Marco Rodrigo Almeida, na Folha.com

As mulheres, e os livros que elas escrevem, foram o tema da mesa mais concorrida até agora do Festival da Mantiqueira.

O evento literário em São Francisco Xavier, distrito de São José dos Campos, reuniu na manhã de hoje (27) as escritoras Carola Saavedra, Tatiana Salem Levy e a atriz Maitê Proença.

O tema da mesa era “A Mulher na Escrita ao Longo dos Tempos”. Para elas, a tal “literatura de mulherzinha” é algo a ser combatido.

“Não gosto da definição ‘literatura feminina’. A gente não fala em ‘literatura masculina’. Parece que há uma literatura e uma sub-literatura, feita por mulher”, disse Levy, autora de “A Chave da Casa”.

Saavedra (“Toda Terça”) argumentou que falar em literatura de temas femininos não faz mais sentido.

“Houve um momento em que as mulheres escreviam sobre temas supostamente femininos, como casa e filhos. Isso era o mundo delas. Mas depois a mulher sai de casa, vai trabalhar. Isso se reflete no que elas escrevem. Hoje não há mais temas femininos.”

Maitê, autora de “Entre Ossos e a Escrita”, disse concordar com as colegas da mesa, mas destacou que “acha um equívoco as mulheres não gostarem dessa distância [que as diferencia dos homens]”.

“Vejo muita mulher ter uma postura de trabalho masculina para entrar no mercado de trabalho.”

Para a atriz, falar de literatura em termos femininos reflete que as mulheres ainda não conquistaram os mesmos direitos políticos dos homens. “Ainda há muita mulher escravizada no mundo.”

Em tom de brincadeira, disse ter a toda hora ideias para escrever romances, mas que esquece tudo ou não tem tempo porque é “escravizada” pela Globo. Ela disse que trabalhou por 20 dias seguidos, sem folgas de fim de semana, na gravação da novela “Gabriela”.

Para a atriz, uma característica comum entre as escritoras é que “livro de mulher tem que ser escrito nas brechas” do trabalho doméstico.

CLARICE

Talvez a principal referência feminina da literatura brasileira, Clarice Lispector, é claro, não poderia ser esquecida no debate. Para Saavedra, o mito em torno da escritora fez um grande mal à literatura brasileira.

“Ela tinha uma escrita poética, muito próxima da loucura, que ficou muito associada à mulher, à literatura feminina. Então um monte de mulher tentou seguir esse caminho. Mas não é possível escrever como ela, fica parecendo uma imitação barata. Se libertar desse mito Clarice fez parte da minha geração.”

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