Publicado por Folha.com

O rapper Gabriel O Pensador manifestou-se via Facebook em relação ao cachê de R$ 170 mil que recebeu para ser patrono da Feira do Livro de Bento Gonçalves (RS) –o valor fez o escritor gaúcho Fabrício Carpinejar cancelar sua participação no evento, que acontece de 5 e 16 de maio.

Carpinejar escreveu uma carta aberta à coordenação da feira, retirando sua participação. “Nada contra o Gabriel, mas contra esse valor abusivo, chega a ser sobrenatural. R$ 170 mil é o valor de um prêmio literário, quase se equipara ao Prêmio São Paulo de Literatura, de R$ 200 mil”, disse o poeta à Folha.

No comentário em sua página oficial, Gabriel O Pensador diz que o valor se refere ao cachê mais a compra de seus livros para escolas municipais (“Diário Noturno” e o infantojuvenil “Um Garoto Chamado Rorberto”).

“É até ridículo eu escrever tudo isso aqui, mas acho que vale detalhar bem para os leigos. E pra quem quiser ter uma noção melhor, o cachê do meu show hoje está em R$ 60 mil (podendo subir de cotação a qualquer momento, não custa nada deixar avisado!)”, afirmou o cantor na nota.

“Acho ótimo que se misture educação e cultura, usando a música para atrair mais leitores e mais divulgação para eventos literários”, diz Gabriel, que ainda afirma ter reclamado “por telefone com o próprio Carpinejar, que me explicou que seu protesto não era contra o meu custo, mas contra a prefeitura por não terem investido mais no cachê dos autores locais”.

“Não tem nenhum segredo nessa historia”, continua. “E, pra quem não sabe, o prefeito é um cara muito respeitado por lá. Em nenhum momento questionaram sua honestidade, e a conversa passou longe disso, só acharam que ele errou ao misturar a feira com o show, ao pagar pouco pros autores de um lado e fechar um negócio mais alto com um artista que também é autor.”

Leia abaixo a íntegra do comentário do rapper:

O cantor Gabriel o Pensador, que posa com seu livro "Um Garoto Chamado Rorbeto / Ayrton Vignola/Folhapress

“A Prefeitura programou para o ano de 2012, fora da feira do livro, um investimento em educação com a aquisição de mil livros do ‘Diário Noturno’ e mil de ‘Um Garoto Chamado Rorbeto’, a serem doados em kits para todas as escolas da rede municipal. Total 2.000 x 35,00 = 70.000,00 reais mais impostos. Programou também um show meu, que a princípio ocorreria no segundo semestre, com todos os custos incluídos, cachê, equipe, banda, passagens, hospedagem, alimentação, transporte de pessoal e equipamento. O total destes dois investimentos, em educação e cultura, chega a quase 170.000 reais, já incluindo impostos.

Este valor, de uma grande venda de livros e de um grande show somados, ainda fica abaixo de muitos cachês líquidos (livres de custos e impostos) de bandas sertanejas ou mesmo pop rock, que rodam pelo pais fazendo shows para prefeituras o tempo inteiro.

Show de graça pro povo, mas sempre custa dinheiro, e não eh pouco, pra alugar som, luz, mídia, palco, segurança, pagar caches, ECAD, etc, etc.

Dinheiro público, como neste caso de Bento Gonçalves, uma cidade que tem muitos recursos e realiza grandes eventos e feiras anualmente, e que pretende sediar uma seleção na Copa do mundo, motivo para dar mais ênfase a tudo que possa atrair turistas e movimentar a vida do município.

Isso fez com que a prefeitura antecipasse o meu show, para incrementar a programação da feira do livro, na noite do seu encerramento.

Eles também resolveram anunciar a minha presença como patrono da feira, junto com a adoção dos livros, junto com o show, publicando o valor total, sem imaginar nenhuma reação negativa, já que são valores de mercado, e sem o cuidado de explicar com mais detalhes como tinham chegado a esse valor.

