Ana Okada, no UOL

Capa do livro "Nas Entrelinhas do Horizonte", de Humberto Gessinger

O vocalista, guitarrista, pianista, baixista e escritor Humberto Gessinger lança neste mês “Nas Entrelinhas do Horizonte”, livro em que mistura memórias de ritos de passagem e reflexões sobre temas contemporâneos que ele discute em seu blog. Apesar de falar bastante do passado na obra, o músico conta que não gostaria de voltar no tempo. “Gosto de dialogar com o passado, mas por nada do mundo gostaria de voltar aos anos 1980, que é um tempo que todo mundo tem como um momento em que o rock e o pop estavam mais em evidência. Não acho que foi meu melhor momento como músico e acho muito mais legal hoje em dia, em que tenho as possibilidades de trabalhar com música e literatura”, explica.

Gessinger ficou conhecido como vocalista da banda Engenheiros do Hawaii, sucesso nos anos 1980 e 1990, e fala sobre o novo livro, sua rotina de escritor e músico na dupla Pouca Vogal, e a possível volta dos Engenheiros. Confira a entrevista abaixo:

UOL – Como surgiu o livro “Nas Entrelinhas do Horizonte”?
Humberto Gessinger – A semente do livro são alguns textos que publiquei no meu blog. Entrei tardiamente no mundo dos blogs, no ano passado, mas foi uma experiência muito bacana. Estou escrevendo ali há quase um ano e os textos que tirei dali eu tive que reescrever, porque o ‘timing’ é muito diferente. A primeira parte do livro são memórias de ritos de passagem que, depois de um tempo, você nota que são significantes, e a segunda são crônicas que partem de acontecimentos do cotidiano, como o vazamento das fotos da Scarlett Johansson. Dali surgem algumas reflexões, que ligo com outras experiências.

UOL – Você tem saudades do passado e do seu tempo no Engenheiros do Hawaii?
Gessinger – Saudades, não; mas gosto muito de carregar ele comigo. Sempre fui assim, de fazer com que as coisas que você faz hoje não rompam com o que você já fez, não gosto de jogar as coisas ao mar… Gosto de dialogar com o passado, mas por nada do mundo gostaria de voltar aos anos 1980, que é um tempo que todo mundo tem como um momento em que o rock e o pop estavam mais em evidência. Não acho que foi meu melhor momento como músico e acho muito mais legal hoje em dia, em que tenho as possibilidades de trabalhar com música e literatura.

UOL – No livro, você fala sobre como a indústria musical atual mudou em relação ao seu início de carreira. O que você acha da cena musical de hoje e de fenômenos como o Michel Teló?
Gessinger – Acho que os fenômenos de massa, como esse do Michel Teló, não mudam muito. Sempre vai ter esse tipo de coisa e também não tenho nada contra, a gente não pode exigir que todo mundo tenha com a música a mesma relação que a gente tem. Tem gente que leva a música super a sério, tem gente que leva numa maneira mais superficial. Tem artistas para todo tipo de gosto. Me incomoda muito menos o Michel Teló hoje do que me incomodaria nos anos 1980 em que, quando estourava um negócio desses, você quase não tinha opção.

Hoje, apesar desses estouros você tem mais opções de se informar, sem depender da grande mídia. Hoje é muito melhor conviver com esses grandes fenômenos do que era nos anos 80. Fui conhecer a música do Michel Teló há umas duas semanas; nos anos 80, isso seria impossível. Acho que hoje em dia é mais fácil estar fora da manada, para quem produz e para quem ouve. Agora, claro que isso exige uma atitude menos passiva. Se o ouvinte não for passivo, ele encontra coisas muito bacanas.

UOL – Se você pudesse voltar no tempo, mudaria alguma coisa na sua carreira?
Gessinger – Não mudaria nada, acho bacana o lance do seu trabalho ficar datado. Tem uns artistas que tem um pouco de pudor disso, querem que seu trabalho fique atemporal, mas acho que uma das funções da arte é isso, testemunhar seu tempo. Acho que tudo o que eu fiz foi bem isso, testemunhar meu tempo.

UOL – Os Engenheiros do Hawaii sempre tiveram uma relação de amor e ódio com a imprensa. Você sente que a banda foi injustiçada por conta disso?
Gessinger – Sim, claro, mas a gente está falando de música, faz parte a injustiça na arte. É um diálogo o que acontece, dá para entender… É um balé essa relação do artista com a crítica, não é uma coisa para ser lida muito literalmente. Tem horas que é legal falar de bem de algumas coisas, tem horas que é legal falar de outras, não levo tão na primeira pessoa. A crítica de arte é como a especulação imobiliária, tem horas que umas regiões estão bem valorizadas, outras horas, não… Sempre tentei me manter alheio a isso para não me deixar contaminar com essa visão do que está na moda, porque tem o modismo ‘Michel Teló’ e tem o modismo ‘caderno de cultura’, e ambos são passageiros.

UOL – E quanto às críticas de que a banda seria bairrista ou orgulhosa?
Gessinger – Isso é um caso de leitura errada. No Sul eles tem uma visão contrária da gente: queriam que o Engenheiros fosse uma banda representante, acham que a gente não carregou essa bandeira. Nesse ponto, é um problema de falta de comunicação. No Sul, a gente tem uma maneira, um humor que às vezes não é bem entendido e é tido como uma coisa arrogante, quando, às vezes, a gente está falando com autoironia.

UOL – Como é sua rotina agora, depois da parada que o Engenheiros deu, em 2008?
Gessinger – É mais tranquilo, mas aqui no Sul sempre foi tranquilo. O número de shows que faço não mudou muito, e eu sou um cara muito na minha, de ficar em casa, então não vejo uma mudança de achar que ‘ah, agora estou em outra fase’. Estou sempre compondo e escrevendo, e a coisa do blog é uma diferença que sinto, porque publico os textos sempre à meia-noite de segunda-feira… É uma pontualidade meio neurótica. Criou-se até uma onda de quem acompanha meus textos esperar por eles, e isso é uma mudança. Se desenvolveu uma cena em que as pessoas esperam para comentar e ficam conversando entre si, e rola um diálogo que é muito bacana. Parece que a gente está em volta de uma fogueira.

UOL – E o assédio dos fãs, como é hoje em dia?
Gessinger – Antes da coisa digital era meio proporcional: a tua exposição na grande mídia era proporcional ao seu assédio. Agora, pode te parar tanto alguém que conhece tudo a seu respeito, como aquela pessoa que não sabe nada sobre você. Não é mais linear a relação com as pessoas. Nos shows, nos anos 1980, em todo lugar era tudo meio parecido, as músicas que faziam sucesso eram as mesmas. Hoje em dia é diferente em cada lugar, nunca se sabe muito bem o que você vai esperar, você fica ao sabor do momento. É mais divertido hoje ter uma banda do que era nos anos 1980.

UOL – O Engenheiros vai voltar?
Gessinger – Vai voltar, mas não tenho data nem nada prático para dizer. É até chato, porque as pessoas ficam me cobrando e parece que eu estou me fazendo, mas não tenho nada realmente. Tenho conversado com alguns membros da banda, mas o Pouca Vogal toma muito tempo. Acho que sai, sei que uma hora vai voltar, mas não gostaria de voltar para a estrada num clima de ‘turnê comemorativa’. Faço aniversário no dia 24 de dezembro, então acho que isso me deixou meio cabreiro com datas…

Veja o vídeo de apresentação de “Nas Entrelinhas do Horizonte”:

dica do Jarbas Aragão

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