Adilson Alves, na Gazeta do Povo

O propósito desta coluna é aprofundar uma questão levantada por um leitor de que a queda de alguns acentos diferenciais “fará com que nossa fala fique mais ambígua e difícil do que já é”. Dois exemplos dados na coluna anterior: caíram os acentos de “pêra” (fruta) e “pára” (flexão do verbo parar).

Como procurei deixar claro ao leitor, a fala não será afetada pela queda dos acentos. Ou seja, continuamos falando do mesmo jeito que antes. A reforma ortográfica atinge apenas a escrita. A grafia de “auto-escola” passou a ser “autoescola” e, para ficarmos com um exemplo, digamos, mais radical, “jibóia” passou a ser “jiboia”, sem acento. Em ambos os casos, mudamos a forma de escrever, mas a de falar é absolutamente a mesma.

A acentuação serve apenas como um dispositivo para a representação gráfica das palavras. Quando pronunciamos a palavra “secretaria”, ouvimos a sílaba “ri” se destacar (se-cre-ta-RI-a). Se pronunciamos “secretária”, percebemos que a sílaba “tá” se destaca (se-cre-TÁ-ria). Essa distinção é automática na fala de qualquer brasileiro, independentemente do grau de escolaridade. Por isso, ambiguidades estão descartadas.

Mas na escrita, conforme a situação, pode haver mal-entendidos, embora pontuais.

Vamos supor que um jornalista queira dizer que determinada pessoa esteja almejando uma secretaria, isto é, uma pasta na administração pública (Educação, Fazenda, Comércio etc.). Aí, por um simples erro de digitação, nos informa isto: “Ele não esconde de ninguém que deseja essa secretária há anos”. Mesmo que a matéria tenha elementos para supor que se trata de um cargo, a informação literal, ao pé da letra, é de que essa pessoa está de olho numa mulher que exerce a função de secretária.

Contudo, até mesmo em casos extremos como esse, o leitor vai levar em conta a matéria completa.

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