Ao anunciarem meu nome como patrono e a realização do show, me mandaram mensagens dizendo que a população tinha adorado a noticia, que estavam muito felizes com a reação de todos. Também fiquei feliz, pois tenho também muito carinho pelo povo de lá, e do RS como um todo.

Os escritores convidados, porém ao lerem no Diário Oficial o valor do contrato (lá eh tudo publicado abertamente), se revoltaram, comparando-o com o que eles ganhariam (caches simbólicos ou ate mil reais) por palestra, por acharem que o Gabriel autor receberia aquele valor para ser patrono! E alguns também por questões filosóficas, de achar que uma feira do livro não deve ter show musical.

Eu discordo e acho ótimo que se misture educação e cultura, usando a musica pra atrair mais leitores e mais divulgação para eventos literários. poderia dar exemplos de outros trabalhos que fiz, como por exemplo quando a uma secretaria de educação comprou cinco mil exemplares do Diário Noturno e criou eventos mistos dentro de escolas, aliando literatura, musica e teatro. Eu só palestrei, mas outros cantaram e isso ajudou a manter os alunos ligados durante dias inteiros de atividade.

Questões filosóficas a parte, o grosso das reclamações era sobre a disparidade entre o investimento no show e nos meus livros (supondo que era um simples cache) e o pagamento aos autores locais.

Os que mais reclamaram o fizeram sem saber que os recursos não saíram da mesma Secretaria (da Cultura) que controla a verba da feira, e sem saber que eu não estou cobrando para ser patrono, nem pra realizar as duas palestras e mais outras atividades, como visita em escolas.

O meu pagamento, alem da honra de ser escolhido patrono da feira, seria estritamente a receita liquida da venda de livros pela editora (tirando impressão e transporte de livros e outros custos) mais o cache liquido do show, a ser fatiado com empresaria, banda e equipe.

Eh ate ridículo eu escrever tudo isso aqui, mas acho que vale detalhar bem para os leigos. E pra quem quiser ter uma noção melhor, o cache do meu show hoje esta em 60.000,00 (podendo subir de cotação a qualquer momento, não custa nada deixar avisado!).

Não tem nenhum segredo nessa historia e, pra quem não sabe, o prefeito eh um cara muito respeitado por lá. Em nenhum momento questionaram sua honestidade, e a conversa passou longe disso, só acharam que ele errou ao misturar a feira com o show, ao pagar pouco pros autores de um lado e fechar um negocio mais alto com um artista que também eh autor… Mas a intenção dele era agitar ao máximo a população em torno do acontecimento da feira do livro, que deveria ser a maior da historia da cidade. Ele estava super empolgado, mas agora esta enfrentando essa reação dos escritores, com autores ameaçando boicotar a feira, uma situação ainda bem confusa, e eu dei o azar de “cair de paraquedas no meio de uma briga de gaúchos”, como me disse hoje, por telefone, uma das autoras convidadas, que também reclamou, mas não cancelou sua palestra e vai se apresentar na feira, por um cache de cerca de 600,00 reais, um por cento do cache do meu show.

Da pra entender a reação de todos. A minha foi de surpresa. E um pouco de decepção com as pessoas que falaram antes de se informar melhor, ou que não mediram tanto o impacto das palavras, como reclamei por telefone com o próprio Carpinejar, que me explicou que seu protesto não era contra o meu custo, mas contra a prefeitura por não terem investido mais no cache dos autores locais.

Antes não tivessem concentrado todas as minhas atividades no período da Feira. Assim eu teria motivos para voltar mais vezes a Bento, uma cidade linda que sempre me recebeu tão bem. E poderia trabalhar em paz, me preocupando apenas em fazer o que eu gosto: interagir com as pessoas, declamar e incentivar a garotada a ler e a escrever. E subir com a minha banda no palco e me entregar de corpo e alma pra cantar minhas musicas, como eu sempre fiz (com ou sem cache).”

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments