Daniel Japiassu, no Estadão

‘Às 3h da manhã, me expulsam da empresa’, conta o criador dos personagens da ‘Turma da Mônica’

Mauricio de Sousa (Divulgação)

Mais de meio século de pura inquietação. Aos 76 anos, Mauricio de Sousa não para desde aquele remoto 1959, quando publicou a primeira tirinha – estrelada por Franjinha e o cachorro Bidu. Atualmente, o criador da Turma da Mônica (ele é chamado de Walt Disney brasileiro, mas não curte muito…) vem dedicando boa parte de seu tempo ao Twitter, onde já arregimentou quase 200 mil seguidores – “uso muito, adoro a concisão”, explica. “Só saio da internet de madrugada, quando o pessoal aqui da empresa me expulsa do prédio!” A Mauricio de Sousa Produções, diga-se, acaba de estrear nas redes sociais – “estava na hora de estreitar laços com os nossos leitores”.

Paulista de Santa Isabel, ele tem investido em outras frentes desde que trocou a Editora Globo pela Panini, em 2007. Além dos gibis tradicionais, criou um fenômeno de vendas chamado Turma da Mônica Jovem (em estilo mangá), entrou de cabeça no mercado asiático, prepara lançamento de game para Facebook do Chico Bento, comemora a versão graphic novel de seus personagens (que deve estrear no mercado europeu) e anuncia novos capítulos da parceria com Osamu Tezuka (criador do Astroboy) e a série de desenhos animados Turma da Mônica Toys, desenvolvida para smartphones e tablets.

Sem contar o Neymarzinho (ou Neymar Jr., o nome ainda não foi definido), cujo gibi estará nas bancas no segundo semestre; e seu mais novo personagem, baseado no maestro João Carlos Martins, que ensinará música clássica para as crianças nas histórias da Turma.

Sobre o fechamento do Parque da Mônica, no Shopping Eldorado, em 2010? Nem quer saber. Prefere falar da construção de um novo parque temático, no Ceará, a ser inaugurado antes da Copa de 2014. “E até o fim do mês teremos mais notícias sobre o Parque do Cascão”, diz, com aquela cara de “plano infalível”, típica do Cebolinha.

Entre a gravação de depoimento para uma emissora de TV japonesa e a leitura de uma pilha de roteiros (missão que divide com a filha Marina), ele recebeu a coluna em sua ampla sala – decorada com toda sorte de traquitanas da Turma – na sede da MSP. Confira os melhores momentos:

Seu sobrenome é com Z. Por que trocou pelo S? Numerologia?

(risos) Olha só… (começa a desenhar um Z, depois um S, numa folha sulfite). Olha a suavidade do S, olha a dureza do Z. Como é que eu vou usar uma letra tão agressiva para falar com crianças? (risos) Num soneto que meu pai escreveu pra mim, quando eu era criança, ele grafou o sobrenome com S. Ainda estou investigando esse mistério.

Como se sente aos 76 anos?

Passou voando, nem percebi. Eu peço para os meus netos: “Me chamem de tio, vai!” (risos).

Dizem que você não dorme nunca, Mauricio. É verdade?

Quase. Ontem, por exemplo, fui até as 3h da manhã. E acordei, hoje, às 8h. Fico lendo roteiros, leio todos. Antes, fazia isso sozinho; há quinze anos, divido a missão com minha filha Marina. Ela lê antes de mim, faz uma pré-avaliação. No começo, nossas opiniões batiam; com o passar do tempo, passaram a não bater. Eu quis saber por quê. O que descobri? A Marina está certa! Raios! (risos)

Falar a língua da garotada durante tanto tempo é um desafio?

Tenho dez filhos, com diferença de quase cinquenta anos entre o primeiro e o último. Isso me ajudou muito. Tive de me atualizar sempre.

Esse olhar para o mangá tem a ver com isso?

Estava eu lá, quietinho, vendendo minhas revistas para a garotada até 14, 15 anos. De repente, percebemos que essa idade começou a cair. Os adolescentes já não se interessavam tanto, gostavam mesmo era de mangá. Ué, se curtem a Turma e mangá, por que não fazer um produto híbrido?

A Turma da Mônica Jovem parece ter ritmo de novela: o primeiro beijo da Mônica com o Cebolinha, histórias que se completam.

A ideia era essa.

Vai rolar a primeira transa deles também?

Olha, o que acontece com os personagens entre uma revista e outra é problema deles (risos). Mas essa guinada para o mangá deu mais certo do que a gente imaginava. Hoje, a Turma da Mônica Jovem é o HQ mais vendido do Brasil, com picos de 500 mil exemplares de tiragem. É muita coisa, mas sabe que podia ser bem mais…

E por que não é?

Porque ainda estamos descobrindo novas plataformas para a Turma. E temos enfrentado certo preconceito por parte de alguns pontos de venda, que tendem a rejeitar novidades. Investimos também em assinaturas e temos tido muita procura de escolas. Por isso lançamos versões em inglês e espanhol, para serem usadas em sala de aula. Na verdade, eu queria ter feito no Brasil o que estamos fazendo na China: começar pelas escolas. Isso dá uma aura… você ganha a chance de passar valores através das histórias.

Como está na China?

Acabei de ganhar um prêmio de literatura lá… Qualquer número na China é grande, né? (risos) Ou seja, a partir de agora, podemos entrar em todas as escolas chinesas. São, potencialmente, milhões e milhões de chinesinhos lendo nossos gibis. A maioria pela web. E sabe que tema para a primeira revista eles pediram por lá? História do Brasil! Eles têm uma curiosidade incrível pelo assunto! (risos) Depois, o Aleijadinho, para falar sobre superação. E Amazônia… Na Coreia também vem sendo assim. Ou seja, estamos entrando na Ásia pela veia da educação, que é uma coisa ótima. Era o que queria ter feito aqui, mas não consegui. Cinco ministros da Educação seguidos e nada! Tem de investir na base. Qualquer time de várzea sabe que é preciso cuidar da base (risos). E pela web é tudo mais fácil, econômico, ecológico. Inclusive por tablet, smartphone. Esse nosso Brasilzão precisa disso, sabe? Investir na educação usando a tecnologia.

Parece conversa de candidato.

Então, pode anotar: não sou candidato (risos).

Sua parceria com o pessoal do Osamu Tezuka vai continuar?

Deve, sim. O mix deu certo. Estamos em conversação para novas aventuras. Mais focadas em ecologia… Estive, recentemente, na Amazônia, no Jari. Fui estudar a região. Nadei num rio cheio de piranha!

Deu uma de Chico Bento?

(risos) Sou do interior… vejo um rio, tenho de pular dentro. A verdade é que adoro o Astroboy (personagem mais famoso de Tezuka), o drama dele me toca muito, é muito marcante. Tive um contato muito próximo ao Tezuka, nos demos muito bem. Depois que ele morreu (em 1989), estamos negociando com a viúva, com o filho. Temos um caminho bom pela frente. Incluindo uma versão da Turma da Mônica desenhada pelos artistas do Tezuka. Ah, e estamos desenvolvendo uma revista que narra a “visita” da Turma da Mônica Jovem ao Japão – para “vender” o país pós-tsunami aos jovens brasileiros, reabrir esse turismo para o Japão.

O Neymarzinho também será publicado na Ásia?

Deve ser nosso primeiro produto mundial. Diferentemente de Ronaldinho Gaúcho, Pelezinho e Dieguito (inspirado em Maradona). O primeiro gibi do Neymarzinho sai no segundo semestre.

Pensa em desenhar o Messi?

O problema é que o Messi não tem carisma, né? É apagadão.

Só funciona dentro de campo?

É… chuta bem (risos).

E o mascote da Copa? Você gostaria de desenhá-lo?

Depois que recusaram o Pelezinho, parei de brincar (risos).

Com tanta revista sendo publicada, em algum momento você acha que o papel acabará?

Ainda demora, mas, com certeza, haverá migração para outras plataformas. Até por causa da inconveniência do formato papel. Eu apostaria num papel digital. O homem quer conforto e quer aprender sempre. Falo por mim: se criarem um papel digital e colocarem cheirinho de papel de verdade, eu leio na hora (risos). Mas não vejo alterações acontecendo tão cedo.

Você usa tablet, iPad?

Estou aprendendo… treinando. Hoje, em vez de livro de cabeceira, tenho tablet de cabeceira.

Quais os próximos planos infalíveis do Mauricio?

Um deles são minifilmes para celular, uma série chamada Turma da Mônica Toys – animações de 30 segundos, sem diálogo, para adolescentes e adultos que curtem a Turma. Pensamos muito em novas tecnologias. O que me obriga a aumentar o staff da empresa, coisa que adoro. Adoro contratar gente!

E os desenhistas que recriaram a Turma no seu aniversário de 50 anos de carreira?

Houve coisas incríveis! Já estamos no quarto volume do livro (MSP50). Agora só com artistas da casa. Mas logo no primeiro descobrimos uma nova veia, totalmente diferente para nossos personagens: graphic novel. Voltada para adultos. Um dos mais incríveis é o Astronauta, outro que ficou fantástico foi o Piteco. Estivemos, recentemente, em um congresso na Europa, da Panini, e apresentamos a ideia. Foi um sucesso.

Seu pessoal deve adorar tanta coisa pra fazer…

(risos) É uma pena que o dia tenha apenas 24 horas. De madrugada, eles me põem pra fora, me mandam pra casa dormir. Raios! (risos)

Sua assessoria de imprensa gosta quando você publica posts no Twitter de madrugada, entregando as novidades da empresa?

(os assessores olham para ele, com cara de reprovação; Mauricio faz um ar acanhado, de Chico Bento) É o tempo que eu tenho… (risos) Trabalho muito no computador, e escolhi o Twitter por causa da concisão dos 140 caracteres. Adoro concisão…

Mas você conversa com os leitores via Twitter?

Só respondo perguntas pertinentes. Senão, fica muito difícil. Ao mesmo tempo, é uma rede de informação maravilhosa. Se alguém reclama de atraso na revistinha, por exemplo, eu faço uma cópia e mando para a Panini. Funciona muito bem. A editora é que fica em pânico com os meus e-mails: “Ah, lá vem mais um do Mauricio!” (risos). Também me ajuda a descobrir produtos piratas. Encaminho os posts para nossos advogados.

Você tem quase 200 mil seguidores no Twitter. Segue muita gente?

Não, pouca. Um dos que sigo é o Paulo Coelho… para tentar descobrir como ele faz as coisas (risos).

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