André Barcinski, na Folha.com

Há algumas semanas, postei aqui um texto sobre o livro “A Geração Superficial”, de Nicholas Carr, que fala da crescente dificuldade das gerações “conectadas” em se concentrar para ler um livro (e a decisão do Pulitzer, anunciada ontem, de não premiar ninguém na categoria “ficção” parece corroborar o estado sofrível da literatura).

Ao mesmo tempo, estou animado com as notícias sobre o aumento no número de livros publicados de forma independente.

A autopublicação é uma realidade. Seja em tablets ou em tiragens físicas pequenas ou sob encomenda, cada vez mais gente tem dispensado as editoras e publicado seus próprios livros.

Claro que livros independentes sempre existiram. Isso não é novidade. Mas a quantidade impressiona. Tenho em casa pelo menos 15 livros que recebi de leitores, todos publicados pelos próprios autores ou por editoras pequenas.

E são livros dos mais variados.

Tem desde a poesia de Maurício Macedo, com “Lume” (Editora 7 Letras), a um estudo de Igor Garcia de Castro sobre gravadoras independentes brasileiras, chamado “Lado B” (Editora Anna Blume).

Recebi também “Mercado de Pulgas”, coletânea de Renato Alessandro dos Santos com textos sobre cinema, shows (Radiohead, Paul Di’Anno) e entrevistas bacanas com gente como Lourenço Mutarelli e Ignacio de Loyola Brandão.

Por coincidência, meu amigo Álvaro Pereira Jr. fez uma coluna na “Ilustrada” sobre o livro “Memórias Não Póstumas de um Punk” (Editora Multifoco), de Larry Antha, que conta a história da banda carioca Sex Noise (leia coluna do Álvaro aqui). Vou encomendar correndo.

É um paradoxo: ao mesmo tempo em que a Internet, como diz Nicholas Carr, está encolhendo a capacidade de concentração dos leitores, ela está ajudando escritores a encontrar seu nicho.

Outro dia, um leitor me escreveu pedindo um conselho. Ele estava terminando um livro sobre a conquista do Campeonato Brasileiro por seu time do coração (não, não é o Fluminense) e queria dicas de editoras.

Minha sugestão foi publicar o livro sozinho. Com um tema específico desses, que praticamente só interessará aos torcedores do time, não deve ser difícil fazer uma propaganda direcionada ao público-alvo do livro. É só distribuir folhetos na entrada dos jogos do time e colocar anúncios em fóruns de torcedores.

Acho que publicar por uma editora tem suas vantagens e desvantagens. Claro que a estrutura de uma editora ajuda a vendagem de qualquer livro.

Por outro lado, há a questão do percentual do autor. Num lançamento por uma editora, o autor recebe, em média, 10% do preço de capa.

Quem publica sozinho tem que assumir o custo da publicação, mas fica com um percentual bem maior (o número final depende do acordo que fizer com as livrarias).

Eu mesmo estou trabalhando em dois livros. Um é um trabalho de não-ficção, um guia, cujo sucesso de vendas vai depender diretamente de uma boa estratégia de distribuição e propaganda.

O outro é um trabalho mais pessoal, com uma expectativa de vendagem bem menor e que, acredito, tem a chance de achar seu público por meio do boca a boca e de comentários na Internet.

O primeiro, vou lançar por uma editora. O segundo, planejo lançar sozinho.

Pode ser que eu me ferre? Claro que pode. Mas não custa tentar.

Uma coisa é certa: hoje, só não publica quem não quer.

dica do Tom Fernandes

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