Juan Pablo Villalobos, no Blog da Companhia

As pessoas sensatas falam de seus livros favoritos com carinho. Olham para o céu e as nuvens (ou para o teto e suas manchas de umidade, se estão num espaço fechado), sorriem de maneira sonhadora e dizem frases hiperbólicas como “essa leitura mudou minha vida” ou confessam que se apaixonaram pelo protagonista. É bonito o mundo das pessoas sensatas que falam com carinho de seus livros favoritos.

Porém, há livros favoritos que são muito teimosos, que gostam de interferir na vida cotidiana das pessoas que desconhecem a sensatez. Hoje eu estava buscando um livro normal (quero dizer: um livro bom que não tem pretensões de livro favorito) e na busca apareceu outro presumido que não estava procurando: um livro favorito. Os Cuentos completos do escritor argentino Fogwill. Com o livro nas mãos, eu fiz o que os escritores fazem quando se lembram de seus livros favoritos: olhei para o chão, senti uma dor terrível no peito que descia ao estômago e comecei a me deprimir e a me entregar ao abatimento porque o maldito Fogwill escreveu esses contos e não eu. Porca miséria.

Não resisti: esqueci o que eu ia fazer (escrever sobre outro livro para outro blog) e, cabisbaixo, me dirigi à poltrona favorita para ler de novo, pela trigésima vez (perdão pela hipérbole), meu conto favorito do livro favorito: “Muchacha Punk” (“Garota Punk”).

Li o começo, as primeiras seis linhas, e a dor da beleza literária me bateu outra vez de maneira contundente (vou arriscar uma tradução): “Em dezembro de 1978 fiz amor com uma garota punk. Dizer ‘fiz amor’ é uma expressão, porque o amor já estava feito antes de minha chegada a Londres e aquilo que ela e eu fizemos, esse monte de coisas que fizemos ela e eu, não eram amor e nem mesmo — me atreveria hoje a demonstrá-lo — eram algum amor: eram isso e só isso eram”.

Caro fantasma do Fogwill (Fogwill morreu há dois anos): como você se atreve a escrever tão bem? E agora, como o resto dos escritores mortais que às vezes tenta escrever um conto vai fazer, repito, como vamos fazer para escrever o começo de um conto?

Mas ainda não contente com o início, Fogwill continua com o conto e no final do primeiro parágrafo introduz um dos recursos magistrais do relato, uma apelação ao sujeito que está com o livro nas mãos: “Primeira decepção do leitor: neste relato eu sou varão”. A partir desta frase, Fogwill começa a criar uma tensão metanarrativa que rompe a ilusão de leitura, a elegantemente chamada “experiência estética”.

Vou traduzir três fragmentos maravilhosos só pelo prazer de sentir que sou o autor do conto, pelo menos o autor da versão em português. “O frio inglês do relato cravava os ossos argentinos do narrador”. “Ela tomou um golinho daquela mistura de Coca-Cola e Chianti que preparou na página anterior, mas que eu, com esta pressa por escrevê-la, esqueci de registrar”. “Agi como homem e como argentino e ainda que ninguém nunca atine a determinar o que um punk espera da gente, eu não podia permitir que no dia seguinte minha garotinha se amargasse e fosse por todas as discotecas de Londres insinuando que nós somos uns filhos de puta, desfigurando ainda mais a horrível imagem da minha pátria que já há algum tempo inculcam aos jovens europeus”.

Não sei se outros escritores sentem a mesma coisa (e gostaria de saber), mas cada vez que leio uma frase perfeita sinto uma mistura de Chianti e Coca-Cola, quero dizer, de prazer e dor: o prazer e a dor de saber que só a literatura pode conseguir esse efeito, o prazer e a dor de confirmar uma vocação, o prazer e a dor de entrar em comunhão com o mundo, com a história, com a sociedade, com a natureza, com o ser, e, depois de tudo isto, a dor de reconhecer que essa combinação específica de palavras que configuram essa frase já foi escrita, já ocupa um lugar na história da literatura.

Eu acredito que a maior homenagem que um escritor pode fazer a outro é exatamente essa tristeza e inveja íntimas, que se ocultam das pessoas sensatas com vergonha porque evidenciam um desajuste do ego — um desajuste do ego, vamos concordar, que é a origem da própria vocação do escritor.

A sus pies — con un poquito de odio —, señor Fogwill.

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