essa pessoa pode dar – prosseguiu o rei. – A autoridade baseia-se nisso”


Antoine de Saint-Exupéry, O principezinho

Muitas vezes somos nós o nosso próprio inimigo. Exigimos demasiado, projetamos em nós (todas) as forças que cobiçamos e admiramos nos outros, como se (todas) as forças dos outros se pudessem reunir, sem conflito nem dor, dentro de uma só pessoa.
Querer ser mais é a força impulsionadora para crescer. E admitir que o impossível existe é o princípio para se saber ser mais naquilo que se é.

“- Boromir dirá tudo quando chegar. Quando chegar, dizes! Eras amigo de Boromir?
Pela memória de Frodo passou, nítida, a recordação do ataque que Boromir lhe fizera, e por isso hesitou um momento. Os olhos de Faramir, que o fitavam, tornaram-se ainda mais duros.
– Boromir era um valoroso membro do nosso grupo – respondeu Frodo, por fim – Sim, eu era seu amigo, pela minha parte.”

 

J.R.R. Tolkien, O Senhor dos Anéis: As duas torres

Na vida, diferentes pessoas têm diferentes objectivos e diferentes caminhos a percorrer. Os sentimentos, quando os há, valem pelo valor que têm – muito, ou pouco, dependendo da força com que os alimentamos. As amizades, como os amores e as lealdades, não são mais verdadeiras só porque são mútuas, nem mais falsas porque só têm um sentido. São percursos, estradas, paths que nos levam de um ponto ao outro da nossa existência. E só isso basta para as tornar reais.

Mas passa-se uma coisa extraordinária. Como me esqueci de pôr a correia no açaimo e como, sem correia, o principezinho nunca se pode ter servido dele, ando sempre com uma dúvida: a ovelha terá ou não comido a flor?
Umas vezes penso: “Claro que não! O principezinho põe a flor todas as noites debaixo da redoma de vidro e, de dia,não tira os olhos da ovelha…” E fico feliz. E todas as estrelas se põem a rir baixinho.
Outras vezes, penso: “Uma distração e basta… se calhar, um dia, o principezinho esqueceu-se da redoma de vidro… ou a ovelha escapou-se-lhe de noite, sem fazer barulho…” E todos os guizinhos se transformam em lágrimas!..

Que grande mistério! Vão ver que também para vocês, que gostam do principezinho, nada no Universo fica na mesma se algures, não se sabe bem onde, uma ovelha que nós não conhecemos tiver ou não comido uma rosa…
Ora olhem para o céu e pensem: “A ovelha terá ou não comido a flor?” Vão ver como tudo muda…

 

Antoine de Saint-Exupéry, O principezinho

Copo meio cheio, meio vazio, estrelas a rir ou a chorar, tudo depende não (só) do nosso ponto de vista mas da forma como vemos as coisas. Como e onde nos focamos. Aquilo a que damos importância. A mesma tarefa, o mesmo projeto, a mesma empreitada, podem ser grandes ou pequenas, alcançáveis ou impossíveis – tudo depende da forma como decidimos olhar para ela, da lente da alma que decidimos colocar à frente do coração.

“- Só me pôs nos Gryfindor – disse Harry numa voz débil – porque eu pedi para não ir para os Slytherin.
– Exacto – disse Dumbledore a sorrir – E isso torna-te muito diferente de Tom Riddle. São as tuas escolhas, Harry, mais do que as tuas capacidades, que mostram quem de facto és.”

 

J.K. Rowling, Harry Potter e a Câmara dos Segredos

Dizem que todos nascemos iguais. Dizem que todos temos as mesmas oportunidades. Dizem que todos podemos escolher.
Todos somos tudo… a diferença está na forma como, sendo e podendo ser tudo, queremos ser grandes naquilo que nos faz ser únicos.

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