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Andréa Mota, no Obvious.

Graciosa, divertida, Mafalda. Quem não se encanta com essa menina que parece ter mais e saber mais que muita gente perdida nesse mundo? A tira de Quino ganhou vida, demarcou seu espaço e nunca deixou de ser atual. Ainda protestamos diante da obviedade das injustiças e ainda odiamos sopa.

Era década de 1960. Um desses anos que marcam os passos apressados de uma humanidade em retalhos. Após as guerras que mostraram ao homem sua face mais dominadora, a contracultura preencheu de novos ares os campos tomados e impulsionou uma geração embasbacada com o sangue que escorria das portas, das ruelas, dos palácios, manchando o sorriso e a esperança das pessoas. Ninguém aguentava mais aquilo. Mas, como dizer? Era atribulado o fluxo de vozes e argumentos. Até que alguém teve uma ideia: a criança fala.
O símbolo da infância, sua “pureza” e lugar no mundo são motores ideológicos que movem centenas de obstáculos e criam uma espécie de aura renovada. Seu contrário, igualmente impactante, transforma o observador em sujeito descrente, afinal, “onde está o futuro dos homens se até as crianças foram corrompidas”.

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Quando Joaquín Salvador Lavado, mais conhecido como Quino, criou a menina de seis anos, ele sabia o que estava fazendo. Para contestar erguendo uma voz destoante da harmonia costumeira, era preciso tratá-la de outra forma. Malfada Quino não pediu para nascer e tinha todos os argumentos para considerar aquele mundo difícil, irregular e, sobretudo, injusto.
Seu primeiro esboço foi criado em 1962 como um cartoon de propaganda do Diário Clarín, na Argentina, que não vingou. Naquele período, os argentinos assistiam a iminente ditadura que lhes consumiria direitos e um bom descanso no fim do dia. De 1966 a 1973, a “revolução argentina” liberou a porteira para multinacionais e trouxe aos trabalhadores argentinos rombos constitucionais expressivos. Condenou as universidades por subversão e ideias comunistas, destruiu bibliotecas e engatilhou as armas que seriam usadas em chacinas como o Massacre de Trelew – fuzilamento de guerrilheiros rendidos.

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Mafalda nasceria mesmo em 1964, quando foi publicada pelo semanário Primeira Plana. Nos primeiros esboços, era apenas ela e seus pais. Filipe apareceu em janeiro do ano seguinte. Com uma notoriedade em ascensão, Mafalda começou a aparecer no El Mundo, de Buenos Aires, e trouxe consigo mais dois personagens: Manolito e Susanita. Em 1967, quando a mãe da menina estava grávida, o El Mundo fecha suas portas e as janelas de Mafalda, que ficou seis meses no escuro.
No novo espaço, Siete Días Ilustrados, Quino não conseguia acompanhar as notícias em consonância com suas tiras, já que tinha que entregar o material duas semanas antes da publicação. Resultado: Mafalda deixa seu espaço vazio em 1973. A justificativa do cartunista, na realidade, era a preocupação de se repetir. Segundo o próprio Quino, ele já havia conseguido falar o que queria.

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E assim, Mafalda se foi. Na verdade, não. A expressividade da menina foi tanta que ela ganhou vida própria. Em 1982, Carlos Márquez colocou em prática a Mafalda em desenho animado, para pouco gosto de Quino. Mas, diferente de seu nascimento, o novo formato não ficou tão conhecido.

Histórias

A universalidade e, porque não dizer, atemporalidade dos pensamentos de Mafalda é evidente. O que move a menina de cabelos cheios e vestido vermelho é o questionamento de coisas óbvias, mas tão esquecidas pela sociedade preocupada com sua econômica forma de vida. Para auxiliar Mafalda em seus porquês, Quino criou personagens memoráveis:

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Papá: o pai de Mafalda. Ele trabalha em uma companhia de seguros, cultiva plantas no quintal e tem crise de idade.

Mamã: a mãe de Mafalda. Sem completar os estudos, ela é considerada a típica dona de casa e, muitas vezes, considerada medíocre pela menina. Seus principais embates são, sobretudo, pelo ódio de Mafalda por sopa e macarrão.

Filipe: Inspirado no jornalista e amigo de Quino, Jorge Timossi, Filipe é um garoto em conflito. Ao mesmo tempo em que odeia a escola, ele não consegue tirar de si o senso de responsabilidade e, por isso, tem crises de consciência constantes.

Manolito: Este personagem representa o conservadorismo capitalista. Filho de comerciante, ele vive preocupado com os negócios, os juros e lucros. Só se dá bem em matemática na escola e odeia os Beatles.

Susanita: É aquela amiguinha que a gente não larga, mas podia algumas vezes ficar calada. Seu sonho é casar com um cara rico e ter muitos, muitos filhos. Além disso, ela adora se ocupar da vida dos outros.

Guille “Gui”: Irmão mais novo de Mafalda, é curioso e está começando a conhecer o mundo.

Miguelito Pitt: Um garoto meigo, de coração bom, mas demora em entrar nas ligas da menina. É um pouco egoísta e, muitas vezes, acha que a vida gira em torno de si.

Libertad: Uma menina com pais idealistas e simples. Vive ouvido comentários sobre seu nome.

Burocracia: Nada mais bem adequado que esse nome, afinal, é uma tartaruga. Mafalda batizou tartaruguinha por achá-la vagarosa. Que coisa.

Sopa: Brincadeirinha. A sopa pode ser apenas um alimento, mas sempre irritou Mafalda. Portanto, estamos diante de seu arqui-inimigo.

Quino

Não se pode deixar de registrar a genialidade de Quino em outros trabalhos pós-mafalda. De um humor preciso em fazer rir e pensar, o cartunista perdeu a mãe muito cedo e foi cuidado pelo pai. Joaquín Salvador tem o apelido de Quino desde a infância, para diferenciar-se do tio homônimo. Entrou para a Faculdade de Belas Artes e, desde então, começou a vender seus desenhos até chegar à personagem de maior sucesso. Mafalda chegou ao Brasil em plena ditadura, em 1973, pela revista Patota, da editora Artenova.

Alguns trabalhos:

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